E a nossa série sobre a desindustrialização continua. Agora com uma série de textos de conferências proferidas na Faculdade de Economia, de Mouhoub Mouhoud, professor em Paris-Dauphine, e de Edward Gresser, que trabalhou para a Administração Clinton. Estas conferências foram proferidas no âmbito de uma sessão sobre Deslocalizações ocorrida na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e terão a finalizar um texto da minha antiga colega de trabalho Margarida Antunes, também ela pertencente a este blog, levantando algumas interrogações sobre esses mesmo textos e na altura aos conferencistas em questão. Assim continua a longa série de textos sobre desindustrialização agora a ser vista através de uma realidade que lhe está bem subjacente: as deslocalizações.
Júlio Marques Mota
Deslocalização das empresas e vulnerabilidade dos territórios: antecipar os choques da mundialização
Por E. M. Mouhoud, Professor de Economia da Universidade Paris-Daphine
1. O que se entende por mundialização?…………………………………………………. 2
2. Amplitude e lógicas de mundialização das empresas……………………………….. 3
2.1. Duas lógicas diferentes de mundialização das empresas…………………….. 3
2.2. As deslocalizações das empresas francesas por motivos de
minimização dos custos salariais continuam minoritárias mas
alargam-se aos serviços sob a forma de subcontratação internacional…………… 3
2.3. Uma tipologia das deslocalizações com base em fracos custos salariais…….. 3
Deslocalizações somente por efeitos de margem e bloqueio na
compensação das destruições locais de empregos…………………………………….. 3
2.4. As relocalizações nos países de origem irão elas suplantar as deslocalizações? ………..3
3. Das políticas públicas, ineficazes e assentes nas ajudas às empresas…………………. 3
3.1. Antecipar a vulnerabilidade dos territórios…………………………………………… 3
3.2. Reexaminar a eficácia das políticas públicas de ajuda
financeira às empresas……………………………………………………………………………….. 3
Conclusão…………………………………………………………………………………………………..3
Referências bibliográficas……………………………………………………………………………. 3
A questão das deslocalizações de empresas situa-se num contexto mais amplo que é o da mundialização. O essencial da mundialização das empresas passa pelas operações de fusões e de aquisições (F&A), por razões de conquista de mercados ou de acessos a certas competências tecnológicas. As deslocalizações fortemente criticadas pela opinião pública, as que procuram uma mão-de-obra a baixos salários, são minoritárias. Mas as destruições de emprego ligadas às deslocalizações são uma realidade frequentemente subestimada pelos economistas que insistem nos efeitos de compensação a nível macroeconómico. Ora, se este efeito de compensação dos empregos destruídos localmente ou, em certos sectores, por criações a nível global noutras actividades é teoricamente provável e historicamente verificado, existem bloqueios à compensação (em parte ligados às deslocalizações que se fazem para aumentar exclusivamente as margens de lucro e sem qualquer incidência sobre a descida dos preços) e estes bloqueios contribuem para manter bolsas de desemprego de trabalhadores pouco qualificados e pouco móveis nos territórios vulneráveis. A acção pública é então necessária para assegurar os ajustamentos que não se podem fazer de modo espontâneo. Mas esta acção deve mudar de objectivos passando a concentrar os seus esforços nas pessoas e nos territórios em vez de o fazer sobre as empresas.
1. O que se entende por mundialização?
De um ponto de vista analítico, a mundialização significa para as empresas uma aceleração sem precedentes do grau de liberdade de localização no espaço mundial. Mas esta liberdade de localização não rima com dispersão das actividades no espaço mundial. Pelo contrário, a polarização (concentração espacial) acelera-se a nível mundial e dentro dos países.
Pode igualmente definir-se a mundialização a partir das suas cinco componentes chave. Deste ponto de vista, a mundialização consiste nomeadamente na possibilidade de deslocalizar actividades para o estrangeiro, o que, de passagem, não é uma possibilidade nova, uma vez as empresas que investem no estrangeiro com o objectivo de conquistar mercados, já o fazem desde há muito tempo.
As deslocalizações de produção são largamente fundadas na lógica de fragmentação dos processos produtivos (o que se observa, por exemplo, facilmente na indústria automóvel e no têxtil-vestuário), dado que as firmas, na realidade, raramente deslocalizam a totalidade do seu processo de produção, mas de preferência apenas partes ou “módulos”. Deste ponto de vista também se produziram evoluções significativas nestes últimos anos. Assim, no automóvel nomeadamente, as actividades de Investigação & de Desenvolvimento (I&D) e de concepção, que eram até agora actividades reservadas ao construtor, são agora transferidas progressivamente, elas também, para os produtores de componentes…
A segunda componente da mundialização compreende também fluxos comerciais de bens e serviços entre filiais ou entre firmas e trocas de bens intermediários. Esta componente não é também nova, embora a sua dinâmica se tenha acelerado nestes últimos anos em que a natureza dos bens trocados tem sido transformada em favor do reforço do comércio de bens intermédios e do comércio intra-ramo (intra-industry trade).
