(Continuação)
II. A globalização e as suas causas
A era da fundação da indústria têxtil no sul já foi, visto em retrospectiva, um sonho cor-de-rosa, um idílico sonho de auto-suficiência. Mas aqui a retrospectiva é um guia não fiável. O isolamento nunca foi completo, e nem nunca esteve perto disso; e pela década de 30 foi claramente abaixo.
O governo americano abandonou a sua política de tarifas elevadas em 1934, depois da primeira eleição presidencial de Franklin Roosevelt. Este iniciou o moderno esforço americano para negociar tarifas comerciais mais baixas, na convicção de que a retaliação tarifária do início dos anos 30 tinha aprofundado a Depressão e tornado mais difícil a recuperação económica. Após a Segunda Guerra Mundial, as suas ideias transformaram-se num esforço multilateral, conhecido primeiramente como o GATT e agora como a OMC. Muitos dos maiores governos do mundo têm encarado a liberalização como uma forma de promover o crescimento e reforçar a estabilidade política; e com o passar do tempo, aos seus esforços políticos veio juntar-se-lhes novas e poderosas forças tecnológicas. Se é possível resumir décadas políticas complexas, mudanças nas política e nas técnicas, a política comercial tem sido um dos quatro factores que tem estado a criar o moderno mundo ‘globalizado’:
— negociações comerciais: as barreiras ao comércio são agora muito mais baixas. Doze acordos comerciais multilaterais desde a Segunda Guerra Mundial reduziram as tarifas — em média — em cerca de 90% entre os países ricos e, em valores muito menores, nas regiõesem desenvolvimento. Também foram eliminados alguns tipos de barreiras comerciais menos conhecidos, tais como a importação por licenciamento, quotas e acordos de restrições voluntárias, e chegou-se igualmente a acordos sobre temas como as normas técnicas para tornar o comércio mais fácil e mais barato.
— Fim da Guerra Fria: Mais países começaram a participar no comércio internacional. Acabaram na América Latina e em grande parte dos países em desenvolvimento da Ásia, durante a década de 80, situações de economias em autarcia; China, Vietname, Rússia e outros adversários da Guerra Fria reintegraram-se eles próprios no comércio e no investimento mundial entre os anos 80 e 90. No total, o sistema da OMC cresceu de 23 para 151 países.
— Avanços logísticos: o comércio é agora mais barato e mais rápido do que em qualquer momento do passado. O factor mais importante aqui é a adopção do contentor marítimo nas décadas de 70 e 80 que radicalmente reduziu o tempo e o custo do transporte de mercadorias. Este processo tem sido contínuo e talvez se tenha mesmo acelerado com o facto de os barcos de contentores serem cada vez maiores e o próprio transporte aéreo de carga evoluir de forma a ser capaz de abastecer fábricas com produtos segundo a prática just in time de entrega de chips dos computadores, de fio de tecido especializado e tintas químicas.
— Internet e Redes Globais de Telecomunicações: As comunicações são cada vez mais baratas e de melhor qualidade. Mais recentemente, a rede mundial de telecomunicações e de Internet têm criado um fórum mundial de meios de comunicação, serviços financeiros, serviços de back-office, como contabilidade e serviço de apoio a clientes, e assim por diante.
Assim, a economia americana tornou-se uma economia ‘globalizada’. Nos tempos da fundação de Cannon Mills, as mercadorias importadas representavam 5% do PIB americano. Em 1950, historicamente o ponto mais baixo antes da era da Grande Depressão — as barreiras aduaneiras tinham sido fortemente reduzidas, antes da recuperação económica da Europa e do Japão, e após a saída da China da economia mundial —, as importações representavam cerca de 3% do PIB. As importações eram constituídas mais frequentemente por recursos naturais ou produtos ou bens agrícolas que não se cultivavam nos Estados Unidos: café, frutas tropicais, minérios metálicos, lã, madeira e assim por diante. Duas gerações mais tarde, as nossas importações em relação ao PIB são de cerca de 17% — os níveis mais altos, pelo menos, desde a época de Hamilton, e talvez o mais elevado de sempre.
Consequências, o bem e o mal
Nenhum destes processos está completo. Os acordos comerciais, por exemplo, aboliram tarifas e outras barreiras à importação para muitas indústrias — semicondutores, brinquedos, móveis, computadores, café e outros. Mas eles têm também incidido sobre outras indústrias, entre elas a indústria têxtil, embora apenas levemente.
