Um café na Internet
De Santarém a Fátima
De Santiago a esta parte vários foram os retornos ao Caminho. Havia diversos projectos. O percurso de Santiago a Finisterra. A variante de Santarém a Coimbra passando por Tomar. O Caminho de Faro a Lisboa, se é que existe, isto é: se está sinalizado. (Interroguei a Associação dos Amigos do Caminho Português de Santiago, responderam que não, mas também afirmaram que o Caminho de Santiago passando por Minde, Fátima e Caxarias não existe, o que eu e os leitores, para além de tantos estrangeiros que o continuam a palmilhar, sabemos ser falso.)
Em Julho de 2010 volto a caminhar de Santarém a Caxarias – com uma amiga francesa. Após várias semanas de canícula, a meteorologia prevê quatro dias de céu um pouco mais clemente. Por estar calor e o percurso ser curto, trago na mochila o mínimo dos mínimos: nem camisola nem polainas nem impermeável nem barras vitaminadas. Quatro quilos e meio, enfim, por conseguinte a etapa de Santarém a Pernes parece-me mais curta do que em Novembro, não obstante um escaldão no pescoço e uma bolha no calcanhar esquerdo. A temperatura andava pelos trinta graus – um calor excessivo.
No segundo dia o sol aparece um pouco nublado porém, à tarde, temos outra vez a impressão de assar na grelha. A estrada de Pernes a Arneiro das Milhariças, com a serra à nossa frente, continua muito bonita, a subida de Arneiro das Milhariças a Chã de Cima é agradável, sem a lama que em Novembro se colou às minhas botas, a vista de Arneiro, junto aos moinhos, aparece-nos na sua integralidade. Somos perseguidas por cães nos sítios com lixo onde, em Novembro, tive que me defender. Todavia, sendo duas e prevenidas, escapamos com facilidade. Almoçamos entre famílias numerosas e barulhentas na nascente do Alviela. Passamos pelo supermercado de Monsanto à hora do almoço; está fechado. E prosseguimos na direcção da serra. A subida até ao alto de Minde é, será sempre, sublime: os muros de pedra branca, o sedum florido, uma brisa de alecrim e rosmaninho…
Maryvonne mostra-se perplexa:
– E não há turistas?!
Os portugueses têm a gentileza de se aconchegarem nas praias e deste modo contribuirem para a preservação da serra.
Dormimos em Minde. No terceiro dia o céu mantém-se cinzento: um tempo ideal para caminhar. Sentimos mesmo, por vezes, uma brisa clemente. Em Novembro os tons dominantes eram os ocres da terra e os verdes das plantas; agora há cores mais diversas. Vemos muros de pedras colossais, bonitas cancelas de madeira, campos de gramíneas ao vento, manchas de intenso azul… E papoulas, malmequeres, flores de orégão… Num olival, entre pedras que os milénios esculpiram, abrimos uma lata de sardinhas Ramirez com molho picante, que algumas gotas de limão acabam de temperar. Entaladas num pão excelente, saboreadas num lugar excepcional: um supremo regalo! Exclamamos nós.
Chegamos a Fátima demasiado depressa.
(Continua)

