Pessoalmente acredito que dentro de 6 anos a Europa reencontre os caminhos da solidariedade de facto que entretanto se perderam e comece a criar as Instituições e ou as estruturas adequadas a uma real saída da crise e neste eperíodo alcançar a situação que antecedia a crise. Um outro trajecto, a modificação das condições que à crise nos trouxeram é o que depois se seguirá. Um caminho difícil mas .. razões para tal hipótese e as palavras escorriam-me, ia a dizer para tal facto, são as seguintes :
- A Alemanha tem vivido na base de uma desinflação competitiva possível pela pressão à contenção salarial que a existência de um vasto exército de reserva a leste lhe permite, dado que este vasto reservatório lhe oferece duas vantagens e que são baixos salários e muito bom nível de formação de mão-de-obra. Mas esse mercado, com essas características já se está a esgotar. Lembram-se de quanto Schroeder queria informáticos de alto gabarito, procurando obtê-los a leste com a imigração selectiva? Não arranjou um terço dos valores que pretendia. As novas gerações a leste já não têm o cunho profissional e a disciplina das gentes formadas sob o regime comunista. Mas, para além disso, a desinflação competitiva significa melhoria dos termos de troca à exportação mas exportação para onde? O seu principal mercado é a Europa e a seguir a China. O Der Spiegel mostrou-o bem, o grande patronato alemão sente bem que não pode ficar dependente da China, porque a ser assim, será dela a Alemanha o próximo prisioneiro. Conclusão, a grande indústria forçará a quem se salve o Euro e possivelmente com menos custos do que os que agora são impostos. E aqui tem-se a consciência que ou se salva o Euro e com ele a Alemanha ou então é a democracia com tudo o que ela implica que fica em perigo por todos os países, inclusive a imperial Alemanha. Mas a crise é política e é politicamente que tem que ser resolvida. A pressão ao nível dos eleitores alemães, por enquanto manobrados por forças de direita ou de um certo populismo de esquerda, os Verdes alemães, virá depois ao de cima, quando a austeridade directamente imposta por Berlim ou indirectamente imposta pela recessão que se vai nestes anos atravessar por toda a Europa. Esta pressão à direita e ao centro-esquerda imporá que o SPD se cure dos efeitos do neoliberalismo de Schroeder e dos que o substituíram e a resposta ao para lá da crise virá por estas vias. O próprio SPD será também pressionado pelo Die Linke e portanto é por aqui de esperar que a maior resistência às mudanças estruturais de que a Europa precisa vindas das actuais instituições de Berlim seja neutralizada e se encontre portanto uma verdadeira trajectória de crescimento sustentado e sustentado sobretudo por uma dinâmica europeia interna.
- No caso inglês teremos um cenário não muito diferente, até porque a política suicida do actual executivo não se distingue da seguida pela União Europeia. Um pormenor curioso: a libra tem sido sujeita a uma depreciação fortíssima sem que isso a tenha tirado da crise, antes pelo contrário, é agora a Fitch que avisa que lhe pode tirar o seu triplo A. O desemprego ira necessariamente aumentar e um sinal claro é já a revisão à baixa que o próprio executivo faz quanto à taxa de crescimento que a baixa de 1, 7 % para 0,9%! Mas a questão da forte depreciação da taxa de câmbio da libra mostra que uma política comercial agressiva, seria aqui o caso, só resulta perante a verificação de dois dados: haver produtos em que o país se especialize, sobre os quais tenha vantagem preço e vantagem rendimento, e haver compradores para esses produtos, ou seja se houver do outro lado quem compre. Ora a Inglaterra fez a opção ao longo de mais de 20 anos da financeirização da economia. Gordon Brown foi bem claro: a China pode ser a fábrica do Mundo, a Índia pode ser o escritório do mundo, mas nós, os ingleses e os Americanos somos os centros dos capitais do Mundo. Não foi por acidente, foi por opção. Isto foi dito em 2006! Ora com uma Europa em recessão, o seu principal parceiro, saída por aí não há. Então a grande questão de fundo é exportar o quê e exportar para quem, para onde? Para a China? Nem pensar. Será então a especializar-se em serviços turísticos, com uma libra barata? Mas com esta hipótese é colocar a Inglaterra ao nível dos países ditos periféricos, o que não é de admitir, nem os grupos economicamente dominantes deixariam a Inglaterra chegar a este ponto
A crise é política e a saída terá de ser política. Até Mario Draghi teve o cuidado de o afirmar claramente. Aqui na Inglaterra como na Alemanha, os movimentos sociais levarão o pêndulo para o sítio correcto e, de resto, já se começou a sentir uma renovação do Labour Party.
