Uma sapatilha da marca New Balance.
Como é que se dizia, antes? Sapatilhas. Ténis. Assim se designavam, há ainda uma geração, as sapatilhas de desporto, em nome dos desportos anglo-saxónicos que as tinham lançado com esse fim. Director de produçãoem New Balance, George Skafas, 57 anos, recorda-se: não somente já trabalha neste sector desde há um quarto de século, mas, diz, “o meu pai e os meus avós foram trabalhadores no calçado. A Nova Inglaterra era o reino da nata do desporto “.
Com um ar muito atento, mas também triste, avança com a reflexão esperada: sim, a sua empresa é “o último dos Moicanos”. Uma espécie de realidade um pouco absurda, anti-diluviana nos Estados Unidos. Quando Nike, Adidas, Reebok, que dominam o mercado mundial das sapatilhas de desporto, desde há muito tempo, deslocalizaram a sua produção em 100%, New Balance, quarto fabricante americano, produz desde sempre nos Estados Unidos. A sociedade possui cinco fábricas, na Nova Inglaterra, tem 2.600 assalariados, sobre um total, a nível mundial, de 4.500 (possui cinco outros locais na Grã-Bretanha, na China, na Indonésia e no Vietname).
Durante a recente crise, New Balance (um pouco mais de 2 mil milhões de dólares ou seja 1,4 mil milhões de euros de volume de negócios) não despediu ninguém nos Estados Unidos, onde a empresa manteve o nível das suas vendas: um certo ar de proeza, tendo em conta o consumo interno em baixa. “ Temos lucros, mas se pensássemos apenas em aumentar as nossas margens, há muito tempo que teríamos, também, deslocalizada toda a nossa produção”, diz Rob DeMartini, o seu PRESIDENTE.
Mas como fazer para não imitar os seus concorrentes? A explicação, responde, é bem simples: “Somos propriedade de um grupo familiar de accionistas e não estamos introduzidos em Bolsa. O meu horizonte, não são os dividendos a distribuir aos accionistas no fim do trimestre. Posso planificar o meu desenvolvimento durante um arco de tempo de dez anos. “
A sua reflexão inscreve-se num debate de importância crescente nos Estados Unidos: qual foi o impacto da economia financeira sobre a economia do país? Um debate sobre o qual a administração Obama se apoia para dar forma ao discurso do seu candidato na campanha para a reeleição, que se anuncia árdua. O tema é aqui central. E inscreve-se num ambiente onde o sentimento “do declínio americano” cresce significativamente. O desaparecimento de segmentos inteiros da indústria transformadora e o facto de se ter criado uma economia quase inteiramente fundada sobre a produção de serviços – em especial financeiros – estarão estes dois factos na origem do enfraquecimento do país?
Há cada vez mais economistas a levantarem a questão. Apoiam-se sobre dados estatísticos impressionantes: há cinquenta anos, a produção de bens manufacturados constituía quase 40% do produto interno bruto (PIB) americano. Esta relação caiu depois para cerca de 12 a 13 %.
Os Estados Unidos, onde o consumo é o motor do crescimento, quase que não produzem mais nada do que consomem. Certos economistas consideram que só um relançamento da produção de bens industriais pode eliminar este “declínio”.
“Não se voltarão a produzir as mesmas coisas que em 1960, e não se retornará aos mesmos níveis, mas ganhar 3 ou 4 pontos de produção alteraria bem os dados da situação”, diz por exemplo Jeff Madrick, autor do recente best-seller Age of Greed, The Triumph of Finance and the Decline of America, 1 970 to the Present“ uma era de ganância . O triunfo da finança e o declínio da América, de 1970 até hoje”).
Elizabeth Warren, a ex-conselheira económica do presidente Barack Obama, tem o mesmo discurso: a saída do túnel passa “pela reconstituição de uma classe média mais forte”.
Em New Balance, Claudio Gelman, director do desenvolvimento, pensa que a guerra, difícil, não está perdida à partida. É necessário, garante, “pôr cobro à “Wallmartização” da sociedade americana”, esta comercialização a todo o custo e ao mais baixo custo possível de produtos de fraca qualidade.
A sua solução? “Fazer como os Alemães, os Japoneses: prioridade à qualidade. Para isso, é necessário investir no capital humano. Quando os assalariados têm o sentimento que a gestão os respeita e os ouve, obtêm-se resultados espectaculares. Com trabalhadores bem formados, é com a qualidade que se resiste à concorrência.” Na fábrica de Lawrence, fizeram-se vir especialistas de Toyota para melhorar cada detalhe do processo de produção. Resultado: um aumento da qualidade e da produtividade em cerca de 25% em sete anos, e stocks reduzidos de 95%.
Uma informação, de passagem: o pessoal é hispânico em cerca de 85%. Entre a gestão eficaz, aposta-se sobre a qualidade e trabalhadores mais eficazes que os seus congéneres asiáticos, repetem os directores de New Balance, e pode-se assim eliminar mais de metade da vantagem concorrencial que representam os custos salariais do terceiro mundo.
“Seremos talvez os últimos, mas estamos orgulhosos de estar aqui diz Ada Carasquillo, de origem porto-riquenha, que trabalha no controlo de qualidade. Sindicatos? Para fazerem o quê? Aqui estamos todos informados e somos todos solidários. Obama deve renegociar os acordos com os países que nos fazem uma concorrência injusta. É necessário salvar o emprego americano. “Com palavras bem escolhidas , o Presidente não diz outra coisa. Este espera dos seus dirigentes políticos que “defendam uma mundialização equitativa”.
Quando o encontrámos, o senhor DeMartini vinha de Washington, onde tinha encontrado os lobistas da Associação americana do vestuário e do calçado. Objectivo: convencê-los a intervirem para obterem da Casa Branca o adiar da extensão próxima ao Vietname e sete outros Estados do Trans-Pacific Partnership, de um acordo de redução das pautas aduaneiras. “Uma grave ameaça”, diz-nos DeMartini, o Vietname pratica salários ainda mais baixos que os Chineses.
Não pensa “que seja possível travar esta mundialização”, mas pede que se beneficie “de tempos suficientemente longo para que os países se adaptem”. Um assunto sobre o qual ” se encontram em oposição à Nike e à Adidas “.
Hoje, acrescenta DeMartini, os Estados Unidos continuam a ser bem mais fortes que a China, mas o pêndulo da balança está a deslocar-se e muito. Há uma relação directa entre o desmoronamento da produção nos Estados Unidos e o nosso declínio económico. Mais grave ainda, é também o desaparecimento do “knowhow”. Ross Perot (candidato independente à presidência em 1992 e 1996) já o tinha dito. O problema tem-se agravado desde então. Perder as competências, é perder a batalha do futuro. “A ouvir isto, pensa-se que se está a ouvir Jared Bernstein, economista próximo dos meios sindicais, que foi conselheiro do Vice-Presidente Joe Biden antes de, como tantos outros, se ter eclipsado na Casa Branca em Janeiro.
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