Aqui apresentamos dois pequenos textos. O primeiro, uma nota pessoal, uma opinião que a meio da cimeira me foi pedida sobre os resultados possíveis, portanto ainda desconhecidos, desta cimeira, de cujo texto o Expresso reproduziu dois excertos. O segundo, o comunicado da Moody’s publicado a seguir à cimeira.
A confrontação dos dois textos, um texto a ler a lógica do modelo que nos levou à crise e que as Instituições não largam e por isso da crise não saiem, como se continuar no mesmo caminho possa ser alguma vez a sua tábua de salvação, e o outro texto a confirmar que foi assim mesmo, essa confrontação pela coincidência não ocasional, portanto, mostra assim claramente que os nossos dirigentes andam nitidamente a brincar com o fogo e com as dinâmicas da história, andam a empurrar-nos para a situação típica de Weimar de onde resultou a força do movimento que levou Hitler ao poder. Não nos esqueçamos.
Texto 1
Antevisão dos resultados da Cimeira que está a decorrer
Júlio Marques Mota
1. A cimeira franco-alemã com os seus acompanhantes a simular um Conselho manteve o que já estava no que diz respeito às linhas fundamentais sobre as quais a União Europeia se tem regido e através das quais da crise não tem saído.
2. Numa Europa a atravessar uma profunda recessão apontar de imediato para mais austeridade significa mantermo-nosem recessão. Amanutenção em recessão, significa menor capacidade de suportar os encargos da dívida soberana, o que vai de novo obrigar a mais austeridade quando socialmente já se ultrapassaram todos os limites admissíveis. Desse ponto de vista a cimeira falhou por completo. Nenhuma ideia nova, portanto.
3. Nessa sequência a instabilidade aumenta a que se devem acrescentar agora a pressão para o aumento dos fundos próprios na banca . Temos assim todos os condimentos para um novo credit crunch. E não basta a baixa da taxa de juro do BCE. Em recessão e sem um mix em política económica que a Cimeira recusa em absoluto estaremos a cair numa armadilha da liquidez, a cair numa situação pior do que aquela em que caiu o Japão.
4. Nos limites do seu enquadramento e bem balizado pelos seus estatutos Draghi mandou um poderoso sinal de alarme à própria cimeira que o não quis entender. Falta-lhe ainda a clareza de um Bernanke para que tudo seja claro, tendo porém ele porém tornado claro que há decisões que devem ser tomadas mas a um outro nível, ao nível político e os políticos que se entendam. Até porque a crise é de facto política. Mas os políticos não se entendem, ou, se se entendem, fazem-no no pior sentido, no sentido da austeridade e no sentido de não serem capazes de regular seja o que for.
5. Teremos assim uma cimeira em Março próximo, um Conselho dizem, onde tudo que está na mesma será aí retomado. O tempo perde-se e os mercados atacam, com a sua percepção do risco que ao considerarem a agravar-se exige a sua correspondente remuneração a aumentar. Uma revisão a sério do Pacto de Estabilidade e Crescimento a ser desencadeada em Março e ao ritmo que as Instituições Europeias funcionam levará a que um bom acordo a ser aí alcançado, por hipótese, só terá condições de ser exequível um ano depois! Tarde, muito tarde e eu acredito que até Março muito protesto se passará nas ruas a forçar a política que até aqui ninguém quer aceitar: o Pacto tem que ser provisoriamente suspenso e os mecanismos de alívio dos Estados em dificuldade face aos mercados têm que rapidamente ser criados .
6. O caricato disto tudo é que face à crise se queiram estabelecer ritmos de austeridade socialmente já insuportáveis para se alcançar os objectivos traçados em 1991, os famosos critérios de Maastricht, como se a Europa andasse num bom bólide a guiar pelo retrovisor! E ninguém é capaz de querer perceber que os critérios apenas traduziam os valores médios verificados na época, até os 3 % do défice agora tão gritados e que surgiam do produto da taxa de crescimento nominal, 5%, pelo peso relativo da dívida de então, 60%, naquela época.