Mas a depreciação fortíssima da libra mostra ainda algo muito importante: que a saída dos países periféricos da zona euro para ganharem competitividade como defende Hans-Werner Sinn também não resulta no contexto actual porque o jogo das elasticidades, preço e rendimentos estão bloqueados à alta das exportações. Cremos que a mesma posição crítica pode ser levantada à posição assumida com vigor desde há muito tempo por aquele que é, inegavelmente, em Portugal o economista mais representativo na crítica ao quadro instituicional da actual União Europeia, João Ferreira do Amaral[1]. Uma outra Europa, um outro trajecto terá de ser reinventado para que estes mecanismos económicos sejam desbloqueados no sentido do crescimento e é essa via de saída que a União Europeia será obrigada a criar mas para isso será a força e a oposição dos respectivos povos que a irá obrigar a tomar. Um longo trabalho de consciencialização política a fazer, portanto…
3. A França
A França terá um percurso semelhante. Sarkozy irá caír e Marine Le Pen irá subir. O PS francês ganhará as eleições, mas François Hollande poderá ser forçado a fazer coligação com um outro pequeno partido (Bayrou) ao centro ou um pouco mais à esquerda (Jean-Luc Mélenchon). Neste caso o PS pode ser forçado a guinar um pouco mais à esquerda ou se assim não for isso levará a um certo tempo a renovação dentro do PS e voltamos a estar perante um período politicamente tenso e intenso de renovação á esquerda, à social-democracia, dentro do PSF.
4. A Itália.
A subida de um governo de tecnocratas, solução de compromisso, forçado ele também a políticas de austeridade não será pois uma saída para a crise, mas sim um interregno face ao profundo vazio que Berlusconi criou neste país. A corrupção do ponto de vista político era enorme e aqui tudo se trata de se saber se a esquerda será capaz de encontrar plataformas comuns de modo a vencer a extrema-direita, Bossi, e a linha preconizada por todos aqueles que foram criados pelo sistema Berlusconi. Porém a honestidade que se pode atribuir a Mário Monti e a clareza e a sinceridade que este possa colocar nas suas decisões pode levar o povo italiano a despertar do clima de adormecimento em que Berlusconi o colocou. Com esses pressupostos, também aqui queremos acreditar que o trajecto possa ser equivalente ao anteriormente desenhado para os países analisados.
5. Espanha.
No caso espanhol a evolução à esquerda parece vir a ter menos condicionantes. Zapatero, um pouco tarde talvez, ainda saiu a tempo, não do PSOE evitar a derrota mas sim de se permitir a renovação do partido sem grandes custos internos. É portanto de esperar uma profunda renovação intelectual no interior do partido e em toda a sociedade espanhola. Duas componentes irão jogar nesse sentido. A direita não tem programa de resposta à crise quer do ponto de vista político, quer do ponto de vista económico. Não nos podemos esquecer que estamos a falar de um país em que, por exemplo, a taxa de desemprego nos jovens entre 16 e 25 anos ronda os 48%! A direita irá perder as eleições pela mesma razão com que as ganhou: a crise. Como segunda razão, os Indignados terão um papel importante a desempenhar. Até aqui fizeram-no a favor da direita , ao consciencializar as pessoas para a abstenção. Porém, acreditamos que o seu papel agora pela consciencialização a que se força as pessoas a ganharem vai ter um papel positivo na consciencialzação e na contestação á direita. Como por outro lado o PSOE irá aparecer com uma outra imagem, com uma outra intenção, os dois dados conjugados levarão a um reforço nas vias para o aprofundamento da integração europeia e para o renovar da política económica nacional e europeia, com o necessário aprofundamento do mercado único e no sentido até que lhe deu Mário Monti no relatório enviado a Durão Barroso. Processo também a levar tempo.
