A crise, designação sob a qual agrupamos todos os problemas que proliferam á nossa volta, está para durar, já ninguém duvida. Quando, há anos, algumas pessoas mais avisadas falavam da ameaça de uma recessão, eram postas a ridículo (quando não eram insultadas abertamente). O pior é que estamos mesmo na recessão, e ela está para lavar e durar.
A principal dificuldade para se conseguir ultrapassar esta recessão é, na verdade, a dificuldade em se debater abertamente as suas causas. E quando se consegue essa discussão, aparecem as opiniões (melhor dito, sentenças) de que nada se pode fazer. Assim se chegou ao empobrecimento inevitável, segundo Passos Coelho. E vamos senti-lo, não de uma vez só, tipo abalo doloroso, mas de uma maneira continuada e prolongada, muito mais dolorosa, e sem saber quando será o fim. Nem o Álvaro da economia faz ideia. Nem quer saber, embora venha falar em fins do princípio, ou princípios do fim da crise (a diferença não deve ser grande). O que nos faz suspeitar de que não dá grande importância ao assunto.
Na realidade, a começar pela Europa, estão-se a agravar os fossos (são muitos) entre governantes e governados. Os primeiros olham para os segundos cada vez mais como se fossem um objecto. Subir ou descer ordenados, cortar investimentos nos serviços de saúde, discutir as regras para os serviços de televisão, prevenir ou não alterações climáticas, são matérias para ser tratadas com frieza e distância. A prioridade é para o equilíbrio orçamental, a manutenção do statu quo. Nas épocas de crise, é preciso ver onde está o dinheiro. Para quê? Claro que para recapitalizar a banca. Quem falou em acumulação de capital?
Esta prioridade faz perder de vista o resto. Decisões prioritárias são proteladas, para não dizer negligenciadas, causando mesmo graves prejuízos financeiros. Vejam o Expresso de sábado passado. O atraso do TGV (o governo já recuou na decisão de não fazer a obra) pode fazer perder 1250 milhões de euros. O que se passa? A decisão de fazer o TGV entre Lisboa e Madrid talvez seja criticável, mas deixar de fazer a obra parece ser ainda pior. Outra questão, também abordada no Expresso, é da manutenção de infra-estruturas. Concretamente a manutenção das pontes entre o Porto e Gaia. Estarão à espera de um novo desastre como o de Entre-os-Rios?

