Depois da Introdução do Le Monde sobre o grande salto em frente para a globalização e para a desindustrialização que lhe está associada, situados ambos os saltos os seus inícios nos tempos de Reagan e Margaret Thatcher, situada pois nos tempos de There is not Alternative (TINA), depois de com estes pequenos artigos teremos passado pelo artigo New Balance, o último dos Mohicanos, onde aprendemos que o Ocidente não pode estar a correr o risco de estar a perder a batalha do futuro, mas que é isso que se está a fazer quando se perdem as produções e sobretudo quando com isso se perdem as competências que lhes estão ligadas, de aí aprendermos com industriais de nível da New Balance que nos dizem que não há marcha atrás com a globalização mas que com esta globalização é que não, não lhes deixa sequer tempo de se adaptarem de reagirem às mudanças que esta impõe, depois de passarmos, com o segundo artigo por Reading, mas podia ser uma das muitas cidades americanas do grupo das velhas cidades industriais, onde pudemos ler:
“Despedimentos, Reading, desde há quinze anos que parece quase não conhecer outra coisa. Uma cascata que, “nesta cidade de colarinhos-azuis os salários e a cobertura social eram bons e a sindicalização elevada “, de acordo com o consultor local John Devere, deixou o mercado de trabalho e o emprego exangue. A cidade e a sua periferia abrigavam várias indústrias do antigo modelo industrial (metalurgia, agro-alimentar, têxtil), mas também “a nova economia ” (electrónica, telefonia)… Dana, subcontratante automóvel, fechou em 1999, como fechou também a fábrica de metalurgia Carpenter que dispunha de um laboratório de investigação. Herschey (agro-alimentar), Baldwin Brass (material de escritório) foram as fábricas seguintes a tomarem o mesmo caminho.”
Depois de percebermos que a consequência desta situação seria o aparecimento de fenómenos de lumpen, de gente que nunca mais será empregável, conforme se diz na peça:
“O ambiente são” deteriorou-se com o aparecimento de gangs. Quase por toda a parte na cidade, encontram-se estes milhares de jovens e menos jovens desempregados que já nem emprego procuram, sentados nas suas varandas e cujos trabalhadores sociais locais dizem que “estes nunca mais voltarão a trabalhar.”
Depois de percebermos que esses mesmos jovens não vivem só en Reading mas noutras cidades, em Portugal também e que alguém nos fale então dos modos de vida dos jovens em cidades como Setúbal ou Barreiro, iguais a tantas outras cidades.
Depois de percebermos com a peça Reading que num ápice, a rapidez de que se falava na peça anterior, esta cidade onde se vivia bem passou à situação de grande pobreza:
“Doug Longo, o director e organizador de Greater Berks Food Bank, que dá gratuitamente alimentos aos necessidades, apresenta um espantoso resumo do desmoronamento desta cidade: o seu organismo distribuirá este ano 2.800 toneladas de produtos e alimentares, contra 740 toneladas há quinze anos.”
Depois de pensarmos e vermos que isso é que a uma grande velocidade nos está a acontecer a nós, aqui em Portugal, com a diferença de que é o Governo que assume a necessidade do empobrecimento sem sequer se questionar sobre o que isso socialmente significa, ou será que não haverá pelo nosso executivo quem seja capaz de seriamente pensar?
Depois de percebermos também numa curta frase como a instalação momentânea da pobreza se projecta num futuro longínquo, percebemos também os desgastes brutais que condicionam todo um futuro quando se afirma que mesmo que a empresa Lucent Technologies se reinstalasse de novo em Reading com Agere:
O mais desolador é que se por milagre Agere (Lucent Technologies) pudesse voltar a abrir já não teríamos população capaz de aí trabalhar. O que nos está agora a acontecer já se verifica noutras médias na Pensilvânia “, ou seja a perda de capacidades de reconstruir um futuro diferente do que a globalização aí está a instalar, que se falava em New Balance.
Depois de percebermos, ao passarmos por Sprint Hill, onde a reconquista de um emprego ou a criação de um novo posto de trabalho passa por cedências enormes, que a globalização, ao colocar sempre presente a hipótese de deslocalização ou de não implantação, também se exerce por outros canais colocando os assalariados dos vários pontos do globo em clara concorrência uns contra os outros mas para usar a linguagem do cinismo da União europeia trata-se aqui de concorrência falseada, trata-se aqui de uma certa descida para o fundo. Dessa peça retemos:
“Mas a relocalização do construtor no Tennessee não tem apenas a ver com isso. Conhecem-se as grandes linhas do acordo que poderá ser assinado. A maior parte dos assalariados serão novos nesta fábrica. Segundo o contrato, ganharão de 15 à 19 dólares (10,9 à 13,8 euros) de acordo com o posto, contra 29 dólares para os seus homólogos de Michigan. Quanto à protecção social, quanto às condições de pensões de reforma serão também elas muito inferiores às normas de GM em vigor até agora.
Em toda a região, os construtores automóveis japoneses, alemães e sul-coreanos instalaram-se impondo condições sociais muito abaixo das que o UAW obteve. Volkswagen produz no Tennessee, da mesma maneira que Nissan. Mercedes e Hyundai estão no Alabama, Toyota também aí está bem como no Mississípi. BMW monta os seus veículos na Carolina do Sul, etc.
Todos “reexaminam as condições de contratação em baixa, muito abaixo das convenções colectivas, 30% à 40% dos seus efectivos são temporários, explica. Diz-nos O’ Rourke, que todos fazem o possível para impedir a presença do sindicato nas suas fábricas. Se queremos preservar os nossos empregos, é necessário então sabermos adaptarmo-nos.”
A Spring Hill, GM aceitou a presença do sindicato. Por outro lado, este deverá fazer concessões. “Estamos numa concorrência mundial. É necessário apertar-se os cotovelos, estarmos todos unidos, caso contrário iremos todos ao fundo, diz-nos este sindicalista, homem maciço de 54 anos, do qual 30 foram passados na GM.”
Não se deslocalizaram as fábricas, relocalizaram antes, é o que se pode dizer, mas fizeram-nos diremos, deslocalizando, no sentido inverso, as condições de trabalho, impondo ali, nos Estados Unidos, as condições de trabalho dos sítios para onde deslocalizaram antes. Os nossos neoliberais de hoje precisariam de ler e bem a obra de Adam Smith.
E aqui lembro-me de uma situação na empresa John Deere onde numa das suas fábricas dos Estados Unidos se ameaçou os operários de deslocalização para o México, salvo se os ritmos de intensidade de trabalho aumentassem e passassem a produzir x+y unidades por semana, as x que produziam, mais as y que se pretendia como produção adicional. Esse aumento verificou-se, estabilizou-se e depois John Deere deslocalizou essa produção para o México, onde terá depois conseguido a mesma intensidade de trabalho. Sem mais comentários salvo uma pergunta: por onde andam os reguladores ou será que para as condições de trabalho estes não existem?
Depois de percebermos tudo isto é pois tempo de voltarmos a nossa e a vossa atenção para a Europa que se tem estado a desindustrializar e onde as taxas de desemprego assumem valores históricos e onde, relativamente aos jovens já se fala em duas gerações perdidas.
Começaremos, logo às 22 horas, por um belo texto da OFCE, de Outubro de 2011, com o tema “ Que política industrial na mundialização?“ em que se problematiza a ausência de política industrial na União Europeia.
E boa leitura.
Júlio Marques Mota