A mundialização compreende, seguidamente, fluxos financeiros e fluxos de capitais de curto prazo e este é, em contrapartida, um fenómeno recente dado que estes fluxos se explicam pela desregulamentação dos mercados financeiros dos anos 80, pela supressão dos constrangimentos em matéria de controlo de câmbios e pela liberdade para as empresas de financiar as suas actividades à escala mundial.
Uma quarta componente da mundialização compreende os fluxos tecnológicos e de conhecimentos. Deste ponto de vista também houve mudanças — e mesmo mudanças importantes — que se desenrolaram nestes últimos anos, dado que, contrariamente às práticas passadas, as firmas, hoje, já não guardam sistematicamente as suas actividades de produção de conhecimentos (I&D) no seu próprio país, uma vez que, se necessário, deslocalizam. O contexto no qual se produz a globalização das empresas é o da difusão das tecnologias da informação e comunicação (TIC) e mais geralmente de entrada das economias desenvolvidas no que é a chamada a economia do saber ou do conhecimento. Até ao final dos anos 80, as firmas desenvolviam as actividades de produção no estrangeiro, transferindo know how (acordos de joint-venture) e pela concessão de licenças e o registo de patentes, mas mantinham as suas actividades de inovação no seu país de origem e deslocalizavam unicamente as outras funções da empresa: produção, montagem, distribuição. Quando faziam I&D no estrangeiro, faziam-no apenas com o objectivo de melhorar os produtos a fim de os adaptar à procura local das suas filiais. As multinacionais romperam progressivamente com esta prática tradicional. Elas desenvolvem novas estratégias descritas no Quadro 1-b. e que diferem de acordo com a lógica sectorial (Quadro 1-a.). A parte da actividade de I&D implantadas pelas firmas no estrangeiro conheceu uma aceleração no fim dos anos 80. Elas tendem a organizar as suas actividades de inovação num mundo transnacional. Esta evolução está, no entanto, circunscrita as firmas de maior dimensão, a um número relativamente restrito de domínios e beneficia essencialmente os países desenvolvidos assim como os grandes países emergentes: a China e a Índia (Quadros 1-a. e 1-b.).
Quadro 1-a. As lógicas sectoriais da mundialização da I&D através do IDE
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Critérios pertinentes |
Grau de mundialização das actividades de I&D |
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Relativamente elevada |
Relativamente reduzida |
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Grau de transferibilidade do saber no domínio |
Sectores com codificação de conhecimentos |
Sectores com conhecimentos relativamente tácitos |
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Intensidade de ligações entre a I&D e a produção |
Basicamente fraca |
Fundamentalmente forte |
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Tipo de indústria |
Industrias de process, sectores com economias de escala |
Indústrias de engenharia, com fornecedores especializados e economias de variedade |
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Exemplos de sector |
Indústria química e farmacêutica, agro-alimentar, de software |
Construção mecânica, automóvel, electrónica de produção em série |
Fonte: inspiré en partie de Gerybadze et al. [1997], Moati et Mouhoud [2000], Lallement, Paillard et Mouhoud [2002].
Quadro 1-b. Tipologia das lógicas de globalização das actividades I&D pelas FMN
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Transferência de tecnologia |
Produção de conhecimentos directamente no estrangeiro |
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Objectivo da mundialização da I&D |
Acesso ao mercado |
1. Laboratório com apoio local |
2. Laboratórios de inovação e de proximidade |
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Acesso à tecnologia |
3. I&D imitador ou de espionagem tecnológica |
4. Centros de excelência tecnológica. Rede integrada de tecnologia ao nível mundial |
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Fonte: Lallement, Paillard et Mouhoud [2002], Mouhoud 2006, chapitre 7.
A quinta componente da mundialização está ligada às migrações internacionais de trabalhadores. As migrações de trabalhadores qualificados conhecem já um aumento sem precedentes devido a um efeito mecânico de aumento considerável dos níveis de educação nos países de origem e da persistência, ou mesmo de reactivação, dos factores de atracção nos países industrializados. Tendo em conta as dificuldades crescentes de recrutamento de pessoas qualificadas em muitos mercados de trabalho dos países industrializados, assiste-se à abertura das quotas a favor destas pessoas, e a não querer deixar entrar pessoas não qualificadas. A circulação acrescida dos estudantes constitui uma parte não negligenciável destas migrações de pessoas qualificadas. Assim, o afluxo de estudantes estrangeiros deveria permitir atenuar o efeito do envelhecimento dos investigadores e dos engenheiros no sector público, bem como a duração limitada da carreira dos investigadores no sector privado. Além disso, as transferências pelos migrantes de fundos e/ou de competências representam entradas mais importantes no caso de certos países em desenvolvimento que as transferências que passam pelo IDE ou pela ajuda pública ao desenvolvimento. No total, a mundialização traduz-se numa aceleração do grau de mobilidade dos activos no espaço mundial (Gráfico 1.). Se o IDE e as trocas comerciais são dinâmicas antigas, o aumento da globalização financeira, da tecnologia e dos conhecimentos, bem como o desenvolvimento das migrações de pessoais qualificadas, faz da mundialização contemporânea um fenómeno realmente novo.
(Continua na próxima terça-feira, dia 13)

