Deslocalização das empresas e vulnerabilidade dos territórios: antecipar os choques da mundialização – IV. Por E. M. Mouhoud. Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota.

(Continuação) 

 

2.4. As relocalizações nos países de origem irão elas suplantar as deslocalizações?

 

Em certos casos, quando a deslocalização é reversível dizemos que estamos perante uma relocalização. Esta define-se no sentido estrito e no sentido lato. No sentido estrito, a relocalização é o regresso ao país de origem de unidades produtivas, de segmentos de produção ou de montagem anteriormente deslocalizadas sob diversas formas para os países de fracos custos salariais. Em sentido lato, a relocalização pode definir-se como a redução do ritmo do processo de deslocalização para os países de baixos salários, ou seja, o começar a colocar em causa as decisões de deslocalização ou da não-deslocalização nos sectores sensíveis à competitividade pelos custos.

 

Podem distinguir-se quatro vagas de relocalização (Enquadrado 2.) que correspondem a lógicas diferentes. A primeira vaga, que apareceu no final dos anos 70, praticada pelas FMN americanas, principalmente na indústria electrónica e dos semicondutores, é seguida por uma segunda vaga de relocalizações por firmas alemãs nos anos 1980-1990. Estas relocalizações são fundamentadas por factores simetricamente opostos aos que fundamentaram as deslocalizações, ou seja, são agora a redução dos custos unitários possíveis com a automatização e a robotização dos segmentos de fabrico e de montagem, por um lado, e a redução dos custos de transporte e de transacção em geral, por outro lado.

 

A terceira vaga aparece em meados dos anos 90 e corresponde a estratégias de optimização do ciclo do produto nas indústrias informáticas, de telecomunicações e da telefonia móvel (ver os casos do enquadrado 2.). As variedades multiplicam-se rapidamente sob o efeito das inovações de produtos (miniaturização por exemplo) e as firmas realizam ciclos de deslocalização-relocalizações em períodos curtos inferiores a dois anos. A flexibilidade destas operações tem a ver com a forma de deslocalização (a subcontratação), por um lado, e com a característica deste tipo de produtos de serem pouco pesados (custos de transporte fracos). As vagas de relocalização precedem as inovações nas variedades que vão ser, mais tarde, deslocalizadas para os países de baixos salários.

 

A quarta vaga de relocalizações emerge num contexto de aceleração das deslocalizações, desde os anos 2000, nos serviços e na indústria transformadora. Os casos de relocalização são marginais em relação à amplitude dos movimentos de deslocalização, mas existe sempre um desfasamento temporal entre os dois movimentos. Estas relocalizações respondem em geral a duas lógicas: os problema de imperfeição do produto final, por um lado, e, por outro, as lógicas de racionalização da produção dos grandes grupos que se centram nos seus mercados de origem. Numerosos casos de relocalização estão ligados a estratégias de aproximação dos mercados (inshore ou nearshore outsourcing) (ver Enquadrado 2.).

 

Mais recentemente, em França, há exemplos de relocalizações muito divulgados pela imprensa: a relocalização em Noyon da empresa Samas, fabricante francês de móveis de escritório, duma parte da sua produção anteriormente deslocalizada para a China, a relocalização da produção de pull-overs da empresa Mascotte que voltaram a ser produzidos em Roanne ou ainda as armações de óculos da empresa Atol que voltaram a ser produzidas no Jura, depois de terem sido subcontratados na China; os defeitos dos brinquedos fabricados na China pela empresa Matel e que teve que os repatriar são, por vezes, sentidos pela imprensa como um sinal claramente anunciador de um regresso intenso a França de actividades anteriormente deslocalizadas. Na realidade, trata-se de um fenómeno marginal em relação aos movimentos de deslocalizações: cada vaga de deslocalizações é seguida de alguns casos de relocalizações por razões ligadas à imperfeição dos produtos finais, a prazos de entrega nos sectores tradicionais (brinquedos, vestuário…) ou, o que é mais grave, devido à perda da vantagem tecnológica da firma que deslocalizou nos sectores intensivos em conhecimento.

 

Os movimentos de relocalização são determinados por três factores principais: a propagação das inovações tecnológicas através das novas tecnologias de processamento (tecnologias flexíveis) e das inovações de produtos, as inovações organizacionais e a incerteza da procura.

 

3. Das políticas públicas, ineficazes e assentes nas ajudas às empresas

 

A acção pública é necessária para assegurar os ajustamentos que não se podem fazer de maneira espontânea e regular as transformações e diferenciações regionais face aos efeitos da mundialização. Além disso, as regiões no interior dum país como a França, por exemplo, não se encontram na mesma situação perante estes problemas de deslocalizações destrutivas de empregos. Ao lado das grandes aglomerações (como a zona de Paris), cujo peso na União Europeia e na mundialização tem vindo a reforçar-se, existem bolsas de emprego mais vulneráveis que correm ainda o risco de sofrer os choques da mundialização económica num futuro próximo. O problema é ainda mais importante porque se situa num contexto de envelhecimento da população e de fraca mobilidade de certas categorias de trabalhadores, o que significa ao mesmo tempo um risco de escassez de mão-de-obra nas regiões dinâmicas e um crescimento do desemprego nas bolsas de emprego vulneráveis. Mas como é que o Estado pode ter as capacidades de antecipar os choques que sofrem assim certos territórios e certos trabalhadores perante a mundialização? Dever-se-á continuar a ajudar as empresas, continuando a estar-se centrado exclusivamente nos problemas de custos do trabalho e nos encargos sociais, ou dever-se-á antes reorientar as ajudas para os homens e mulheres que trabalham e habitam nos territórios?