Ajudado por três gerações de Senadores sensíveis ao comércio, os senadores da Carolina do Norte e representantes de fábricas têxteis e do vestuário obtiveram isenções para a maioria das reduções tarifárias realizadas entre os anos 50 e 90. Os produtos fabricados em Cannon Mills, por exemplo, continuavam ainda a usufruir de tarifas sete a quinze vezes as taxas médias: 9,1% para tecidos esponjosos — pano para toalhas, 11,9% e 20,9% para o algodão e para os lençóis de cama, fronhas, e assim por diante. Estas são ligeiramente inferiores às taxas de Aldrich da época, mas não muito diferentes, e muito acima das taxas típicas de hoje para a maioria dos outros produtos manufacturados, quando a média das tarifas americanas é de cerca de 1,4%. As tarifas americanas sobre o vestuário são ainda mais elevadas, chegando a 19% nas T-shirts e 32% nas camisolas feitas em produtos de poliéster ou acrílico.
Pode ler-se a experiência das indústrias têxteis da Carolina do Norte, portanto, como uma história da intensa concorrência recente que a globalização veio acelerar. Ou, com igual validade, pode-se lê-la como a história de uma experiência em preservar as elevadas tarifas do início do século 20, num mundo do final dos anos 90 e do início do século XXI.
De qualquer forma, os factores estruturais e políticos em promover a globalização têm tido efeitos poderosos. Quanto à gestão de um orçamento de uma família americana, muitas das mudanças foram benéficas. O nosso Bureau of Labor Statistics’ Consumer Expenditure Survey revela que, em 1950, os americanos gastaram 40 cêntimos por cada dólar ganho com comida e roupas. Por volta de 1973, esta percentagem desceu para 27 centavos por dólar e, em 2005, desceu ainda mais, desceu para 13 centavos por dólar. Assim, em média, as actuais famílias americanas são muito mais ricas do que as de uma ou de duas gerações atrás, depois de se deduzir um sétimo do seu rendimento, afecto às necessidades da vida em educação, entretenimento doméstico, tempos livres, lazer, computadores pessoais, e assim por diante.
Mas os americanos são também trabalhadores. Muitos trabalhadores estão nas fábricas; e como vimos, na Carolina do Norte, os trabalhadores fabris estavam fortemente concentrados nas indústrias relativamente mais intensivas em trabalho não qualificado de toda a indústria transformadora ligeira dos Estados Unidos. Aqui os efeitos foram extraordinariamente marcantes. Com ou sem tarifas, diz-nos a Dra. Rivoli, o trabalho da indústria do vestuário deslocalizou-se do sul dos Estados Unidos para os países mais pobres, da mesma forma que anteriormente se tinha deslocalizado da Nova Inglaterra para a Carolina do Norte. As empresas do têxtil, em especial no sector do vestuário, começaram-se a deslocalizar dos países desenvolvidos para a Ásia nos anos 50 e anos 60: estes fluxos aceleraram-se durante os anos 70 e 80, e esta evolução continua até hoje a evoluir no mesmo sentido.
Muitos identificam estas tendências, como parte de um declínio geral da indústria transformadora nos Estados Unidos. Mas isto está errado. A produção fabril permanece como uma larga parcela da vida económica americana, embora possa haver agora mais pequenas e médias empresas, com muito mais capital intensivo e situadas nos sectores das altas tecnologias. Algumas estatísticas nacionais ilustram esta tendência.
— Produção: a produção da indústria transformadora americana — em percentagem da produção total americana ou em percentagem da indústria transformadora à escala mundial — mudou relativamente pouco. A produção da indústria transformadora americana relativamente à mundial tem-se mantido relativamente estável ao longo das últimas três décadas, em cerca de 20% da produção mundial. Relativamente à produção global da economia americana passa-se o mesmo; Em dólares reais, a indústria transformadora representa cerca de 13,6% do PIB, praticamente o mesmo valor, 13,3%, que o Bureau of Economic Analysis registou em 1987. Mas o tipo de produtos fabricados nos Estados Unidos mudou significativamente. Os têxteis e o vestuário representaram cerca de seis por cento da produção americana em 1987; hoje representam apenas 2% e, actualmente, a produção está a ser intensiva em capital e em alta tecnologia com os produtos das indústrias das telecomunicações e os equipamentos médicos a tomarem o seu lugar.
— Disponibilidade de trabalho: Reflectindo fielmente as ideias de Hamilton quanto à concorrência com os países de baixos salários, os empresários substituíram trabalho por capital. O nível de emprego na indústria transformadora atingiu o seu valor máximo de 35% por cento da força de trabalho utilizada nos EUA na década de 50, e em termos totais foi de 19,6 milhões em 1979. Agora, os dados indicam cerca de 11% da força de trabalho e 14 milhões de trabalhadores no seu total. Mas para a indústria do têxtil e do vestuário esta foi uma queda muito mais rápida — de 2,4 milhões no início dos anos 70 passaram agora para cerca de 500.000 hoje. E, nesta década, o êxodo do trabalho fabril tem sido notavelmente rápido.
