Um café na Internet
O que faz um fotógrafo de nuvens e de
estrelas, neste dia de chuva, de temporal
desfeito, quase deitado no chão, fotografias
espalhadas em volta, no meio da lama?
Há quem se aproxime para o ajudar, quem
apanhe as imagens mais sujas e lhas devolva
limpando-as com a ponta do casaco. Mas,
uma a uma, ele volta a colocá-las onde esta-
vam, tão meticulosamente como se as
dispusesse num desses tabuleiros que usa
para a revelação dos negativos. E, esfre-
gando-as contra as pedras da rua, desenha
mais sulcos no papel fotográfico – riscos,
manchas negras. «As belas fotografias»,
digo-lhe, desolada, enquanto procuro salvar
ainda as menos atingidas. «Manchadas»,
estragadas. Porquê tudo isto? Eram tão
leves as tuas nuvens, foram tão demora-
das de fotografar na exacta medida de luz
e de sombra». Molhado até aos ossos, o
fotógrafo celeste parece estranhamente
feliz com a sua obra. «Agora estão certas»,
diz. «Continuam tão belas quanto eram,
mas têm também aquela margem de lixo
e de desordem sem a qual nada pode ser
verdadeiramente deste mundo»
In A Porta de Duchamp
Averno, 2009
Rosa Maria Martelo
Nasceu em Vila Nova de Gaia, em 1957. É professora associada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde se doutorou em Literatura Portuguesa. Além de ensaios incluídos em revistas ou obras colectivas, publicou “Estrutura e Transposição: Invenção poética e reflexão meta poética na obra de João Cabral de Melo Neto” (1990) e “Carlos de Oliveira e a Referência em Poesia” (1998).


