UM CAFÉ NA INTERNET – Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 19 – Em Vilarinho. Por Manuela Degerine

Um café na Internet 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em Vilarinho


       A ocupação do albergue será de tal modo intensa que o espaço se degradou e um dos beliches se encontra agora partido. Coloco o saco-cama na parte superior, ao lado do janelim, como no ano passado. E sento-me na cadeira a escrever.


Meia hora depois entram dois peregrinos, Lars e Lena, altos e louros como dois suecos, ele andará pelos quarenta e ela pelos cinquenta anos. Instalam-se no outro beliche. Conversamos um pouco. Em inglês.


Percorreram duas vezes o Caminho Francês, entre Saint-Jean-Pied-de-Port e Santiago de Compostela, setecentos e cinquenta quilómetros, no Outono porém, com temperaturas amenas e um percurso bem enquadrado: mais albergues, mais peregrinos, uma sinalização correcta, um percurso pensado para os andarilhos. Comparamos Moreira da Maia com a via rápida: entre risco e perigo, venha o Diabo e escolha. Portanto eles começaram no Porto mas sentem-se prestes a desistir, achando excessivos o calor e insegurança: não vieram para se suicidar. Explico que, a partir de Barcelos, o caminho se torna bonito, sossegado, bem sinalizado e tem albergues correctos, se não magníficos, como em Ponte de Lima; isto confirma o que leram em vários roteiros. Quantoà temperatura, pelas previsões, é provável que suba.


Batem à porta por volta das seis horas. Os suecos abrem: são duas alemãs. Com uma cama partida, restavam apenas três, agora todas ocupadas, todavia as alemãs expõem tamanho alarme perante a perspectiva de caminharem até S. Pedro de Rates, que Lena enfim propõe: fiquem no beliche de cima, nós dormimos no de baixo. Pelas onze da noite já cada alemã ocupa uma cama… Os suecos, ambos altos, incapazes, como era evidente, de dormirem ambos num espaço tão apertado, por solidariedade um com o outro, deitam-se no chão – e não dormem.


Aliás também eu, aparentemente bem instalada, pouco durmo. Será possível? Haverá bicharia no colchão? Tenho um braço, o pescoço, os tornozelos a arder…


Saímos do albergue às seis e meia.


As alemãs dormem a sono solto.

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