Um café na Internet
Dúvidas
Domingo, 8 de Maio de 2011: tudo me incita a ficar em casa. A família muito reticente, muito incerta a data do regresso… Neste contexto acabo por me sentir insegura. E imprudente, sobretudo após a peripécia da doença de Lyme, embora não apanhasse a carraça numa caminhada.
(Se as mulheres não forem, em cada instante, vigilantes, rebeldes, lúcidas, teimosas, determinadas, renunciam em permanência à vida. Tudo as encoraja a viver por procuração, através dos outros, da leitura, do cinema – de heróis masculinos. A moral católica, representada pela família, amigos e conhecidos, exalta as obrigações femininas, as responsabilidades femininas: a renúncia feminina; e, se a força não as obriga a desistir, sempre sobram as pressões, já que os filhos, o marido, os pais, o cão fiel, os móveis da casa: todos delas dependem.)
Também não estou preparada. Durante o Inverno e a Primavera fiz três pequenas caminhadas. Tenho uma mochila que, vazia, já pesava um quilo e um par de botas ultraleves – mas calçadas ontem pela primeira vez.
Nenhum andarilho deve transportar mais do que dez por cento do seu peso – ora eu peso quarenta e seis quilos. Levo um saco-cama (outro quilo) e um saco-lençol de linho. No instante em que os ponho dentro da mochila, obtenho metade do peso regulamentar. Mais um par de calças, dois de cuecas, quatro de peúgas, uma camisola de algodão, outra de fibra polar, crocs, polainas, impermeável, vinte e seis barras vitaminadas, sabão, sabonete, dentífrico, escovas dos dentes e cabelo, protector solar, um púcaro, o roteiro, o diário, uma caneta, alguns medicamentos, um frasco (pequeno) de Betadine, uma caixa de pensos, telemóvel e máquina fotográfica, seus carregadores de bateria, alguns sacos de plástico. Mesmo com o mínimo indispensável, a mochila e a bolsa pesam sete quilos. E falta a água. (Outro quilo.) E falta o bordão.
Interrogo-me circularmente. Parto? Não tenho tempo. Não estou preparada. Não me adaptei às botas. Não posso com a mochila. Não caminho há seis meses. Vou ou não vou?
Em Portugal o maior adversário das caminhadas é o clima. Não podendo caminhar entre fins de Maio e, nos melhores anos, princípios de Outubro, se não partir agora – quando será? Em Outubro terei ou não disponibilidade. Estarei em melhor ou pior forma. E os dias serão de certeza mais curtos.
Se não alcançar Finisterra, qual é afinal o drama? Terei ao menos caminhado um dia… Ou dois. Apanho portanto o comboio para o Porto, compro a credencial na Sé, peço agasalho aos amigos bombeiros. E preparo tudo para sair às seis horas da manhã.

