O Professor Eduardo Lourenço ganhou o Prémio Pessoa 2011
Publicamos hoje um seu texto autobiográfico incluído no livro de Valdemar Cruz o que a vida me ensinou, editado pela Temas & Debates em 2007
EDUARDO LOURENÇO de Faria nasceu a 29 de Maio de 1923 em São Pedro de Rio, Almeida, distrito da Guarda. Ensaísta e crítico literário, vive em Nice desde 1969, mas mantém um permanente contacto com a realidade política, cultural e social portuguesa. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Universidade de Coimbra, onde foi professor assistente de Filosofia. Heterodoxia é o primeiro livro da sua longa bibliografia. Data de 1949, mas ainda hoje é apontado como uma obra de referência. O fulgor do seu raciocínio e a abrangência da sua obra crítica fazem dele uma das vozes mais respeitadas e mais escutadas do universo cultural português. Foi Prémio Camões em 1996.
Sou um sobrevivente do século xx. Nasci em 1923 e nunca pensei que chegaria tão longe no tempo, tanto mais que vivia com esta espécie de fatalidade de ser filho de pais que morreram relativamente cedo. Já lhes sobrevivi quase tanto tempo como aquele que eles viveram. O tempo não se mede tanto em termos de ordem cronológica banal, exterior, mas pelas intensidades do tempo que vivemos. À medida que se envelhece, aquilo que fomos, como passado, adquire um relevo, uma força, uma presença que o próprio presente não tem. A nossa vida é projecto. Uma pessoa aos oitenta anos já não tem projecto, no sentido em que o tinha aos vinte anos, quando todo ele era projecto.
A minha mãe era de origem camponesa, casou com um jovem sargento, que fez o seu percurso militar e atingiu o posto de capitão. Morreu jovem, com quarenta e nove anos, e a minha mãe com quarenta e oito. Eram mais povo que pequena burguesia. O meu pai foi para as colónias muito jovem, onde esteve seis anos, entre os meus onze e dezassete anos. Nesse período importante para a formação de um adolescente, o meu pai esteve ausente. Deixou-me uma espécie de ferida, um vazio muito grande. Sem serem verdadeiramente autoritários, os meus pais eram pessoas, sobretudo a minha mãe, de formação católica. Naquelas aldeias da Beira, nos anos 20, falávamos de formação católica porque não havia outra. As pessoas eram católicas como se tivessem sido católicas desde o princípio do mundo. Nos primeiros dez anos vivi num mundo que era católico. Não tinha outra definição, naquilo que era essencial, que era a nossa relação com referentes, com valores, com comportamentos, tradições, rituais, que são marcantes. Uma aldeia é um mundo extremamente intenso de relacionamento com aquilo que nos cerca. Deixa uma marca. Deixa imagens. Mas aquilo que marca mesmo são as expressões, os cheiros, as cores. Pouco a pouco tornei-me um citadino. Primeiro, de cidades pequenas, depois maiores, depois da Europa, depois domundo. Essa primeira roupagem que criou os meus sentidos transfigurou-se completamente e tornou-se uma espécie de uma «babel» no capítulo intelectual. As ideias contribuíram para uma espécie de avalização da minha alma, que era uma alma unida, simples. Não era ferida pelo mundo.
Quando saí dessa espécie de limbo — era um limbo, como se estivesse em plena Idade Média —, caí num outro mundo, o mundo exterior, que é este, que atravessei já lá vão setenta anos, mas com a sensação de ter perdido o paraíso.
Cair no mundo é isso. Pelo menos em relação a mim e àquela espécie de tempo, de um Portugal ainda muito rural, católico. Nas cidades já havia um outro tipo de cultura, mais penetrada de valores laicos. Não era o caso das aldeias de Portugal. A adolescência portuguesa, no tempo em que vivi, abandonava muito esse mundo, muito carente, quase orgânico, em matéria de fé, para cair num tipo de cultura, de valores, de tradições várias, que chamamos humanistas, racionalistas, e que eram aquelas que a cultura, primeiro liceal, depois universitária, inculcava. Como eu fiz estudos de Filosofia, dos dezassete aos vinte e tal anos fui confrontado com questões, com interrogações, com perplexidades que pertencem à história do pensamento europeu e do pensamento mundial, e para as quais eu não tinha nascido, em função da cultura que tinha recebido, no lar cristão em que tinha crescido.
