Raimundo Pinto apresenta o seu blogoconto – “Tijolos”. Tem 1436 caracteres:
Fui amigo pessoal do Vasco Cabral, negro e uma das principais figuras da Guiné-Bissau independente. Circunstância que levou a Federação das Cooperativas de Produção (Lisboa, Largo da Graça) a encarregar-me de viajar para Bissau para ali discutir possibilidades de intercâmbio económico com a nova nação africana. E eu fui. O avião aterra, abre-se a porta e quase me derreto com a súbita caloraça que vinha lá de fora. Havia gente à minha espera que me levou e instalou numa residencial.
Pouco depois, no Palácio do Governo, o grande abraço ao Vasco. Mas eu não quero discutir os entendimentos económicos, o meu objectivo é outro. A mulher do Vasco, portuguesa e branca, num carro oficial conduzido por um motorista negro, levou-me a visitar a cidade.
Parámos frente a uma fábrica que me disseram ser de tijolos, Saio do carro e de repente há lá por dentro uma grande algazarra e tijolos começam a voar tentando acertar-me. Esquivo-me, finto. Os meus acompanhantes descem, gritam e a algazarra pára. Lá de dentro sai um matulão que se aproxima de mim, que me examina e acaba por pedir desculpa dizendo que me confundira com um militar que fizera misérias em Bissau. Finjo acreditar, para não assanhar as mágoas do racismo…
Dois anos mais tarde, indo eu a caminho da fronteira de Espanha, paro em Borba para comer uma sandes e beber um copo. De repente, lá do fundo do tasco surge um grandalhão de braços abertos e a gritar:
– Ó Major, meu Major!
– Major não sou, não fiz a tropa…
– Não brinque comigo, meu Major. Já se esqueceu das coboiadas que fizemos em Bissau?
Concluo que há por aí um militar fascista com a minha tromba. Se um dia eu for assassinado à tijolada, já sabeis o motivo…
