A propósito de uma sessão de cinema – III Parte- C Um olhar sobre o mundo das matérias-primas ou o clube dos milhões de milhões de dólares; por Joshua Schneyer, Reuters – 2. Seleccionado e traduzido por Júlio Marques Mota.

(Conclusão)

 

Uma análise do passado

 

Apesar de uma relativa falta de supervisão e regulação , taís posições deveriam ter de chamar a atenção das autoridades, dos supervisores, dos reguladores .”Sempre houve uma certa preocupação sobre a influência das empresas de negócio, de trading”, disse Craig Pirrong, professor de finanças e especialista nos mercados de produtos básicos e matérias primas na Universidade de Houston, que sublinha o facto de que algumas empresas “têm estado associadas a alegações de manipulação do mercado”.

A atenção do público e dos reguladores está normalmente centrada sobre a evolução dos preços. A subida dos preços mundiais dos bens alimentares em 2007 provocou um clamor contra as maiores empresas de comercialização de cereais, quando os preços do petróleo saltaram para um valor recorde de 147 dólares por barril em 2008, o Congresso dos EUA estudou e levantou um inquérrito ao papel das empresas de trading sobre o petróleo, mas não encontraram nenhuma arma a deitar fumo, nada viram de evidente . Mas em Maio a Commodity Futures Trading Commission processou Arcadia e a Parnon, ambas as empresas a serem propriedade de um bilionário armador norueguês , por supostamente ter manipulado os preços de petróleo dos EUA há três anos antes, acumulando milhões de barris que não tinham intenção de usar imediataamente. As empresas negam as acusações.

Algumas transgressões foram caixas nos jornais, nos media. Um petroleiro fretado por Trafigura foi interceptado nas Caraíbas em 2001, sob suspeita de transportar volumes ilegais de petróleo iraquiano. Através de um acordo Trafigura concordou em pagar uma multa de 5 milhões de dólares, mas não foi acusada de contrabando e negou as irregularidades. Em 2006, um navio-tanque fretado pela mesma empresa despejou lixo tóxico na Costa do Marfim  tendo alegadamente feito milhares de pessoas doentes e em que 16 delas morreram. Os tribunais não encontraram nenhuma ligação entre os seus resíduos e as pessoas doentes. Trafigura tomou as medidas legais para manter o relatório sobre o incidente na Costa do Marfim fora do alcance dos jornalistas mas os detalhes foram finalmente tornados público.


E isto não é só com os europeus. Os executivos de ADM de Illinois, Archer Daniels Midland, foram presos muito antes, nos anos 90, por concluio na fixação de preços internacionais da lisina, um aditivo para a alimentação animal. Depois da empresa Cargill, sediada no Minnesota ter construído um enorme terminal de soja nas margens do rio Amazona em 2003, foi alvo de fortes críticas de Greenpeace e sujeita a injunções por parte do governo brasileiro devido a que supostamente terá incentivado uma maior exploração dos terrenos agrícolas na frágil floresta tropical. Cargill, desde então, ficou sujeita a uma moratória sobre a compra de soja produzida nas terras recém-desflorestadas.


A  pressão e as arbitragens

 

Para muitos comerciantes de commodities, a manobra mais rentável é a de pressionar o mercado, fazer variar os preços para cima ou para baixo, para se ganhar uma posição dominante. No início de 2000, o fluxo de petróleo bruto Brent – usado como referência de preço global – caíu para 400 mil barris por dia a partir de mais de 1 milhão no final de 1980. Alguns  traders sobre commodities aproveitaram a chance de comprar o equivalente a quase toda a oferta disponível. Os spreads sobre os preços para fornecimento imediato imediatamente dispararam, reduzindo as margens para as refinarias em todo o mundo. O refinador americano Tosco processou Arcadia e Glencore pela manipulação do mercado e o caso foi resolvido fora do tribunal.


Nos metais, as existências em armazém podem ficar imobilizadas durante anos como garantias do empréstimo, permitindo que os mesmos comerciantes que dominam o mercado de metais controlem também uma enorme parcela da oferta mundial – um aparente conflito de interesses que atraiu fortes críticas do Parlamento do Reino Unido.

“Os armazéns parecem ter uma capacidade infinita para guardarem os metais , mas uma capacidade muito pequena para libertá-lo”, disse Nick Madden da Novelis, a maior produtora mundial em laminados de alumínio.

