Não podemos fazer comentários sobre os trabalhos que estamos a apresentar – só ao júri compete formular juízos – registamos, no entanto, com muito agrado o interesse que este concurso está a despertar. Sonho nº 1, de João Menino é o conto de hoje e tem 2033 caracteres.
Minha mãe e eu entramos em casa depois do longo passeio Fora eu soubera que era quase o entardecer aquelas cores tranqüilas no ar mas já agora caminhando pelo corredor conhecido sempre em penumbra passando ao lado do quarto de meu pai parecia que fosse antes do meio-dia
Passando a porta do quarto entreaberta eu via de fugida o rosto de meu pai deitado na cama e digo então à minha mãe que depois eu queria falar um dia com meu pai Como se escutasse o seu rosto apareceu-me todo e me perguntou de longe Quero falar-lhe para esclarecer os nossos sentimentos as coisas que eu não compreendo Minha voz era frágil e decidida ao mesmo tempo Porém era feita com o tom de medo por alguma coisa desconhecida que instantaneamente eu via concreta por toda a casa
Um longo tempo branco ocupou os meus olhos deixando-me sozinho junto a todas as coisas
Então na sala salão lustrada minha mãe entrou bailarina nua com uma enceradeira de mão bailando numa valsa muda Eu fixava o doce belo baile louco de minha mãe na brancura daquele espaço agora conhecido e me vinha a vontade de rir alto e dançar com ela sem mais parar Depois entrou meu pai Vinha para mim olhou-me e o vi tranqüilo muito tranqüilo com uma correia na mão direita Meu pai e eu nos olhamos dentro do branco espaço que ocupava o salão Tomei a correia da mão de meu pai Não tenha medo pai que não quero maltratar-te Três janelas se abriam para fora alargando ainda mais a sala e iluminando o grande espaço de cores claras Salão e tarde eram um só espaço Meu pai cresceu para mim com outra correia na mão direita Ele crescia crescia aos meus olhos como estátua enorme vista por um menino que levanta os olhos para as nuvens Não faça isso pai que te destruirei para sempre O rosto sereno de meu pai enorme sorria e sua mão direita fingia um gesto agressivo com a correia e eu vigiava o gesto Ele olhava e sorria para fora do salão como se falasse com um amigo escondido por detrás da parede branca do corredeor Atento eu fixava a mão direita de meu pai e via o seu rosto que sorria falando ao amigo escondido Fixava a sua mão e temia que a tarde se escondesse na noite e toda a luz do salão se perdesse fora das três janelas abertas para aquela noite Eu fixava o gesto de meu pai e tinha medo de chorar
Então na brancura colorida da tarde minha mãe bailarina aproximou-se de meu pai e lhe tomou docemente a correia Depois se abraçaram e começaram a dançar aquela valsa muda que me fechava num ângulo do salão
