Antevisão dos resultados da Cimeira que está a decorrer, seguido de um comunicado da Moody’s a seguir à Cimeira. Selecção e introdução por Júlio Marques Mota.

Aqui apresentamos dois pequenos textos. O primeiro, uma nota pessoal, uma opinião  que a meio da cimeira me foi  pedida sobre os resultados possíveis, portanto  ainda desconhecidos, desta cimeira, de cujo texto o Expresso reproduziu dois excertos. O segundo, o comunicado da Moody’s publicado a seguir à cimeira.


A confrontação dos dois textos, um texto a ler a lógica do modelo que nos levou à crise e que  as Instituições não largam e por isso da crise não saiem, como se continuar no mesmo caminho possa ser  alguma vez  a sua tábua de salvação, e o outro texto a confirmar que foi assim mesmo,  essa confrontação pela coincidência não ocasional, portanto, mostra assim claramente que   os nossos dirigentes andam   nitidamente a brincar com o fogo e com as dinâmicas da história, andam  a empurrar-nos para a situação típica de Weimar de onde resultou a força do movimento que levou Hitler ao poder. Não nos esqueçamos.

 

Texto 1

Antevisão dos resultados da Cimeira que está a decorrer

Júlio Marques Mota

 

 

1. A cimeira franco-alemã com os seus acompanhantes a simular um Conselho manteve o que já estava  no que diz respeito às linhas fundamentais sobre  as  quais a União Europeia se tem regido e através das quais da crise não tem saído.

 

2. Numa Europa a atravessar uma profunda recessão apontar de imediato para mais austeridade significa mantermo-nosem recessão. Amanutenção em recessão, significa   menor capacidade de suportar os encargos da dívida soberana, o que vai de novo obrigar a mais  austeridade quando socialmente já se ultrapassaram todos os limites admissíveis. Desse ponto de vista  a cimeira falhou  por completo. Nenhuma ideia nova, portanto.

 

3. Nessa sequência a instabilidade aumenta a que se devem acrescentar agora a pressão para o aumento dos fundos próprios  na banca . Temos assim todos os condimentos para um novo credit crunch. E não basta a baixa da taxa de juro do BCE. Em recessão e sem um mix em política económica que a Cimeira recusa em absoluto estaremos a cair numa armadilha da liquidez, a cair numa situação pior do que aquela em que caiu o Japão. 

 

4. Nos limites do seu enquadramento e bem balizado pelos seus estatutos Draghi mandou um poderoso sinal de alarme   à própria cimeira que o não quis entender. Falta-lhe ainda a clareza de um Bernanke para que tudo seja claro, tendo porém ele porém  tornado claro que há decisões que devem  ser  tomadas mas a um outro nível, ao nível político e os políticos que se entendam. Até porque  a crise é de facto política. Mas os políticos não se entendem, ou, se se entendem, fazem-no no pior sentido, no sentido da austeridade e no sentido de não serem capazes de regular seja o que for.

 

5. Teremos assim uma cimeira em Março próximo, um Conselho dizem, onde tudo que está na mesma será aí retomado. O tempo perde-se  e os mercados atacam, com a sua percepção do risco que ao considerarem a agravar-se exige a sua correspondente remuneração a aumentar. Uma revisão a sério do Pacto de Estabilidade e Crescimento a ser desencadeada em Março e ao ritmo que as Instituições Europeias funcionam levará a que um bom acordo a ser aí alcançado, por hipótese, só terá condições de ser exequível um ano depois! Tarde, muito tarde e eu acredito que até Março muito protesto se passará nas ruas a forçar a política que até aqui ninguém quer aceitar: o Pacto tem que ser provisoriamente suspenso e os mecanismos de alívio dos Estados em dificuldade face aos mercados têm que rapidamente ser  criados .

 

6. O caricato disto tudo é que face à crise se queiram estabelecer ritmos de austeridade socialmente já insuportáveis para se alcançar os objectivos traçados em 1991, os famosos critérios de Maastricht, como se a Europa andasse num bom bólide a guiar pelo retrovisor! E ninguém é capaz de querer perceber que os  critérios apenas traduziam os valores médios verificados na época, até os 3 % do défice agora tão gritados e que surgiam do produto da taxa de crescimento nominal, 5%, pelo peso relativo da dívida de então, 60%, naquela  época.

