4- Suicídios famosos em Portugal – por José Brandão

(Conclusão)

 

Florbela Espanca – 3

 

A poesia de Florbela caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, aliados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito. A veemência passional da sua linguagem, marcadamente pessoal, centrada nas suas próprias frustrações e anseios, é de um sensualismo muitas vezes erótico. Simultaneamente, a paisagem da charneca alentejana está presente em muitas das suas imagens e poemas, transbordando a convulsão interior da poetisa para a natureza.

 

Na opinião de António José Saraiva e Óscar Lopes, Florbela Espanca é uma das mais notáveis personalidades literárias isoladas (António José Saraiva e Óscar Lopes, «História da Literatura Portuguesa»). Porquê?

 

Em primeiro lugar, porque a poética e a prosa de Florbela dificilmente se enquadram numa única corrente literária, seja uma corrente dominante no seu tempo ou anterior. De facto, a poetisa soube construir uma linguagem muito própria, quase uma mitologia lírica (António José Saraiva e Óscar Lopes, «História da Literatura Portuguesa»), ao revelar, no espaço da poesia, sentimentos e desejos próprios, anseios e aspirações muito suas, conquistando na literatura um espaço de libertação de instintos sensuais, sem precedentes até então; sobretudo, revelou, através da linguagem poética o seu ser e a sua intimidade.

 

No entanto, são evidentes em Florbela os traços e as influências de diversas correntes literárias que atravessaram o século XIX, apesar de acusar igualmente proximidades a estéticas do século XX. Diga-se, a propósito, que grande parte da singularidade da obra de Florbela reside no facto de a sua estética literária se enraizar no cruzamento de várias tendências do lirismo do século passado: Florbela admirava Júlio Dantas, Guerra Junqueiro, Antero de Figueiredo, José Duro e, sobretudo, António Nobre. Foi nesse universo artístico, que tentou conciliar a renovação com a tradição poética, que Florbela encontrou elementos para definir a sua linguagem.

 

Entre as principais influências, há a destacar:

 

Proximidade de Mário de Sá-Carneiro:

 

Apesar de não se ter deixado influenciar pela estética modernista proposta por Fernando Pessoa e pelo restante grupo do «Orpheu», o ideário e a temática da obra de Florbela Espanca contém uma curiosa proximidade com a escrita de Mário de Sá-Carneiro, um desses membros do inovador grupo do «Orpheu».

 

Em primeiro lugar, há uma proximidade ao nível dos dramas pessoais (que Sá-Carneiro revela em «Esfinge» e «Esfinge Gorda»), onde se evidencia a moderna problemática da dispersão, do desdobramento da personalidade, que Florbela partilha em alguns poemas. Além disso, Florbela insere na sua obra a complexa temática da alteridade, bem como a da relação entre o eu poético e os outros, aproximando-se muito do universo temático de Sá-Carneiro, o que se acentua com as referências à crise de identidade do sujeito e à estratégia de fingimento do poeta (enunciada por Fernando Pessoa). Tanto um como o outro, procuravam uma identidade profunda.

 

Por outro lado, os dois autores têm em comum uma poética de excessos, de estados de espírito extremos, que oscila constantemente entre o desejo de amor e de morte (que encaram de modo semelhante), momentos de loucura e lucidez, luxo e sombras, plenitude e incompletude. Ambos vagueiam, em versos, por claustros, sombras e cenários decadentistas, oscilando entre a realidade e um mundo indefinido.

 

Como Sá-Carneiro, Florbela quis aliar a vida e a arte, a realidade e o sonho, mostrando-se o resultado desastroso para ambos. Aliás, há que sublinhar que ambos morreram jovens e pelo mesmo motivo: suicídio.

 

Influência de Antero de Quental:

 

Em relação à linguagem de Antero de Quental, a poesia de Florbela evidencia semelhanças estilísticas, estruturais e ideológicas.

 

Uma delas é a referência frequente ao tema da dor, uma dor existencial, que leva à constante ânsia pela morte e pelo não-ser; trata-se de uma dor existencial próxima daquela que Antero e Camilo Pessanha repetidamente abordaram na sua obra.

 

Por outro lado, o uso da forma clássica do soneto é outro factor de aproximação entre Florbela e Antero, se bem que a aproxime igualmente de outros sonetistas, nomeadamente Camões e Bocage.

