(Continuação)
No ano seguinte ao da publicação do primeiro caderno surge Poemas Livres 2 (Coimbra, 1963), onde se publicam talvez os primeiros poemas de Manuel Alegre e onde o texto intitulado “Mãe”, de Francisco Delgado (n. 1936 em Luanda), aluno da Faculdade de Letras de Coimbra, nos oferece este segmento textual deveras significativo:
Mas esquecias as mães em espera inútil
dos filhos que caíram nas estradas,
sob metralha de povos que eles amavam (p. 79),
discurso que antecipa a condenação e o clamor explícitos, numa alusão à fraternidade forçadamente “traída”, neste caso numa perspectiva da guerra de libertação, sem ocultar uma certa vitimização que o tecido poético viria a assumir como memória diacrónica. E desse mesmo ano é o livro de Fernando Assis Pacheco, Cuidar dos Vivos (Coimbra, 1963), escrito, pelo menos em parte, quando era aluno da Faculdade de Letras de Coimbra, que inaugura a colecção “Cancioneiro Vértice” e que, como “Apêndice”, insere dois poemas (“Há um veneno em mim…” e “O Poeta Cercado”) que abalaram a consciência de quem tinha conhecimento da guerra colonial apenas pelas notícias da propaganda oficial do “orgulhosamente sós” e das “grandes vitórias sobre os turras”. E aqui se introduz, com os limites da afirmação de que “o poeta escreve os seus papéis furtivamente” (p. 80), a memória ainda não escrita mas inscrita (dentro de si) do terrível vocábulo “Nambuangongo”, ao mesmo tempo que irrompem os signos do assombro (vejam-se os segmentos textuais “pavor colado na garganta”, “tiros junto à noite”, “o fogo da Breda”) e de novo o motivo da ausência:
há a mulher que espera confiada
um pálido vazio aerograma;
e há meu coração posto de rastos (p. 79).
Os dois poemas de Fernando Assis Pacheco são porventura, antes de 1974, os primeiros “textos-reflexo” e simultaneamente “textos-consequência” da guerra, na terminologia de Margarida Calafate Ribeiro, na medida em que veiculam uma experiência singular do sujeito e que elaboram, a partir da experiência, “uma reflexão mais ampla sobre o vivido num sentido individual e colectivo” (Ribeiro, 1998: 139).
Seguindo por comodidade uma orientação cronológica, a qual permite observar, além do mais, a interiorização progressiva e dolorosa de um evento dramático como foi o da guerra colonial, é a altura de falar da Antologia de Poesia Universitária (Lisboa, Portugália, 1964), organizada por Alfredo Barroso, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, J.M. Vieira da Luz e Rui Namorado como realização das Reuniões Inter-Culturais das Associações de Estudantes de Lisboa. Trata-se de uma colectânea de 27 autores, todos estudantes universitários no ano lectivo de 1962-1963, data em que foi feita a recolha dos textos, e que, segundo os organizadores, “permitirá um contacto relativamente extenso com algumas das vias mais representativas da nova poesia portuguesa” (p.9), aspecto que a produção poética sucessiva acabaria por confirmar. Basta pensar nos nomes de Armando Silva Carvalho, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, João Rui de Sousa, Luiza Neto Jorge, Manuel Alegre ou Ruy Belo, aqui incluídos, para observar o grau de representatividade de uma “geração” de poetas notabilíssimos, para além de outros nomes, como os de Almeida Faria, Boaventura de Sousa e Eduardo do Prado Coelho, que vieram a salientar-se noutras zonas do fazer literário.
Alguns textos da Antologia podem ler-se como ecos literários (fragmentos) de uma guerra ainda não baseados na experiência, de algum modo como testemunho denunciador (Melo, 1988: 17) ou memória de eventos ligados dramaticamente à guerra. Estão neste caso os textos de Eduardo do Prado Coelho (n. 1944), aluno da Faculdade de Letras de Lisboa, que em “Algumas notas explicativas de uma geração” evoca o embarque dos militares, onde a retórica da propaganda se estilhaçava:
a minha idade é triste ou demasiado feliz
é brutal como os gritos no cais (p. 53),
ou reflecte o imaginário e o luto: é triste a minha idade:
há nela as sílabas ácidas da morte (p. 54);
de Gastão Cruz (n. 1941), da Faculdade de Letras de Lisboa, num discurso menos explícito mas iniludível quanto à sua funcionalidade:
Essa linha de dor esse espaço vedado ao teu povo
tua boca os teus dedos
liquidados de balas junto ao cérebro
A morte e as paredes
subjugando o calor da tua pele tua voz
tua greve o teu avanço sob a guerra (p. 87),
para além do já citado poema de Ferreira Guedes (pp. 63-64), anteriormente publicado em Poemas Livres 1, de 1962, cujo incipit introduz a voz apelativa e urgente: “Cala a espingarda, irmão”.
(Continua)