6. Portugal
Portugal do ponto de vista político está dentro da zona euro numa posição equivalente à dos ingleses que estão fora. Uns jovens com o rei na barriga convencidos de que todos eles são capazes de convencer toda a gente que o importante é a submissão a estes mercados financeiros que nos destroem. A inconsciência política é enorme. Olhe-se para a política de saúde em Portugal. Seriamente , cada um de nós pense no que vê se vai a uma consulta externa a um hospital. É de ficar estarrecido. Baixam-se os recursos nos hospitais e aumentam entretanto vertiginosamente a procura dos cuidados hospitalares. Portugal vai ser um país de gente doente. Olhemos para a Economia. Se existe ministro que esse nome mereça, claramente toda a gente desconhece, claramente digno de ministro ser considerado, isso não existe. Os exemplos das suas intervenções na Assembleia da República ou em diversas outras ocasiões mostram que é actualmente um homem de uma pobreza intelectual aflitiva. O que nos seus tempos de estudante aprendeu connosco, aqui em Coimbra, o vento levou e parece que a ambição e a vaidade ou até a ignorância foi tudo o que dele se apossou. É confrangedor sermos assim um país sem projectos económicos. Naturalmente assim de um ministro sem projectos e já a dar provas de ser também um ministro sem memória e quando se desta está privado é do futuro que nos priva também. Olhemos para a Educação: o descalabro de um ministro a roubar 500 euros de prémios a estudantes do secundário é bem edificante ou então a validar contratos de professores a 30 dias, tudo isto vindo de um ministro jovem e que teve um passado de esquerda, dá que pensar. Seremos por essa via com alunos arrumados em salas como sardinhas numa lata, talvez para se aquecerem melhor, um país de ignorantes e a máquina que essa ignorãncia vai desenvolver já está em franca actividade, alimentada agora por um ministro, Nuno Crato, que terá a ministro chegado cheio de ideias, mas ideias de quê, afinal? Do Gaspar, nem vale a pena falar, mas é um homem de Bruxelas e se calhar, quem sabe, imposto por Bruxelas também? Tudo parece assim indicar e em política o que parece é, já o dizia um homem que da liberdade nada sabia: Salazar. Mas disso, sabia. Repare-se como ele fala ao povo português, como se todos nós sejamos um povo de atrasados mentais, mas como isto é uma impossibilidade, a dedução que se segue é imediata. A salvaguarda que faz dos valores impostos por Bruxelas dão de facto a entender que seu muito bom servidor é o que ele deseja ser. Da Democracia já ele provou, tal como Bruxelas também, que desde há muito tempo os seus princípios ignorou. Poderei estar enganado, não sei.
Aqui como em Espanha o governo irá cair pela razão com que subiu: a crise. Cai ainda com mais força de razão porque aplica um programa, medidas concretas que não constam de programa, que vão para além de todas aquelas que o programa da Troika já infelizmente impõe, e toda a gente se começa a sentir enganada. Quando chegar as eleições, antes do final do mandato creio e assim o espero, estaremos perante um país social e moralmente falido. A derrota será estrondosa e para isso basta a mínima abertura europeia para que isso assim aconteça. Os movimentos dos militares são um claro sintoma do mal-estar. O descalabro do primeiro-ministro que se assume explicitamente ao serviço dos mercados financeiros, pois só há um objectivo pagar a dívida, pagar a dívida não só a que fizemos, e de que internamente ninguém é responsável, mas sobretudo pagar a dívida que nos é imposta, imposta pelas taxas de juro incomportáveis que nos foram exigidas, esse descalabro fere até o mais ignorante. Dizer que é preciso empobrecer a quem já pobre, é qualquer coisa que mais parece do domínio dos loucos e fazer para que isso aconteça levará necessariamente a movimentos sociais intensos…
Entretanto dar-se-á a renovação no interior do PS e em que o peso dos neoliberais, ditos socialistas, irá fortemente diminuir. De resto, goste-se ou não, sinais de mudança começam já a ser visíveis.
7.Irlanda
Pela mesma razão que os governos acima referidos o actual executivo chegou ao poder pela responsabilização enorme que o executivo anterior tinha na crise criada. Mas a Irlanda mostra já que em princípio o actual executivo não irá caír nas próximas eleições, exactamente porque não quer responder à crise no quadro do sistema que a criou, e daí a sua frontalidade face à União Europeia, face à Comissão Europeia, considerada por David Begg, secretário-geral da confederação sindical ICTU, como sendo um conjunto de extremistas e muito menos compreensivos que o FMI. Curiosa a inversão de papeis. Ainda aqui a Comissão Europeia acaba de passar por mais uma vergonha, por mais um desreito a um Estado-membro. A Irlanda é obrigada a submeter o seu projecto de orçamento à Troika. Este plano foi parar a um comité parlamentar no Bundestag, facto que o ministro das Finanças, Michael Noonan foi obrigado a confirmar. Inacreditável, diremos.