 

3.1. Antecipar a vulnerabilidade dos territórios

 

Ao abrirem-se novas oportunidades para as bases de exportação das regiões francesas, a continuação das tendências de polarização das actividades de inovação nas grandes metrópoles, como a mobilidade internacional crescente das empresas e o trabalho qualificado, coloca de forma aguda a questão da vulnerabilidade dos territórios. E, perante a mundialização, constata-se efectivamente fortes desigualdades nas zonas de empregos.

 

A vulnerabilidade dos territórios depende igualmente do tipo de sectores e do comportamento das empresas que estão situadas nestes territórios e que neles se protegem. Um estudo conduzido ao nível das zonas de emprego em França põe em destaque as formas de vulnerabilidade que resultam da sua especialização em actividades mais ou menos expostas ao comércio internacional[1]. As zonas de emprego mais frágeis são em número relativamente limitado; uma vintena de zonas acumula a dupla deficiência de uma grande fragilidade relativamente ao comércio internacional, com mais de um terço dos empregos em actividades de risco muito elevado, e de características estruturais pouco favoráveis, nomeadamente uma especialização sectorial relativamente rígida, uma fraca autonomia das empresas, uma fraca tecnologia das unidades produtivas e uma abundância da mão-de-obra pouco qualificada. Dispersas e isoladas no território, sofrem em cheio o impacto da concorrência dos países com baixos salários e os efeitos da deslocalização.

 

A intervenção do Estado em direcção às regiões coloca hoje vários problemas, nomeadamente um problema de prazos, de tempos, uma vez que as políticas públicas aparecem sempre tardiamente, e aparecem depois a intervir para salvar os territórios, uma vez instaurado o plano social ou a deslocalização decidida. Ora, em vez de se reagir às crises, o Estado deve previamente ter conhecimento das regiões ou zonas de empregos em risco para poder antecipar estas mesmas crises.

 

3.2. Reexaminar a eficácia das políticas públicas de ajuda financeira às empresas

 

Constata-se igualmente um problema ligado à orientação estratégica retida: as ajudas financeiras são centradas demasiado frequentemente nas empresas, o que corre o risco de isolar o território nas suas dificuldades em vez de o ajudar a diversificar-se: ajudando as empresas dos sectores em dificuldade, faz-se apenas acentuar as fragilidades intrínsecas do território perante a mundialização; em vez de ajudar o território assim como os homens e as mulheres que aí vivem e aí trabalham a escaparem à concorrência feita através dos preços dos países de baixos salários, retardam-se os efeitos negativos destes choques com políticas de ajuda financeira às empresas.

 

Por último, a intervenção do Estado em França peca frequentemente pela ausência de selectividade das ajudas. As ajudas destinadas às empresas têm por ambição atraí-las para o território para assim criarem empregos, mas o Estado não possui nem os instrumentos de medida da vulnerabilidade dos territórios a médio prazo nem dispõe de meios de apreensão do grau de volatilidade ou de ancoragem territorial das actividades. Ora, a política de subsídios às empresas atrai em geral empresas nómadas ou voláteis: “as empresas taylorianas flexíveis”. Estas empresas atraídas pelas ajudas têm frequentemente um fraco período de permanência na referida localização. Como são muito eficientes no controlo da logística e do marketing, podem facilmente conciliar a deslocalização nos países de baixos salários com uma resposta rápida às flutuações da procura nos mercados europeus. Numerosas empresas embolsam assim as ajudas e deixam o território na vizinhança do fim do período de isenção dos encargos sociais ou fiscais.

 

As medidas tomadas em 2005 com o crédito de imposto em defesa das empresas que relocalizam as suas actividades depois de as terem deslocalizado correm o risco de ter o mesmo efeito: é bem ilusório pensar que as empresas que relocalizariam depois desta ajuda seriam capazes de permanecer de maneira duradoura no território. As empresas nómadas voltam a partir muito rapidamente depois da relocalização. De facto, as relocalizações duradouras estão ligadas a razões de competitividade pela inovação e não pela via dos preços.

(Continua)


[1] Benhayoun G. et Lazzeri Y. (2005) “Degré de vulnérabilité des zones d’emplois face à la concurrence internationale”, Cahiers de Prospective du Plan, n.º 5, et Mouhoud E. M. (dir.) (2005) Localisation des activités économiques et stratégies de l’État : un scenário tendanciel et trois stratégies d’action régionale pour l’État, Rapport du Groupe Perroux du Commissariat du Plan, juin 2005.D

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