UM CAFÉ NA INTERNET – Coração Subterrâneo, por Olga Savary

 

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tempo de terra e de água é este tempo
do corpo que no outro não procura espelho
mas conhecimento ávido, progressivo e lento
pasto de magma alimentando o ventre.
Amando e se tornando amado, o corpo
do outro é de repente nosso corpo
e dentro, coração subterrâneo,
no pequeno mato solta seus cavalos
cadenciadamente.
Como de bilha derrubada, a água fresca
e o mel-salsugem, em pulsações sedentas,
faz no  tear interior do outro corpo
desenho de vida nos que estão morrendo.
O sortilégio de uma palavra
há que ser gritado como o desenfreio
dos cavalos e da bilha derramada.
Porém, calado, o tempo é dos amantes
E, deliqüescidos, eles não dizem nada.

 

 

Olga Savary nasceu em 1933, em Belém do Pará. Muito nova, foi viver para o Rio de Janeiro onde acabou por se fixar. Na sua carreira de escritora, para além de poetisa, foi contista, romancista, crítica literária, tradutora (com vasto trabalho na tradução de literatura hispano-americana)  e ensaísta. Trabalhou na Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro. Produziu mais de uma vintena de livros, e recebeu numerosos prémios continuando a sua actividade sem esmorecimento. O seu livro Magma (1982) foi o primeiro feito por uma mulher, exclusivamente dedicado a poemas eróticos.

Na sua Dedicatória Autógrafa de Autor, Kelps, Goiânia, 2011, o argonauta Sílvio Castro diz-nos que “Olga Savary é presença muito especial no grande quadro da poesia moderna brasileira. Originária da zona mais longíqua no sentido sentimental do território brasileiro, naquele Norte que ela introduz nos seus poemas através de uma língua ampla e, sendo assim, vai mais além daquela vernácula, para comprazer-se até mesmo dos sons e sentidos vindos do tupi-guarani, depois de tudo isso surge a incorporação do grande universo existencial da sua terra de adoção total, o Rio de Janeiro. Assim percorrendo o seu mundo brasileiro, ela traduz nos seus poemas a modernidade da realidade vivida, e a força sutil de profunda natureza feminina que tudo capta e traduz.

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