Uma leitura de síntese sobre a última cimeira europeia, por Júlio Marques Mota

Uma leitura de síntese sobre a última cimeira europeia, um olhar sobre a República de Weimar, também. Um texto retirado do EconomOnitor que recebo com frequência, o que julgo se deve  á intervenção de Domenico Mario Nuti. Da selecção por este site proposta deparo-me com o texto  The Simple Explanation of Why Night Falls Over Europe, de  Fabius Maximus. Lido e relido achei que era imprescindível disponibilizá-lo aos que pelas águas desta barca e por esta viagem dos argonautas nos acompanham. Um texto a ler com calma,  com serenidade, um texto que nos mostra que cada vez mais o nosso silêncio representa uma bomba ao retardador e a explodir na nossa própria  cara. Entretanto compare-se o que aqui se descreve com o que se está  a passar   por este país que mais parece agora um sítio, ao sabor de um grande assaltante encartado e legalizado de país afirmado como democracia, mas onde se governa com um programa que não foi democraticamente plesbicitado. Isto chama-se… Digam bem alto.  Boa leitura, portanto.   

 

Júlio Marques Mota

 

 

Excerto de um texto publicado a 9 de Dezembro  por EconoMonitor sob o título

 

The Simple Explanation of Why Night Falls Over Europe

 

Autor: Fabius Maximus  · 

 

 

Actualização: (1). Sobre os resultados da última cimeira de resgate do euro os verdadeiros  resultados   têm apenas a ver com a  ajuda os bancos. Foram estabelecidas  acções  necessárias  para melhorar a liquidez bancária, mas ineficazes  sem uma acção política mais ampla.

(2) Aprovação de políticas de austeridade  cada vez mais e mais profundas.  De facto, o bloqueio da política orçamental  da  UE  coloca-a numa  camisa de forças e perante o temor de uma profunda recessão que paira no ar e  à sua frente.  Os dirigentes  europeus não aprenderam nada com a crise de 1929-32  e também nada aprenderam do grande progresso na teoria económica desde então. Isso pode ter resultados horríveis! As gerações futuras não serão capazes de  entender.

 

(3) Estes países  esperam (novamente)  obter mais ajuda dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China), através do FMI. Isto é delirante.  Os BRICs não fizeram  nada no começo deste ano, quando as esperanças eram bem  maiores para uma  acção eficaz da UE e os BRICs estavam então  mais fortes. Agora todos os quatro BRICs têm sérios problemas internos; uma ajuda substancial para a gente rica da Europa a partir dos BRICs , bem mais pobres,  parece improvável.

(4) Mais importante, os países da zona euro  não têm feito nada para corrigir os desequilíbrios que no seio da União Monetária Europeia estão na base desta  crise – e que forçam à recessão actual.

Isto é, o que por muitos já foi afirmado, como o capitão do Titanic a dirigir um seminário sobre metalurgia enquanto o Titanic se afundava.

 

Update:  A um nível mais profundo, um elemento determinante desta  crise é uma leitura errada da  história do povo alemão. Eles acreditam que a ascensão dos nazis ao poder resultou da hiperinflação, seis anos antes (1921-1924). Eles não vêem a causa próxima: a austeridade imposta por Weimar no período de – 1929 a 1932 (depois do crash da Bolsa). Para um maior desenvolvimento, veja-se  A lição da República de Weimar sobre o equilíbrio do orçamento, a seguir.

 

A lição da República de Weimar sobre o equilíbrio do orçamento.

 

de Fabius Maximus

 

Se a economia não recupera  em breve, pessoalmente  acredito que se vai cair numa outra recessão. No terceiro ano desta recessão as reservas a todos os níveis estão esgotadas – famílias, empresas e governos – e de tal modo que uma outra crise pode ser bem  pior que a primeira.  Neste cenário os membros do Partido Democrático no Congresso terão de enfrentar uma escolha difícil: ou fazer aprovar  um  outro grande pacote de estímulo para a economia em Março ou Abril ou então enfrentar a derrota eleitoral em Novembro, [o que aconteceu].