Hoje, a minha relação com Deus é a mesma e diferente. O mundo sofreu uma grande metamorfose, particularmente o nosso mundo, e passou de uma espécie de Idade Média para entrar naquilo que chamamos Modernidade, com uma contestação de todos esses valores, de todos esses referentes. Teve de redefinir todas as suas atitudes a partir daquilo que grosseiramente se diz que é a morte de Deus. Deus de algum modo também morreu, em termos de cultura. O mundo deixa de ser uma resposta onde está tudo mais ou menos escrito, para ser uma coisa que é uma interpelação permanente à qual cada um tenta responder como pode para refazer esse conforto que lhe dava a referência a Deus.
Sempre fui muito sensível ao humor. Diria mais ironia que humor. Mas nós não somos muito dotados para o humor. Uma das dimensões da sociedade portuguesa, das mais paradoxais, é o de ser uma sociedade que, no fundo, é triste. Nós não temos um grande talento. Não somos muito vocacionados para o humor, mas passámos a vida a contar muitas anedotas, que são uma espécie de descompressão. O regime de Salazar, de resto, não exercia uma grande censura sobre as anedotas que corriam. Algumas delas, até se dizia que as fabricava, porque isso descomprimia. Podíamos vingar-nos das grandes tiranias, mais ou menos burocráticas, com as histórias que corriam acerca dos grandes deste mundo. Basta ver o tipo de anedotas que se contavam sobre Salazar. Eram uma espécie de culto ao contrário, porque ele era muito avaro, mas a avareza funcionava, porque ele deixava as contas portuguesas equilibradas. Depois havia todos os seus pequenos tiques, mais ou menos ridículos, mas que nunca eram verdadeiramente ridículos. A arte, qualquer que ela fosse, era sempre uma maneira de resistir. Não a uma ideologia dada, não a uma tirania em especial, mas a uma espécie de conformismo que se estabelece. Isso é uma maneira de voar. Fugir para um sentido no qual, pelo menos quem precisa disso, respire e construa um outro mundo, onde pode esperar por um mundo real, mais autenticamente respirável e livre.
Para a minha geração havia os filmes do Charlot. Foram a verdadeira cara da liberdade. Nada nos podia libertar mais do que aqueles grandes filmes do Charlot, do Buster Keaton. Até porque nós éramos incapazes daquele tipo de humor aqui. Tínhamos o António Silva, o Vasco Santana. Faziam filmes de uma certa bonomia, mas era o nosso humor. Um humor que não é maldoso, que não é muito fino, não é muito refinado, mas tem uma certa graça. Essa graça era libertadora, embora não tivesse nenhuma crítica em relação ao regime. Consagrava o regime. A memória mais luminosa do regime é aquela que é dada pelo sucesso desses filmes.
Naquele período, a Segunda Guerra Mundial foi importante para a minha geração, mas Portugal estava numa situação de espectador. Era como se fosse um cinema. Funcionávamos como meros observadores. Iam-se colocando umas bandeirinhas nos mapas, a assinalar as movimentações dos Alemães, dos Aliados, o desembarque dos Americanos. Estávamos ocupados com o espectáculo do mundo, com a guerra, com as transformações colossais, com as metamorfoses que o mundo estava a sofrer, com invenções cada vez mais extraordinárias. Simultaneamente estávamos ocupados no nosso próprio destino. É curioso verificar que quando há guerras, os suicídios diminuem.
