Camilo Castelo Branco – III
(Conclusão)
Definitivamente cego, em 1890, põe fim à vida e aos sofrimentos físicos e morais (a morte de um filho de Ana Plácido que se crê ser de Camilo, a loucura do filho Jorge, a irresponsabilidade do filho Nuno), suicidando-se com um tiro na cabeça.
Camilo foi seguramente o primeiro escritor profissional português. Durante quase toda a sua vida activa assegurou a sua subsistência e a da família, depois de assumida a relação com Ana Plácido, com os seus trabalhos jornalísticos e as novelas que publicava em ritmo frenético: a sua bibliografia ultrapassa muito a centena de títulos, descontada a profusa colaboração espalhada pelos jornais da época.
A sua actividade desdobrou-se pelos mais variados géneros: destacando-se como novelista, foi também poeta, contista, dramaturgo, polemista, jornalista, tradutor e editor, deixando uma obra vastíssima.
Essa actividade literária tão intensa — “forçado das letras”, chamou-lhe alguém — bem como a leitura frequente e atenta dos escritores portugueses, sobretudo os clássicos, são os principais responsáveis pelo domínio da língua, que revela em numerosas passagens das suas obras. É verdade que o ritmo vertiginoso com que escrevia (o Amor de Perdição, por exemplo, terá sido escrito em cerca de quinze dias) não lhe permitia trabalhar como gostaria a escrita. Essa urgência da escrita é certamente a grande responsável pela irregularidade qualitativa da sua obra, onde encontramos textos de inegável qualidade a par de outros que não conseguiram resistir ao tempo.
Embora seja um escritor da segunda metade do século XIX, a verdade é que muitas das suas novelas reflectem o clima social, político e mental da primeira metade — época extremamente conturbada, a nível político, e marcada por profundas transformações de natureza social.
As invasões francesas, iniciadas em 1807, obrigaram ao exílio da família real no Brasil. Esse facto mostrou a fragilidade do poder estabelecido (a monarquia absoluta) e terá certamente dado força aos grupos sociais mais favoráveis aos ideais proclamados pela Revolução Francesa — liberdade, igualdade, fraternidade — ou simplesmente interessados em substituir o poder das classes tradicionais (nobreza e clero) pelo seu próprio poder.
Essas duas forças estavam muito equilibradas e o conflito entre absolutistas e liberais prolongou-se só vindo a resolver-se, a favor dos segundos, em meados da década de 30. O facto de as ideias liberais, de origem francesa, poderem ser associadas ao invasor do país (os sucessivos exércitos de Napoleão) terá fortalecido a adesão de muita gente ao grupo absolutista, adiando a implantação da monarquia constitucional. O anticlericalismo da facção liberal também não contribuía para a expansão das suas ideias, já que a população rural, religiosa, analfabeta e controlada pelo clero, rejeitava com vigor as ideias defendidas pelos “herejes”.
Quando finalmente em 1834 os absolutistas são vencidos, o conflito transfere-se para o campo liberal, opondo conservadores e progressistas. A estabilidade só chegará em 1851, com a Regeneração.
Ora, Camilo formou-se, como homem e como escritor, nesta sociedade em efervescência. E é nesse clima de agitação, de instabilidade, que decorre a acção de muitas das suas novelas.
As suas novelas constituem um painel descritivo, em tom frequentemente sarcástico, da sociedade portuguesa do século dezanove. A sua atenção debruça-se sobretudo sobre uma aristocracia em clara decadência — material e moral — e uma burguesia em ascensão, que, aos seus olhos, se destaca pela boçalidade.
A obra de Camilo é, em grande parte, um reflexo do seu próprio percurso biográfico. A agitação, a instabilidade, os raptos, o conflito entre a paixão e a razão que encontramos nas novelas de Camilo, encontramo-los igualmente na vida de Camilo. Por outro lado, como profissional das letras que era, Camilo não pôde ignorar os apelos do seu público, que os editores traduziam sob a forma de pressões incontornáveis. Camilo vivia da escrita, e para isso precisava vender, o que implicava obedecer de alguma maneira às solicitações do público leitor. É essa sujeição aos gostos dominantes que explica também a “conversão” naturalista, detectável nas últimas obras de Camilo.
Independentemente dessas cedências, há na sua obra passagens antológicas, onde transparecem os costumes, os comportamentos, os jeitos de falar do norte de Portugal.
A exuberância, o imprevisto, o excesso passional das suas intrigas cativaram igualmente a geração literária dita ultra-romântica, que o homenageou quase no fim da vida.
A intriga é quase sempre de teor passional, como se esperaria de um escritor romântico. Os impulsos do coração determinam a acção das personagens principais, que, normalmente, se defrontam com outras, movidas por outros impulsos menos ideais: o estatuto social, as rivalidades familiares, os interesses económicos…
As suas intrigas são frequentemente demasiado lineares, mas não se pode negar a Camilo uma capacidade de efabulação notável.
