(Conclusão)
Terceira observação: O que é que é necessário “repatriar” da indústria? E qual pode ser a justificação económica desta escolha?
A justificação é naturalmente de longo prazo. Os países emergentes, e na primeira linha a China, chegaram a um nível de convergência tal que são doravante temíveis concorrentes em todos os sectores da indústria e dos serviços nómadas sem que haja praticamente nenhuma excepção. Puderam tornar-se assim de forma tão rápida passando por uma fase na qual os investimentos directos estrangeiros trocavam o acesso ao mercado interno chinês contra a possibilidade de criarem as joint-ventures com os Chineses para começarem portanto a exportar: acesso ao mercado chinês contra o acesso ao mercado internacional.
Estamos agora perante uma fase muito diferente, tendo em conta o grau de fragmentação que atingiu as cadeias de valor levadas a efeito pelas firmas globais de origem ocidental ou japonesas ou coreanas. Doravante um aparelho electrónico de grande público inovador é concebido na Califórnia, a campanha de lançamento é concebida e conduzida por Londres, o financiamento é disponibilizado por Wall Street, os componentes são fabricados de acordo com a sua complexidade no Japão, em Taiwan, na Coreia, na China ou no Vietname, as matérias-primas vêm de centenas de diversos lugares, de resto. A montagem, pouco mecanizada, faz-se na China em gigantescas fábricas, a comercialização tem lugar em redes especializadas variando segundo as zonas e os produtos estão ligados à venda do material de “software” e de acesso às redes, eles mesmos produzidos em cadeias de valor já fragmentadas. Nestas condições, as firmas chinesas ou indianas (em modalidades diferentes) puderam inserir-se praticamente em todos os níveis das cadeias de valor, passando acordos de cooperação e, rapidamente, desenvolvem as suas próprias capacidades.
A questão crucial para a estabilidade dos nossos territórios não é por conseguinte tanto: a de “que indústrias deveríamos manter? ”, mas sim que “parte das cadeias de valor da produção global deveríamos manter?”
Para responder a esta pergunta, é necessário obviamente projectarmo-nos num futuro não necessariamente muito remoto, digamos de 15 a 20 anos no máximo, horizonte no fim do qual a competitividade preço da localização na China de uma parte importante das cadeias de valor terá entretanto desaparecido.
Não se trata de mão-de-obra não qualificada, que deveria ser progressivamente transferida da Ásia para África, para que este último continente entre também num processo de convergência. Trata-se de elos intermédios das cadeias de valor. Nestes elos, a competitividade preço da China terá desaparecido entre 15 a 20 anos. Se o território europeu os tiver abandonado entretanto, não poderá reconstitui-los rapidamente. Porque assentam sobre um capital humano e social cuja duração de formação é longa. Mesmo na China, que graças aos investimentos directos estrangeiros pôde operar uma convergência muito rápida, foram necessários 20 ou até mesmo 30 anos.
É pois legítimo aplicar não “a protecção das indústrias nascentes “, mas sim “a protecção das partes de cadeias de valor de forte investimento em capital humano”. As competências de produção e de inovação adicionais permanentes em numerosos sectores da indústria transformadora, fazem parte dessa protecção. Estas cadeias de valor só de forma temporária é que não são competitivas com a China ou com a Índia, territórios onde o custo de tais recursos humanos, embora tenha estado a aumentar de forma rápida, continua a ser tiradas para a parte inferior pela fraca produtividade, logo por rendimentos e por preços muito baixos, da economia sedentária chinesa e ainda também da economia indiana.
Vê-se bem a diferença entre esta atitude e o acordo multifibras que visava apenas retardar, na fileira têxtil, o abandono de cadeias de valor considerado como inevitável. Isto não é uma estratégia defensiva, é uma estratégia de optimização de longo prazo do único recurso que produz o crescimento do bem-estar assim como a redução das desigualdades: a acumulação de capital humano e social. De nada serve deixar agora destruir o capital humano, com todos os efeitos induzidos que isso vai ter sobre a degradação do capital social, enquanto isso nos custaria, em 15 anos, vinte anos de esforços para o reconstituir, enquanto que nós nos teríamos entretanto (relativamente) empobrecido. É um cálculo muito simples de boa gestão sobre o que faz “a riqueza das nações”: o seu capital humano e social.
Quarta observação: Uma vez respondida a pergunta das cadeias de valor a preservar no território europeu, é necessário que enfrentemos as suas causas para iniciar a reconquista. É então necessário reconhecer que na concorrência com os chineses, as armas não são agora iguais.
O governo protege o mercado interno e impõe taxas importantes e crescentes de conteúdo local e de transferências maciças de tecnologia; constitui, à japonesa, oligopólios competitivos de 3 a 4 empresas públicas (a diferença com os japoneses dos anos 1970 – as empresas eram privadas – ou chaebols coreanos – mais concentrados) em cada um dos grandes sectores julgados estratégicos; incitam-se a internacionalizarem-se e apoiam-se na sua expansão no estrangeiro, graças a uma diplomacia económica muito activa; põem ao seu serviço capacidades de investimento praticamente ilimitadas, acumuladas pelos fundos soberanos e o Banco central: 3.500 mil milhões de dólares. Estas firmas, em cooperação multiforme com as firmas globais, exportam aviões e a engenharia, amanhã exportam centrais nucleares, as fábricas de processamento dos resíduos radioactivos e os serviços financeiros.
