(Continuação)
Pasqualini me disse
certamente, meu jovem amigo, o Brasil moderno não deve esquecer que o seu progresso e o bem-estar dos brasileiros dependem muito das relações que saberá criar e manter com a comunidade internacional; por isso mesmo, a criação e desenvolvimento do Mercosul é uma das maiores realizações da ação política brasileira dos nossos tempos. Isso, não somente pelos resultados econômicos e financeiros atingidos até aqui; não só pela definitiva tomada de consciência da importância do «mercado de fronteira» para o nosso desenvolvimento, mas igualmente pelo novo sistema de relacionamento cultural com a Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia. O Mercosul é o horizonte aberto à modernidade dos países que o compõem ou que lhe são solidários.
o reforçamento regional criado pelo Mercosul é, de certa maneira, a melhor forma de fixação da solidariedade entre as diversas regiões brasileiras.
para a política econômica e cultural do Brasil, o Mercosul passa a ser referência essencial. Através dele poderemos alargar a nossa capacidade de encontro e relacionamento com outras comunidades internacionais constituídas, em particular com a Comunidade Européia.
somente através de uma plena tomada de consciência da importância do Mercosul, poderemos levar adiante a certamente longa e difícil negociação para a criação de um mercado comum para as Américas.
para mim, Sílvio, esta utopia – que poderá sem dúvidas transformar-se em realidade num futuro certamente não próximo – se choca com grandes empecilhos. Esses empecilhos eu os vejo divididos em duas distintas categorias: numa coloco isolado os Estados Unidos; n’outra, a presença de «muitas» Américas Latinas. Desde já, para um nosso sistema de reflexões, o Mercosul é uma das muitas Américas Latinas, sendo de certa maneira a que mais diretamente nos interessa. Uma outra e diversa da dimensão do Mercosul é aquela constituída pelo México, América Central e Caraibes, forte e diretamente presa à economia americana. A terceira e última é constituída pelos países andinos não aderentes ao Mercosul, e infelizmente submetidos a formas de instabilidade econômica e precariedade na vida social, como consequência da política predominante. São os males centrais que traduzem os muitos problemas insolúveis do Perú, Equador, Colômbia e Venezuela. Diante dessas outras Américas, o Brasil e o Mercosul encontram imensas dificuldades em transferir para elas as próprias conquistas de modernidade comunitária a que se está chegando com estável certeza.
os Estados Unidos, entretanto, são problema ainda maior para a criação de um mercado das Américas. Isso porque os seus representantes mais abertos não podem responder sempre pela complexa estrutura do país. Quando falta constantemente ao Presidente americano o famoso «Fast Track», quando falta a «via livre» dos partidos, dos sindicatos, dos bancos, dos grupos econômicos, dificilmente os demais comparsas da utopia – convidados para a assinatura a favor da formação de acordo para um pacto de mercado americano comum – podem confiar que essa utopia se cumprirá. Ainda bem que se conservam todos na dúvida; trágico seria aceitar um acordo sem a certeza de igualdade de direitos entre os Estados Unidos e os demais 34 países da América, obviamente sem a exclusão de Cuba.
uma coisa, Sílvio, não devemos deixar jamais de proclamar: o Brasil não deve tomar como forma de poder a co-presidência, ao lado dos Estados Unidos, para a prevista organização dos trabalhos na última fase da preparação do «mercado das Américas». O Brasil antes de tudo deve ter a certeza da igualdade entre todos os membros do pacto. Se assim não fizer e, pelo contrário, chegar à última etapa desprovido dela, não se comportará senão como poder colonialista em relação aos outros países latino-americanos.
Pasqualini me disse
a política monetária brasileira convive sempre com uma indispensável estabilidade política. Naturalmente o «real» atingiu aquela meta mínima que o faz um dos elementos substanciais para a manutenção dessa mesma estabilidade. Não se discute a validez do «real», já que se fez realidade estável da vida nacional; e isso somente pela capacidade da gente. Indispensável, porém, é manter vigilância constante sobre a política monetária em relação a todos os setores da sociedade brasileira. Ainda que se tenha transformado num bem de todos, o «real» não deve justificar ações políticas que toquem interessses gerais e direitos inalienáveis dos brasileiros.
não é porque a estabilidade nascida também da moeda tenha provocado a presença no Brasil de mais de 10% da totalidade do investimento internacional destinado aos países em via de desenvolvimento que se deva aceitar toda e qualquer ação oficial para fixar determinada política monetária que exclua possibilidade de contestações críticas. O fato que as multinacionais americanas, em determinado período, tenham tido um lucro percentual de 12,09 em relação ao capital investido no Brasil – enquanto, no mesmo período, a média mundial de lucro para os investimentos das mesmas multinacionais foi de 3,98% – isso deve ser motivo de satisfação mais para os investidores do que para os brasileiros.
meu caro e jovem amigo, a história nos ensina muito e sempre: já na primeira metade do séc. XVI, Duarte Coelho, capitão-geral daquela Nova Lusitânia, capitania hereditária que depois viria ser quase o Pernambuco atual, Duarte Coelho escrevia ao Rei de Portugal dizendo que a única forma para o enriquecimento da Coroa seria aplicar na Colônia os muitos lucros obtidos nela e não remetê-los sempre para Lisboa…
os interesses do Brasil poucas vezes coincidem com aqueles das multinacionais. Por isso, a política delas não deve condicionar a nossa. Não é para mantê-las em níveis de recordes de lucros que queremos recebê-las. Não é possível dirigir a política nacional para uma tal meta. Por tudo isso, não se pode pretender reformas da assistência pública que não seja o resultado da vontade da maioria dos brasileiros; não se pode realizar modificações no mercado do trabalho que não correspondam aos interesses diretos dos trabalhadores; não sempre toda e qualquer forma de privatização representa uma ação positiva.
(Continua)