 

Herdada de Antero é, também, a expressão de uma visão eminentemente pessimista do mundo, bem como de uma relação difícil com a vida.

 

Em termos estilísticos, e à semelhança do que fez Antero, Florbela tende a imprimir um sentido alegorizante aos seus poemas, através de imagens de castelos, palácios, cavaleiros, torres de névoa e de marfim, algumas das quais presentes em «Castelã». Aliás, é nítida a proximidade entre o verso de Florbela Sonho que sou a poetisa eleita (Florbela Espanca, «Vaidade», in «Livro de Mágoas») e o de Antero Sonho que sou um cavaleiro andante.

 

Marcas anterianas apresentam, igualmente, os sonetos «Em Busca do Amor», que lembra o «Mors Amor» de Antero (cujo tom alegre é um pouco mais vigoroso), «Não Ser», «A Voz da Tília» e «Deixai Entrar a Morte».

 

Influência de António Nobre:

 

São muitos os pontos de contacto entre António Nobre, o autor de «Só» (apresentado, ainda hoje, como o livro mais triste que há em Portugal) e Florbela Espanca, que confessa ter pelo escritor intensa admiração, referindo-se, implicitamente, a «Só» na abertura do «Livro de Mágoas» e, depois, explicitamente, na languidez do soneto «Tardes da Minha Terra». Aliás, Nobre era para a jovem escritora o único poeta.

 

Um desses pontos comuns é o tom confessional dos versos, intimamente ligado à temática da dor, da mágoa que encontramos nas obras dos dois autores; mais do que a mágoa, Florbela, no soneto «Este Livro…», que abre o «Livro de Mágoas», como que propõe um espaço de comunicação entre os tristes, a que ela chama os Irmãos na Dor. É uma intenção próxima da de Nobre em «Só».

 

Por outro lado, também o pessimismo e a espera da morte, bem como a ideia da predestinação, recorrente em Florbela, aproximam as suas obras, em paralelo com a temática da saudade e um certo neogarretismo, ambos típicos de Nobre.

 

Comum aos dois autores é, igualmente, a relação que encetam com a vida, a par de um progressivo distanciamento que ambos efectuam em relação ao mundo que os rodeia, o que fará agravar a sua solidão.

 

Finalmente, há que sublinhar a proximidade na maneira de ver Portugal: ou é um país ou uma forma de estar no mundo (dada a cultura e história portuguesas); ao mesmo tempo, refira-se um certo lusitanismo de Nobre, que Florbela também evidencia e que a aproxima do ideário saudosista do seu tempo.

 

Ultra-romantismo sepulcral, próximo de Soares de Passos:

 

O Ultra-romantismo é uma corrente literária da segunda metade do séc. XIX, e que se caracterizou por levar ao exagero, e por vezes até ao ridículo, as normas e ideais preconizadas pelo Romantismo, nomeadamente, a exaltação da subjectividade, do individualismo, do idealismo amoroso, da Natureza e do mundo medieval. Os ultra-românticos geram torrentes literárias de qualidade muito discutível, sendo algumas dela considerada como «romance de faca e alguidar», dada a sucessão de crimes sangrentos que invariavelmente descreviam e que os realistas vão caricaturar de forma feroz.

 

Existe, todavia, literatura ultra-romântica de qualidade inquestionável. Além de João de Deus, são também autores ultra-românticos Camilo Castelo Branco, Soares de Passos e Castilho. Em algumas obras de Almeida Garrett e de Alexandre Herculano é já possível detectar alguns traços de ultra-romantismo, apesar de serem dois dos introdutores do Romantismo em Portugal.

 

Parnasianismo:

 

O parnasianismo é um movimento literário desenvolvido na poesia portuguesa do século XVIII, que se aproxima das tendências realista e naturalista registadas na narrativa.

 

Originário de França, o parnasianismo tem como principais mestres Théophile Gautier, Leconte de Lisle e Théodore Bauville, defensores do princípio da importância da arte pela arte. As raízes do parnasianismo encontram-se no romantismo, embora o parnasianismo exclua a tendência para o sentimentalismo, valorizando a dimensão estética da literatura, nomeadamente através de uma linguagem precisa e do uso da rima rica (rima entre palavras de diferentes classes gramaticais).