 

7. Mais ainda,   na Cimeira nem sequer se discute a existência  de ciclos  económicos pois mesmo a admitir validade a estes critérios, que não a têm, então os valores deveriam ser valores médios, por exemplo,  por 5 anos, deveria haver coordenação de políticas macroeconómicas que não fazem, para que os Estados membros estivessem sempre sobre a mesma trajectória do Ciclo de actividade.

 

8. A continuar por esta via não há Europa que resista.

 

Texto 2. Comunicado da Moody’s

 

A dívida dos Estados soberanos da zona Euro permanece sob pressão dada a ausência de iniciativas decisivas

 

Global Credit Research – 12 Dezembro de 2011

 

Londres, 12 Dezembro 2011 – Tendo em vista a ausência continuada de medidas de política decisivas, apesar da recente cimeira  da zona do euro, Moody’s Investors Service continua a afirmar  a sua intenção de rever as classificações de todos os países soberanos da UE durante o primeiro trimestre de 2012. Como Moody’s  tinha afirmado em Novembro,  esta atitude é devida ao facto de se estar  perante a ausência de medidas para estabilizar os mercados de crédito a curto prazo e significa então que a área da zona euro e da UE alargada  se mantém  propensa  a novos choques e a  coesão da área do euro continua  sob ameaça.

Na última sexta-feira, os dirigentes e decisores políticos europeus anunciaram medidas adicionais destinadas a responder aos enormes desafios que se enfrentam na área do euro.  A Moody’s reconhece que  o comunicado da cimeira  sublinha o desejo continuado entre os políticos da área do euro para avançarem  para a centralizada coordenação fiscal  e mutualização dos recursos e dos riscos. No entanto, a Moody’s  considera   que o comunicado   poucas  novas medidas oferece e aponta que muitos delas são semelhantes às já  anteriormente anunciadas. (Medidas para reforçar a supervisão dos défices excessivos foram anunciadas  pela primeira vez em  2011, enquanto a intenção de reforçar os quadros orçamentais nacionais e melhorar a coordenação e a cooperação foi anunciada  em Outubro, assim como o foi o objectivo de alavancar o FEEF.)


Em termos gerais,  a Moody’s  acredita que as medidas anunciadas reflectem a contínua tensão entre o reconhecimento dos dirigentes  da área do euro  quanto à necessidade de aumentar o apoio aos países fiscalmente mais fracos e a oposição significativa dentro dos países mais fortes para o fazer.  Entre  crescentes pressões sobre as autoridades da área do euro para agirem  rapidamente de modo a  restaurar a confiança dos mercados de crédito, os obstáculos que enfrentam também estão a aumentar. Quanto mais tempo esta situação se mantiver, maior será o risco de que as   condições económicas adversas se adicionarem   aos já amplos   desafios  que enfrentam as autoridades  para a  coordenação  das políticas e dos esforços para a  redução da dívida.

As medidas anunciadas, portanto, não mudam a opinião expressa anteriormente pela Moody’s de que a crise está numa fase crítica e volátil, com os mercados de dívida soberana e bancária propensos a intensas deslocações  que os políticos irão constatar  que são  cada vez mais difíceis  de conter.  Enquanto cenário central a Moody’s  continua a considerar que a área do euro será preservada sem mais incumprimentos generalizados e os choques que se concretizarão mesmo no quadro deste cenário “positivo” estão cheios de implicações de avaliação negativa nos próximos meses. Além disso, quanto mais tempo a abordagem incremental na  política persistir, maior será a probabilidade de cenários mais graves, incluindo os cenários  que envolvem múltiplos países da área do euro em situação de incumprimento e os que, adicionalmente, possam  envolver saídas da área do euro.


As implicações sobre o crédito destas e de outras medidas provavelmente a serem  anunciadas nas próximas semanas requerem uma avaliação cuidadosa contra o cenário de desaceleração da actividade económica regional,  de  sistemas bancários frágeis, de  mercados de crédito parcialmente disfuncionais  assim como devido à existência de diferentes  graus de sucesso dos  países com a aplicação das medidas específicas destinadas às mudança estruturais  e à consolidação orçamental. Mas, na ausência de iniciativas políticas no futuro próximo que estabilizem as condições do mercado de crédito de forma eficaz, a Moody’s acredita que o sistema continua propenso a novos choques, o que provavelmente levaria a mudanças de rating selectivos. Como resultado, a intenção da Moody’s  continua a ser a de revisitar os ratings soberanos do euro  e os países da UE durante o primeiro trimestre de 2012.

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