Em Janeiro de 2001, as fábricas americanas empregavam 17,3 milhões de pessoas. Em Dezembro de 2003, depois de uma recessão, este número tinha caído para 14,2 milhões de trabalhadores. Com efeito, três milhões de pessoas deixaram os seus empregos fabris e mudaram-se… para outro lado qualquer. Desde então, com uma retoma económica, a perda de empregos, embora se tenha abrandado, não parou. Apesar de uma forte retoma em termos de dólares, as fábricas continuaram a perder cerca de 90.000 postos de trabalho por ano; e, mesmo já na sua situação mais comprimida, as fábricas de têxteis e de vestuário são empresas responsáveis por uma redução mensal de cinco mil postos de trabalho.
— Pagar: O trabalho fabril também agora recebe relativamente menos em comparação com outras empresas dos outros sectores em relação ao passado. Em 1987, o típico trabalhador fabril ganhava cerca de 7% a mais por hora que o típico trabalhador mundial. Agora, o típico trabalhador americano na indústria recebe 1% a menos por hora. Isto é tanto mais surpreendente se considerarmos que a indústria transformadora está a deslocar-se da posição de indústria ligeira de mão-de-obra de baixa formação para campos como o das tecnologias de informação, equipamento médico e outros bens de produção altamente sofisticados.
A globalização, então, não significou um amplo processo de “desindustrialização” dos Estados Unidos. Nem uma queda do emprego na indústria transformadora significou um aumento do desemprego a nível nacional. A nossa taxa de criação de empregos tem variado, desde o enfraquecimento do mercado de trabalho desta década até ao forte crescimento deste mercado nos anos 90. Mas agora temos 116 milhões de trabalhadores no sector privado e 138 milhões de trabalhadores no total, enquanto na década de 70 tivemos cerca de 70 milhões de empregos no sector privado e 85 milhões no total. As taxas de desemprego são agora aproximadamente as mesmas da década de 50, variando entre 4% e 5%, a partir de 1992, e são muito inferiores às que eram no mundo menos ‘globalizado’ dos anos 70 e 80, uma vez que o desemprego nessa época se situava regularmente entre os seis e os sete por cento, tendo ocasionalmente atingido os dez por cento.
Dito isto, o declínio do volume de emprego da indústria americana — mesmo em fábricas que continuam financeiramente bem — estreitou a grande e larga avenida que anteriores gerações de americanos, com menor nível de formação, tomaram para atingir um nível de vida de classe média. E para estes 8.000 ou mais trabalhadores que mensalmente perdem os seus empregos fabris, o custo pessoal da situação pode ser elevado. A América carece de um governo que garanta os cuidados de saúde e conta, em parte, com as empresas privadas para as pensões; e assim, os trabalhadores que perdem o seu emprego, por rotina, perdem igualmente os seus direitos a cuidados de saúde. Assim à perda de emprego, vêm juntar-se os enormes riscos financeiros, que por sua vez, dissuadem muitos trabalhadores não qualificados a procurarem formação na comunidade, nos institutos públicos que os podem ajudar a ganhar novas formações profissionais, a via para novos tipos de emprego. As pensões são igualmente vulneráveis. Mesmo a afluência pode aumentar os riscos, uma vez que nós temos poucas políticas de segurança social que ajudem as famílias a cobrir os custos das propinas das escolas dos seus filhos e as apoiem no pagamento da mensalidade da casa sob hipoteca quando estão desempregados.
E os americanos quando deixam de trabalhar nas fábricas ficam muitas vezes particularmente vulneráveis. As maiores taxas de perda de emprego na indústria transformadora e presumivelmente nas empresas comerciais que com estas estão relacionadas têm-se verificado nas indústrias transformadoras ligeiras como os têxteis, o calçado, os brinquedos e o mobiliário. Aqui nós verificamos que muitos destes trabalhadores são muitas vezes mais velhos que a média, tem uma fraca escolaridade e mais provavelmente vivem em meios rurais ou semi-rurais em pequenas comunidades que, por sua vez, podem depender fortemente de uma ou de duas grandes unidades fabris. Na Carolina do Norte, por exemplo, as fábricas empregam 19% destes trabalhadores nas zonas rurais e só 12% deles nas cidades. Por razões óbvias, estas pessoas têm mais dificuldades em se recuperarem da perda de um emprego que os outros. E isto leva-nos, de novo, à Carolina do Norte e a Cannon Mills.
(continua)