Naquela altura ainda não havia televisão. Uma guerra é uma televisão diferida. Um dos problemas da humanidade é o modo como se ocuparem do tédio, do ócio. Quando há esses grandes acontecimentos mundiais, a pessoa está ocupada. A minha geração — eu estava em Coimbra — estava ocupada com o que se passava neste país e, sobretudo, estávamos à espera que essa guerra que, de uma forma sumária, era uma espécie de embate entre o mundo livre e o nazismo, resultasse numa vitória do mundo livre. Esperávamos que esse campo vencesse, que isso tivesse uma repercussão aqui, e que o nosso regime, não sendo nazi, talvez se aproximasse daquilo que para nós — para mim, pelo menos — era uma espécie de modelo: a Inglaterra e a França. Pensávamos que com o fim da guerra a democracia se instalaria em Portugal. Esteve para acontecer.
Eu pertenço a uma família para a qual a política não constituía uma preocupação maior e na qual a palavra «política» tinha uma conotação. Era um emprego que as pessoas podiam ter na sociedade. Era a história do slogan do regime: «A política é para os políticos.» O regime gostava de fazer essa propaganda porque, sobretudo no tipo de cultura de onde eu vinha, onde as preocupações políticas não davam pão a ninguém, era necessário um certo estatuto para se conceber uma actividade política. Seria só para gente integrada ou que tivesse um certo tipo de tradições. De resto, o meu pai era militar e comungava desse mesmo ideário de não se meter em política. Era o que o regime queria. Nesse capítulo, o regime estava de acordo com um sentimento geral da população. Ainda hoje, essa tónica da política — como era vista noutros tempos — é qualquer coisa que a nação vive. Olha os políticos como gente que não faz nada de útil senão ocupar-se de jogos de poder, jogos de interesses, de influências, porque pertencem a uma certa classe. E são eles que são detentores desse «savoir faire» chamado «haute politique». As pessoas vão à sua vida, cumprem as suas obrigações tradicionais e não se preocupam com a famosa política, que o Bordalo Pinheiro chamava a «porca política». Isso é uma cantiga que vem periodicamente. Com a geração de 68 a consciência política aumentou. «Tout est politique.» No período pós-Segunda Guerra Mundial os cidadãos vêem-se cada vez mais obrigados a pensar que faz parte da sua condição de cidadania interessar-se pela política porque, como se dizia em Maio de 68, se nós não nos interessarmos pela política, a política interessa-se por nós.
A minha vida pública começou com a apresentação do filme O Terceiro Homem, de Orson Welles, no Tivoli, a convite do meu amigo José-Augusto França. O Orson Welles, quando dizia que no mundo há apenas quatro ou cinco mil pessoas verdadeiramente importantes, tinha a bitola muito alta. Tão alta que, no fim da vida, o realizador do grande Citizen Kane só via filmes banalíssimos. Quando o questionaram sobre essa atitude, ele respondeu que os via porque nunca o desiludiam.
Eu, que não jogo no totoloto, no totobola, em nada, porque tenho muito medo do jogo, também não escrevo à máquina, nem no computador. Nunca fui capaz de escrever um ensaio à máquina, até hoje. Só escrevo à mão. Sinto curiosidade pela Internet, mas tenho tanta coisa para ler, que fico sem tempo. Acho que se adoptasse a Internet, nunca mais saía de lá. As melhores coisas têm os aspectos mais perversos. Não conseguimos inventar nada que não se invente logo a seguir o uso mais perverso possível dessa coisa maravilhosa que se inventa. Esta é uma delas. Há pessoas que passam noites inteiras agarradas à Internet e dormem de dia.
Não sei se é paixão. A paixão é um momento incandescente do amor. O verdadeiro amor é aquele que se transcende naquilo que ama, e não aquele que fica prisioneiro daquilo que ama.
De alguma forma fui um homem de uma só paixão. Ou por outra, toda a paixão é a mesma paixão. Se ela se repete, ou se temos a impressão que revivemos uma grande paixão, é porque nenhuma paixão, mesmo a mais alta, em si mesma se esgota. Portanto, tem de ser perdida, reencontrada, reinventada, senão, é uma simples ofuscação.
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