Na situação presente a Irlanda representa já uma forte linha de fractura contra o modelo dominante em Bruxelas.
Mário Draghi diz-nos e bem que a saída da crise não pode vir do BCE dado o enquadramento jurídico em que este se situa. A saída da crise terá de ser política e disso não tenhamos dúvidas. Durão Barroso já o sente bem e não creio que as suas guinadas à esquerda lhe sirvam para alguma coisa. Uma profunda reflexão é agora exigida para uma reinvenção da Europa e das suas Instituições. Nessa renovação Durão Barroso está necessariamente a mais. O ciclo de eleições europeias darão um profundo sinal de que esta Europa, assim, não.
Resta-nos ainda um escolho e que não é pequeno nesta reinvenção europeia tão desejada, e que são os quadros institucionais mundiais, mais particularmente a não submissão quer do Banco Mundial quer da OMC ás normas democráticas da ONU quer ainda e lamentavelmente do papel meramente consultivo que assume a OIT, quando esta deveria ter o mesmo papel regulador que a srestantes Instituições Internacionais. Uma revisão do quadro regulamentar das trocas internacionais impõe-se, o respeito rigoroso pela concorrência não falseada exige-se, o estabelecimento de normas internacionais de trabalho condigno é imperativo, a responsabilização perante os desequilíbrios mundiais entre países deficitários e excedentários reclama-se que seja equitativa, um outro estatuto para a OIT necessita-se com urgência, enfim estas são reformas que terão que ser desencadeadas no ambito de um novo Bretton Woods de que se sente a urgência como resposta a esta absurda globalização. Mesmo aqui o trabalho começa já a ser desbravado e até já se fala agora de desmundialização, plataforma portanto para que um trabalho de consciencialização á escala planetária seja realizado de modo a obter uma regulação adequada das trocas internacionais. Aqui, talvez se perceba que a evolução tenha de ser mais lenta, mas tem que haver evolução e o seu ritmo pode ser estabelecido pelo ritmo da evolução da Europa na criação de uma nova regulação.
A terminar deixo aqui como minhas as interrogações do filósofo Yves-Charles ZARKA publicadas receentemente no Le Monde e das respostas que políticamente a estas interrogações forem dadas dependerá a saída da crise:
Porque é que os Estados que salvaram os bancos, e deviam-no fazer, não criaram os meios para controlarem o funcionamento e as escolhas que estes fazem? Porque é que não são tomadas as medidas drásticas, institucionais e financeiras, para que os Estados não fiquem amarrados à avaliação de três agências de notação, as quais, pelo que se sabe são mesmo muito pouco credíveis, até pela forma como notaram com o nível AAA os produtos subprimes até ao momento da catástrofe de 2008? Porque é que se deixa os mercados financeiros continuarem a aumentar a sua influência sobre os Estados através do aumento das dívidas ditas “soberanas” mas cuja característica fundamental é serem sobretudo dívidas da servidão? Porque é que os dirigentes dos Estados continuam a acreditar nas virtudes da auto-regulação e da informação do mercado? É possível evitar o perigo face ao qual nos encontramos? É possível desta crise sair? A esta pergunta, a resposta pode ser positiva, mas na condição de que a política saia da situação de servilismo e de degradação na qual foi colocada e que comporta três aspectos:
- – Ao nível do estado, assistimos à destruição do domínio público.
- Ao nível da sociedade civil assiste-se à erosão de tudo o que é comum (…) e a sociedade dos indivíduos torna-se uma justaposição da solidão de cada um [e em que] a violência e a insegurança resultam da extensão desse isolamento
- Ao nível antropológico, o indivíduo fechado sobre si-mesmo é mais manipulável, porque é mais dependente dos poderes que o enquadram. Os indivíduos assim isolados dão origem aos extremismos políticos.
Um caminho longo a percorrer, sendo certo que agora o primeiro passo é desbloquear esta Europa agora aprisionada pelos seus principais responsáveis e depois de desbloqueada é então tempo de urgentemente a procurar reconstruír . Um período máximo de 6 anos no máximo para isso se começar a conseguir e se iniciar o estabelecimento das traves mestras de uma outra Europa, a Europa dos cidadãos.
[1] Há cerca de quase dois anos, ainda a missa ia no adro, já João Ferreira do Amaral me dizia que ou reformulavam o quadro instituicional ou a União Europeia correria o risco de explodir.