7. Mais ainda, na Cimeira nem sequer se discute a existência de ciclos económicos pois mesmo a admitir validade a estes critérios, que não a têm, então os valores deveriam ser valores médios, por exemplo, por 5 anos, deveria haver coordenação de políticas macroeconómicas que não fazem, para que os Estados membros estivessem sempre sobre a mesma trajectória do Ciclo de actividade.
8. A continuar por esta via não há Europa que resista.
Texto 2. Comunicado da Moody’s
A dívida dos Estados soberanos da zona Euro permanece sob pressão dada a ausência de iniciativas decisivas
Global Credit Research – 12 Dezembro de 2011
Londres, 12 Dezembro 2011 – Tendo em vista a ausência continuada de medidas de política decisivas, apesar da recente cimeira da zona do euro, Moody’s Investors Service continua a afirmar a sua intenção de rever as classificações de todos os países soberanos da UE durante o primeiro trimestre de 2012. Como Moody’s tinha afirmado em Novembro, esta atitude é devida ao facto de se estar perante a ausência de medidas para estabilizar os mercados de crédito a curto prazo e significa então que a área da zona euro e da UE alargada se mantém propensa a novos choques e a coesão da área do euro continua sob ameaça.
Na última sexta-feira, os dirigentes e decisores políticos europeus anunciaram medidas adicionais destinadas a responder aos enormes desafios que se enfrentam na área do euro. A Moody’s reconhece que o comunicado da cimeira sublinha o desejo continuado entre os políticos da área do euro para avançarem para a centralizada coordenação fiscal e mutualização dos recursos e dos riscos. No entanto, a Moody’s considera que o comunicado poucas novas medidas oferece e aponta que muitos delas são semelhantes às já anteriormente anunciadas. (Medidas para reforçar a supervisão dos défices excessivos foram anunciadas pela primeira vez em 2011, enquanto a intenção de reforçar os quadros orçamentais nacionais e melhorar a coordenação e a cooperação foi anunciada em Outubro, assim como o foi o objectivo de alavancar o FEEF.)
Em termos gerais, a Moody’s acredita que as medidas anunciadas reflectem a contínua tensão entre o reconhecimento dos dirigentes da área do euro quanto à necessidade de aumentar o apoio aos países fiscalmente mais fracos e a oposição significativa dentro dos países mais fortes para o fazer. Entre crescentes pressões sobre as autoridades da área do euro para agirem rapidamente de modo a restaurar a confiança dos mercados de crédito, os obstáculos que enfrentam também estão a aumentar. Quanto mais tempo esta situação se mantiver, maior será o risco de que as condições económicas adversas se adicionarem aos já amplos desafios que enfrentam as autoridades para a coordenação das políticas e dos esforços para a redução da dívida.
As medidas anunciadas, portanto, não mudam a opinião expressa anteriormente pela Moody’s de que a crise está numa fase crítica e volátil, com os mercados de dívida soberana e bancária propensos a intensas deslocações que os políticos irão constatar que são cada vez mais difíceis de conter. Enquanto cenário central a Moody’s continua a considerar que a área do euro será preservada sem mais incumprimentos generalizados e os choques que se concretizarão mesmo no quadro deste cenário “positivo” estão cheios de implicações de avaliação negativa nos próximos meses. Além disso, quanto mais tempo a abordagem incremental na política persistir, maior será a probabilidade de cenários mais graves, incluindo os cenários que envolvem múltiplos países da área do euro em situação de incumprimento e os que, adicionalmente, possam envolver saídas da área do euro.
As implicações sobre o crédito destas e de outras medidas provavelmente a serem anunciadas nas próximas semanas requerem uma avaliação cuidadosa contra o cenário de desaceleração da actividade económica regional, de sistemas bancários frágeis, de mercados de crédito parcialmente disfuncionais assim como devido à existência de diferentes graus de sucesso dos países com a aplicação das medidas específicas destinadas às mudança estruturais e à consolidação orçamental. Mas, na ausência de iniciativas políticas no futuro próximo que estabilizem as condições do mercado de crédito de forma eficaz, a Moody’s acredita que o sistema continua propenso a novos choques, o que provavelmente levaria a mudanças de rating selectivos. Como resultado, a intenção da Moody’s continua a ser a de revisitar os ratings soberanos do euro e os países da UE durante o primeiro trimestre de 2012.
