5 – BLOGOCONTOS – Sonho nº 1 – por João Menino

Não podemos fazer comentários sobre os trabalhos que estamos a apresentar – só ao júri compete formular juízos – registamos, no entanto, com muito agrado o interesse que este concurso está a despertar. Sonho nº 1, de João Menino é o conto de hoje e tem 2033 caracteres.

 

Minha mãe e eu entramos em casa depois do longo passeio  Fora eu soubera que era quase o entardecer aquelas cores tranqüilas no ar  mas já agora caminhando pelo corredor conhecido sempre em penumbra  passando ao lado do quarto de meu pai parecia que fosse antes do meio-dia

 

Passando a porta do quarto entreaberta eu via de fugida o rosto de meu pai deitado na cama e digo então à minha mãe que depois eu queria falar um dia com meu pai  Como se escutasse o seu rosto apareceu-me todo e me perguntou de longe  Quero falar-lhe para esclarecer os nossos sentimentos  as coisas que eu não compreendo  Minha voz era frágil e decidida ao mesmo tempo  Porém era feita com o tom de medo por alguma coisa desconhecida que instantaneamente eu via concreta por toda a casa

 

Um longo tempo branco ocupou os meus olhos  deixando-me sozinho junto a todas as coisas

 

Então na sala salão lustrada minha mãe entrou bailarina nua com uma enceradeira de mão bailando numa valsa muda  Eu fixava o doce belo baile louco de minha mãe na brancura daquele espaço agora conhecido e me vinha a vontade de rir alto e dançar com ela sem mais parar  Depois entrou meu pai  Vinha para mim  olhou-me e o vi tranqüilo  muito tranqüilo  com uma correia na mão direita  Meu pai e eu nos olhamos dentro do branco espaço que ocupava o salão  Tomei a correia da mão de meu pai  Não tenha medo  pai  que não quero maltratar-te  Três janelas se abriam para fora alargando ainda mais a sala e iluminando o grande espaço de cores claras  Salão e tarde eram um só espaço  Meu pai cresceu para mim com outra correia na mão direita  Ele crescia crescia aos meus olhos como estátua enorme vista por um menino que levanta os olhos para as nuvens  Não faça isso  pai  que te destruirei para sempre  O rosto sereno de meu pai enorme sorria e sua mão direita fingia um gesto agressivo com a correia e eu vigiava o gesto  Ele olhava e sorria para fora do salão como se falasse com um amigo escondido por detrás da parede branca do corredeor  Atento eu fixava a mão direita de meu pai e via o seu rosto que sorria falando ao amigo escondido  Fixava a sua mão e temia que a tarde se escondesse na noite e toda a luz do salão se perdesse fora das três janelas abertas para aquela noite  Eu fixava o gesto de meu pai e tinha medo de chorar

 

Então  na brancura colorida da tarde minha mãe bailarina aproximou-se de meu pai e lhe tomou docemente a correia  Depois se abraçaram e começaram a dançar aquela valsa muda que me fechava num ângulo do salão

 

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