1653 caracteres tem este conto de Aurora Prata – “A Origem” – vamos ler:
A cegonha voava serena e incansável; atravessava os céus guiada pela lua. Desde os tempos já esquecidos que transportava, orgulhosamente, a vida, o ser, envolto em cândida e aconchegante teia de sonhos e esperança.
O fim da jornada aproximava-se, anunciado pela lua nova que reinava na monotonia da noite. Olhou para baixo e viu o mar, escuridão infinita ansiosa por abraçar uma nova existência. Esperaria um pouco mais. Sentia o peso da missão que carregava, dessa tela em branco, cheia de tudo e cheia de nada, da multipotência que nela fervilhava e da plasticidade das suas formas e capacidades.
Mergulhada no silêncio do seu pensamento, continuou a sua marcha aérea, até que um suspiro irrompeu das estrelas, arrastando atrás de si a delicada melodia que trazia o início e o fim de todas as coisas. Chegara o momento: o fim do início, esse que sempre tivera hora marcada. Assim como o fruto fértil cai da árvore, a cegonha largou aquele pequeno mundo que carregava. Viu-o desaparecer no abraço negro do mar, e desejou-lhe a mais colorida das vidas.
Agradava-lhe a escuridão, o líquido que lhe encharcava os pulmões, a serenidade e a familiaridade dos sons que ouvia à distância e, com uma inesperada naturalidade, nadou… Nadou até se cansar, nadou até adormecer… Nadou até sentir que lhe faltava espaço. Decidiu libertar-se do desconforto daquela existência apertada. Procurou e pareceu-lhe encontrar uma única saída. Arriscou e mergulhou numa espiral de luz, sangue, calor, frio, texturas, palavras, lágrimas e amor… E assim, tal como toda a humanidade, nasci da viagem da cegonha, das águas do mar e do ventre da minha mãe.