As firmas de trading viram a oportunidade de alavancar o armazenamento de metais depois da crise financeira de 2008. Dos seis principais armazenistas de metais apenas um, sediado na Holanda, C. Steinweg, continua independente. As empresas de trading concorrem com os bancos nos despojos – Glencore, Trafigura e Noble tomaram assim cada uma delas  uma empresa de armazenamento, Goldman e JP Morgan tomaram as outras.

E, de modo diferente, os produtores de bens básicos, como a gigante petrolífera Exxon Mobil nos EUA, são empresas de comércio que não ganham dinheiro quando os preços sobem. Muitas jogam com a arbitragem – actuando sobre a divergência nos preços em diferentes locais, entre as diferentes datas de entrega futura, ou entre a qualidade de uma mercadoria em lugares diferentes.

Isso é o que Koch, Vitol e outros fizeram em 2009, quando estes armazenaram 100 milhões de barris de petróleo por via marítima em navios-tanque. Graças a uma situação de mercado conhecido como contango – um período em que os compradores pagam mais caro pela entrega futura do que se recebem os seus carregamentos imediatamente  – estas empresas puderam vender futuros e ganhar assim 10 dólares por barril ou mesmo mais.

História de Marc Rich

Muitos dos maiores especuladores ou traders sobre petróleo e sobre o comércio de metais têm as  suas raízes num famoso trader, Marc Rich, cujo triunfo nas décadas de 60 e 70 foi a criação de um mercado spot de petróleo, deslocando assim muitos negócios das mãos das empresas ditas as majors.


Nascido na Bélgica  trabalhou para Philipp Brothers, mais tarde chamada Phibro, com 20 anos, de onde saíu, em 1974, com um pós-graduado da empresa mãe Phibro, Pincus “Pinky” Green para criar a firma Marc Rich e Co AG, na Suíça.


Rico, agora com 76 anos, viria a acabar na lista dos mais procurados do FBI por suposta evasão fiscal e de comércio de petróleo do Irão depois da revolução, em 1979. Mais tarde foi perdoado por Bill Clinton. Os seus colegas de trabalho tomaram o controle da empresa em 1994, agora com o nome Glencore.


Várias das grandes firmas de trading ainda são grandes firmas de base familiar – empresas como a gigante agrícola Cargill, a empresa privado de topo dos EUA, ou Koch Industries, sediada no Kansas a número dois e esta tem como director – executivo Charles Koch, um activista libertariano, um ultra-neoliberal, com uma fortuna pessoal de 22.000 milhões dólares de acordo com a Forbes, que disse que a sua empresa só seria pública “sobre o meu próprio cadáver”. “O seu pensamento é, abrir os livros (contabilidade, creio) para o mundo para quê?” , disse um ex-lobista de Koch, que pediu o anonimato. ” Koch beneficia com a  privacidade e nisto é surpreendentemente ágil o que lhe é fortemente rentável como sabemos.”


A velha guarda agora enfrenta agora um desafio enorme de uma nova geração de concorrentes asiáticos. Empresas como Noble sediada em Hong-Kong ou a a Olam Hong sediada em Singapura não são nada desconhecidos nestes negócios, mas eles estão a alargar a sua esfera de influência  da mesma maneira que está a aumentar a influência e a importância da China nos mercados de commodities. Os fundos estatais chineses têm fluido para Noble e para os traders asiáticos privados. Como a influência da China cresce, é muito provável que as empresas chinesas venham a criar as suas próprias dinastias nestes ramos . Seguindo uma prática semelhante à dos grandes jogadores ocidentais nestes mercados a empresa petrolífera estatal PetroChina criou uma base de trading em Houston para o petróleo e alugou enormes tanques de armazenamento de petróleo nas Caraíbas. “A China está-se a tornar cada vez mais parecida com a Glencore”, disse Hinde. “O Estado chinês está a financiar empresas de trading extremamente capazes de levarem a cabo as suas propostas, os seus objectivos. Nós não ouvimos ainda falar muito sobre eles, mas o tempo virá e deles, depois, muito se falará. [A ver vamos como dizem os portugueses????] .”


E a seguir segue-se um olhar sobre as 16 maiores empresas que valem 1,1 milhão de milhões de dólares de rendimentos agregados,  em energia, metais e bens agrícolas.

 

Joshua Schneyer,  Commodity Traders-the trillion dollar club, Reuters, 21 de Outubro de 2011.

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