Já é mais que tempo para reequilibrar as regras do jogo económico entre a China e a Europa. Comecemos por reflectir sobre o que seria uma simples “reciprocidade”, e este é o primeiro meio para nivelar o terreno de jogo. Dever-se-ia começar por examinar se não se poderia tratar as firmas da China exactamente como a China trata as firmas globais. Instituir uma forma de obrigação de valor acrescentado europeu se queremos aproveitarmo-nos do vasto mercado interno europeu.
Por outras palavras: sejam bem-vindos os bens e serviços chineses e indianos, na condição de uma parte do seu valor acrescentado seja localizada na Europa. Sejam bem-vindas as firmas chinesas e indianas se investem e vêm produzir na Europa, com os nossos recursos e em todos os domínios incluindo a investigação.
Que ricas fertilizações cruzadas em perspectiva! Não será isso tirar partido recíproco da globalização? Não há nesta matéria lugar para estratégias cooperativas de recentragem do conjunto dos países emergentes e da Europa? Esta estratégia que se acompanha de uma industrialização para a África, que subirá na gama por sua vez mas que terá bastante do seu imenso mercado emergente para o fazer, não dispõe ela aí de uma estratégia cooperativa óptima?
Não se trata aqui, pelo menos como entrada de jogo, “de se proteger”, mas sim de negociar, com “ameaças” credíveis de tratamento recíproco, com soluções cooperativas de recentragem, que se podem obter através de uma cooperação das políticas económicas e monetárias.
À Europa restaria então a muito pesada tarefa de reduzir as suas imensas desigualdades internas e os movimentos de forte deslocação de empregos nómadas para o Leste e para os países dos Balcãs que isso provoca. Mas a Europa não conseguirá fazê-lo se não convence ou se não impõe aos países emergentes a estratégia externa acima descrita. Esta estratégia está fora de alcance a curto prazo, o que é mais uma razão para a analisar e promover.
CONCLUSÕES DE POLÍTICA ECONÓMICA PARA A INDÚSTRIA NA EUROPA
Indispensável. Compreender: contabilidades em valor acrescentado, nómada e sedentária, e sobre os investimentos em capital humano necessários para localizar os elos das cadeias de valor.
Consensual, e mesmo repetido até à náusea, mas insuficiente. Tudo fazer para melhorar a competitividade‑qualidade dos nómadas actuais: inovação, investigação, formação, etc.
Tornar agradável, mas com forte potencial. Estimular a inovação nos nómadas “culturais”: turismo, terra-território, etc. Não há nenhuma razão para não valorizar a França dos 40.000 castelos tanto quanto se valoriza a França da aeronáutica. Opor a França da alta tecnologia à França “Flórida”, “Costa Brava ” ou “parque de lazer”, não faz nenhum sentido: devemos desenvolver as duas Franças.
Demasiado negligenciado. Melhorar a produtividade e a qualidade dos serviços “sedentários”.
De ser tabu a ser considerado emergente. Decidir: quais as cadeias de valor que devemos manter e relocalizar, como bom gestor do nosso capital humano e social. Negociar. Com os chineses e os indianos estabelecer novas regras do jogo baseadas sobre o pleno reconhecimento da sua capacidade tecnológica. Observar. Que vão fazer os americanos.
É necessário admitir que a indústria e os serviços associados, que constituem sempre o coração do desenvolvimento, estão hoje mal repartidos no mundo. Não muito em África, demasiado extraversão nos grandes países emergentes, um pouco mais na Europa e nos Estados Unidos. Daqui resulta uma falta de cooperação global, que é necessário hoje corrigir.
O que precede são condições necessárias mas não são porém condições suficientes para a resolução do maior problema interno da Europa que é o de reduzir as suas desigualdades territoriais.
Não é aqui o lugar para discutir sobre a técnica deste tipo de medidas, nem mesmo de querer saber se as devemos utilizar unicamente como ameaça credível numa negociação em que se visa atingir o mesmo tipo de objectivo por meios macroeconómicos, como seja o realinhamento das taxas de câmbio e a recentragem das políticas económicas.
Uma negociação com a China e a Índia deveria sobretudo incidir sobre todos os temas globais: moedas internacionais, finança global, comércio, clima, estabilidade política.
As questões técnicas são incontestavelmente importantes. Mas é também igualmente importante hoje, senão mesmo mais, discutir primeiramente e com precisão o diagnóstico e os objectivos, dado que propostas como a separação das actividades bancárias, ou o fim da “ingenuidade” em relação aos países emergentes, questões tabu há dois anos, tornaram-se hoje quase consensuais…
Pierre-Noel Giraud, L’industrie européenne dans la globalisation”, Le Monde, 9.11.2011.
