AVENIDA DA POESIA – Juan Luis Panero, Boris Vian, Manuel Curros Enríquez e António Aleixo

 

 

 

 

 

Juan Luis Panero

(Madrid,1942)

 

ARTE POÉTICA

 

 

A comprida, vagarosa língua da morte

lambeu a mão daquele que escreve,

lucidez ou loucura, ninguém sabe;

só restam palavras, palavras roídas

 

(Antes que chegue a noite, 2000)

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Boris Vian

(Ville-d’Avray, 1920 — Paris, 1959)

 

SE OS POETAS FOSSEM MENOS PATETAS

 

Se os poetas fossem menos patetas

E se fossem menos preguiçosos

Faziam toda a gente feliz

Para poderem tratar em paz

Dos seus sofrimentos literários

Construíam casas amarelas

Com grandes jardins à frente

E árvores cheias de zaves

De mirliflautas e lizores

De melfiarufos e toutiverdes

De plumuchos e picapães

E pequenos corvos vermelhos

Que soubessem ler a sina

Havia grandes repuxos

Com luzes por dentro

Havia duzentos peixes

Desde o crusco ao ramussão

Da libela ao papamula

Da orfia ao rara curul

E da alvela ao canissão

Havia um ar novo

Perfumado do odor das folhas

Comia-se quando se quisesse

E trabalhava-se sem pressa

A construir escadarias

De formas antes nunca vistas

Com madeiras raiadas de lilás

Lisas como ela sob os dedos

 

Mas os poetas são uns patetas

Escrevem para começar

Em vez de se porem a trabalhar

E isso traz-lhes um remorso

Que conservam até à morte

Encantados de ter sofrido tanto

Dedicam-lhes grandes discursos

E são esquecidos num dia

Mas se trabalhassem mais

Só seriam esquecidos em dois

 

(Não Queria Patear )

 

Tradução de Irene Freire Nunes / Fernando Cabral Martins

 

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Manuel Curros Enríquez

 

(Celanova, Galiza, 1851, Havana, 1908)

 

 

INTRODUCIÓN

 

 

 

Escribir nada máis pr’ onha provincia

 

Ou, com’ os povos árcades fixeron,

 

Escribir sobr’ a casca d’os curtizos,

 

Cáxeque todo vén á ser o mesmo.

 

 

 

A nosa vos, n’a soledá perdida,

 

Morrerá sin deixar xiquera ise éco

 

Qu’ a brisa malencónica d’ outono

 

Deixa n’a copa azul d’os ameneiros.

 

 

 

Non pode ser tampouco d’ outra sorte:

 

Pasaron xa, pra non volver, os tempos

 

En qu’ o lenguaxe era unha cifra máxica

 

Fácele sólo ó sacerdote hebreo.

 

 

 

As xentes tristes que n’o verbo humano

 

Percuran os ideales q’ entreveron

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António Aleixo

 

(Vila Real de Santo António, 1899-1949)

 

 

Poeta, não, camarada,

Eu também sou cauteleiro;

Ser poeta não dá nada,

Vender jogo dá dinheiro.

 

Não é só na grande terra

Que os poetas cantam bem:

Os rouxinóis são da serra

E cantam como ninguém.

 

Tu já viste a «poesia»

Que há numa casa sem ceia,

Nem azeite na candeia,

Nem luz, se morre a do dia

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ILUSTRAÇÕES DE ADÃO CRUZ

1 Comment

  1. O triste e divertido dilema do poeta: a procura da universalidade por meio do instrumento particular, que é a língua particular. Universal vs. Particular.Castelão, o político e escritor e ainda mais, galego lembra no “Sempre em Galiza” que os animais (todos) já estão na língua universal, que o próprio humano é a particularidade.E Unamuno, o escritor nacionalista espanhol, invoca a universalidade do particular, só no particular seu o poeta (humano) será capaz de achar o universal…Enfim…

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