As condicionantes estéticas da sua época, os circuitos editoriais, a sociologia e psicologia do seu público e a sua própria personalidade impuseram à sua obra novelística características fortemente românticas. No entanto, a sua longa permanência de quase meio século na vida literária, e a sua dependência financeira da escrita, levaram-no, talvez a contragosto, a tentar acompanhar a evolução ideológica do seu tempo. Daí que o mais romântico dos nossos escritores nos apareça, quase no fim da vida, a ensaiar uma escrita realista e até naturalista.
É autor de uma obra multifacetada. Nela se destaca, como sabemos, a componente novelística, mas estende-se também pelo teatro, jornalismo, ensaios biográficos e históricos, poesia, polémica, crítica literária, além de dezenas de traduções e uma extensa epistolografia.
Vida e obra, realidade e ficção interpenetram-se no percurso de Camilo Castelo Branco, o escritor mais abundante do Romantismo português.
A produção literária de Camilo sofreu grande influência das atribulações, nomeadamente amorosas, da sua vida. Tendo de se sujeitar frequentemente às exigências dos seus editores, fazendo cedências, apressando a escrita, recorrendo a estereótipos que satisfizessem o gosto da época, a sua produção é algo irregular e apresenta algumas falhas. No entanto, soube pintar de forma ímpar os costumes e gentes da sua região e os seus modos de falar; as suas personagens revelam ainda uma intensidade passional que o celebrizou.
A sua vida foi atribulada: ficou órfão bastante cedo, tendo passado a viver, primeiro com uma tia, em Vila Real, depois com uma irmã, período de que data a sua aprendizagem literária. Quando contava dezasseis anos, casou-se com uma aldeã, de quem cedo se separou. Estudou Medicina no Porto, de 1842 a 1844, e preparou-se para ingressar no curso de Direito em Coimbra, que não chegou a frequentar. A partir de 1848, dedicou-se à actividade jornalística, no Porto. Integrando-se no grupo dos «leões» do café Guichard, dedicou-se aos escritos polémicos e à novelística. Entre as várias aventuras amorosas que vinha tendo, salienta-se a sua paixão por Ana Plácido, cujo casamento o levou a matricular-se num seminário, em 1850. Dois anos mais tarde, regressou à actividade jornalística e literária, impondo-se nos círculos culturais de então. Em 1859, fugiu com Ana Plácido. Os dois foram presos, acusados de adultério, e absolvidos posteriormente, em 1861. Após a morte do marido de Ana Plácido, passaram a viver na casa deste, em São Miguel de Ceide. Dependente da sua escrita para sustento da família, Camilo viveu dificuldades económicas. Os seus problemas agravaram-se com o avanço progressivo da cegueira. Em 1888, casou-se com Ana Plácido e, dois anos mais tarde, suicidou-se com um tiro de pistola.
A maior glória da literatura portuguesa escreveu uma carta datada de 21 de Maio de 1890: «Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste país, durante quarenta anos de trabalho. Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego». A 1 de Junho do mesmo ano, depois do dr. Edmundo de Magalhães Machado, oftalmologista de renome, o ter examinado cuidadosamente na sua casa de S. Miguel de Ceide. Camilo percebe que a cegueira era irreversível. Despediu-se do médico, saindo este acompanhado de Ana Plácido: «Calmo e decidido, Camilo sacou do revólver, em seu poder há vários anos, e disparou sobre o parietal direito».
O suicídio sempre lhe fora familiar, parece que «primeiro como uma especulação da inteligência», depois, à medida que a cegueira progredia como resolução final. O escritor recusava deixar-se ficar um morto vivo.
Considerado um dos grandes prosadores românticos, ainda durante a sua vida foi muito admirado pela geração ultra-romântica, e homenageado oficialmente recebendo, em 1885, o título de visconde de Correia Botelho.
É geralmente tido como um dos grandes escritores portugueses.
Obras: Da extensíssima bibliografia de Camilo salientam-se Pundonores Desagravados, 1845 (sátiras); Anátema, 1851 (novela); Inspirações, 1851 (poesias); Mistérios de Lisboa, 1854 (folhetim); O Livro Negro do Padre Dinis, 1855 (novela); A Filha do Arcediago, 1857 (novela); Amor de Perdição, 1862 (novela); Memórias do Cárcere, 1862 (memórias); Esboços de Apreciações Literárias, 1865 (crítica literária); Vaidades Irritadas e Irritantes, 1866 (opúsculo); A Queda de um Anjo, 1866 (novela); O Retrato de Ricardina, 1868 (novela); Curso de Literatura Portuguesa, 1876 (crítica literária); Eusébio Macário, 1879 (novela); A Corja, 1880 (novela); A Brasileira de Prazins, 1883 (novela).