 

Em Portugal, a estética parnasiana difundiu-se não só entre autores como João Penha, Gonçalves Crespo e António Feijó, ligados pela revista coimbrã A Águia (que o primeiro dinamizou entre 1868 e 1873), mas também Cesário Verde, Joaquim de Araújo e Eugénio de Castro.

 

Como movimento, o parnasianismo era uma reacção anti-romântica, cuja objectividade contrastava com a subjectividade romântica. Entre as principais características deste tipo de poesia, referência à perfeição dos versos, bem como ao tom descritivo, à referência a obras de arte e paisagens.

 

Em Florbela, o parnasianismo evidencia-se, sobretudo, em sonetos como «Toledo» e «Charneca em Flor».

 

Influências simbolistas e decadentistas:

 

Nos versos de Florbela, encontramos frequentemente uma necessidade, quase desesperada, de viver o instante, o momento, o tempo efémero que passa, sobretudo quando se trata de um tempo feliz, como no soneto «Hora que Passa», de onde se depreende a referência à transitoriedade do tempo e da vida. Esta temática, abordada quase obsessivamente por Florbela, aproxima-a da corrente simbolista e, sobretudo, da poesia de Camilo Pessanha.

 

Em segundo lugar, também a referência constante a estados de espírito marcados pela dor e pelo tédio apontam para uma forte influência decadentista – simbolista na poética de Florbela, bem como a imagem das torres de marfim, onde se quis refugiar da mediocridade da vida quotidiana.

 

Por último, destaque para os traços da assimilação da linguagem simbolista – decadentista, bem patentes nas imagens e no mistério implícito do soneto «Outonal», e também, menos acentuadamente, em «Charneca em Flor».

 

Florbela Espanca não se ligou claramente a qualquer movimento literário. Está mais perto do neo-romantismo e de certos poetas de fim-de-século, portugueses e estrangeiros, que da revolução dos modernistas, a que foi alheia. Pelo carácter confessional, sentimental, da sua poesia, segue a linha de António Nobre, facto reconhecido pela poetisa. Por outro lado, a técnica do soneto, que a celebrizou, é, sobretudo, influência de Antero de Quental e, mais longinquamente, de Luís de Camões.

 

Florbela Espanca colaborou no jornal Notícias de Évora juntamente com Irene Lisboa (1892-1958) onde foi precursora do movimento de emancipação feminina português. Apesar da rigidez católica e das leis de Portugal, foi casada duas vezes e sua obra possui um acento erótico incomum aos padrões precedentes à emancipação feminina lusitana.

 

Florbela era, de facto, uma jovem mulher muito atraente, o que também terá sido motivo de inveja para muitas das mulheres do seu tempo, que não hesitaram em caluniá-la. Nas palavras de Maria Alexandrina, Florbela era esbelta, graciosa, de porte senhoril, fartos cabelos negros, pele fina e transparente, sedosa e bela (Maria Alexandrina, «A Vida Ignorada de Florbela Espanca»), a que se juntava um culto do traje e um guarda-roupa moderno, com peles e saia-calça (uma novidade francesa da altura) incluídas, totalmente inovador e diferente do que a sociedade portuguesa estava acostumada a ver.

 

Com a sua capeline e o seu colar de pérolas, uma das suas fotografias mais conhecidas e que oferecera a Guido Battelli, Florbela fixa um tipo social que perdurará no tempo: segundo Agustina Bessa Luís, trata-se da figura da vagabunda letrada (Agustina Bessa Luís, «A Vida e a Obra de Florbela Espanca»).

 

Temperamento nostálgico e infinitamente triste, pelo resto da vida Suportou a dor da morte do irmão, Apeles Demóstenes da Rocha Espanca, ocorrida em Junho de 1927 num acidente aéreo, quando ela então começou a consumir estupefacientes.

 

Após uma sucessão de crises depressivas passou a ficar cada vez mais dependente de Veronal, droga que tomava para dormir. Apeles, o irmão com quem mantinha uma relação quase incestuosa, morrera há três anos e a insónia a abatia ainda mais.

 

Poetisa de excessos, cultivou exacerbadamente a paixão, com voz marcadamente feminina (em que alguns críticos encontram dom-joanismo no feminino). A sua poesia, mesmo pecando por vezes por algum convencionalismo, tem suscitado interesse contínuo de leitores e investigadores.

 

É tida como a grande figura feminina das primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.

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