Menos óbvio é o perigo do Partido Republicano. A sua estratégia de “quanto pior, melhor”  parece provável  saír vencedora, com o argumento de que a plataforma de  estímulos  não funcionou .  Mas se ganharem,  que  fazem eles,  depois,  do sucesso? A República de Weimar fornece um exemplo que merece a nossa atenção. Um orçamento equilibrado pode destruir uma nação. A mudança não significa então necessariamente melhor.  A esperança não é suficiente. Weimar  prova-o.

Quando os economistas falam de economia liquidacionista, isto é de doutrina que  recusa a  intervenção do Estado na economia, estes habitualmente estão  a referir-se aos dois primeiros anos da Administração de Hoover. Sob o conselho de Andrew Mellon, um dos maiores especialistas da época, o governo pouco fez para deter o incêndio sem precedentes do que veio a tornar-se a Grande Depressão. Embora  verdade, este não é o mais forte exemplo que se possa apresentar.


Está bem estabelecido o mito de  que a hiper- inflação  da Alemanha destruiu a República de Weimar e  levou  Hitler ao poder. Enquanto que a  hiper-inflação perdia a força das suas bases  foi enfrentada  em Novembro de 1923 – o mesmo mês do Putsch do nazi  Beer Hall.  Em 1928 eram  um grupinho  obtendo apenas 2,6% dos votos nas eleições de Maio (9º lugar). A depressão e a adopção por Weimar  de uma economia liquidacionista deram a Hitler a sua oportunidade.


Excerto de “Nazis and Soviets“, Chapter 15 of Slouching Towards Utopia?: The Economic History of the Twentieth Century, February 1997:


Tudo isso mudou com a Grande Depressão. Nas  eleições  de Março de 1930  os comunistas tiveram 13,8% dos votos; os nazis tiveram  19,2% dos votos. Uma vez que nem o comunista  Ernest Thaelmann  nem  o nazi Adolf Hitler estava interessados em outra coisa  que não fosse  destruir a República, o governo poderia ter o apoio de uma maioria parlamentar somente  com o apoio activo e a cooperação dos social-democratas, o Centro, e os partidos de direita,  o ” establishment “.

E aqui a Grande Depressão  tornou uma tal “grande coligação ” impossível. Os social-democratas exigiram uma expansão do Estado Providência: o seguro de desemprego, obras públicas   e grandes défices orçamentais para reduzir o impacto da Grande Depressão. Os partidos do establishment exigiram erradamente uma ortodoxia financeira: equilibrar o orçamento, cortar gastos e restaurar a confiança nos partidos não socialistas. Nenhum bloco pensou que se poderia dar ao luxo de compromisso com o outro partido e ainda assim sobreviver como um movimento político. Deste modo o Governo  parlamentar  tornou-se impossível.


As subsequentes eleições, à procura de uma maioria parlamentar viável só piorou as coisas. Os nazis tiveram 38,4% dos votos nas eleições de Julho de 1932. Os comunistas e os nazis  tiveram juntos uma maioria: a maioria parlamentar não foi possível. A Constituição alemã oferecia uma saída: se não se houvesse  nenhuma maioria parlamentar que pudesse ser criada, o chanceler poderia pedir ao Presidente, que era  directamente eleito e por um mandato de  sete anos,  que governasse  por decreto.

 

Heinrich Bruening, o líder do partido do Centro Católico  tornou-se assim  chanceler, quando os social-democratas e os partidos do establishment se dividiram em Março de 1930 sob a pressão da Grande Depressão, foi escolhido para o cargo de Chanceler pelo idoso presidente da República de Weimar, o herói de guerra Paul Hindenburg. Bruening procurou usar essa válvula de escape para fazer aplicar  uma política de austeridade orçamental  e com fortes cortes no  Estado-Providência. Porque, como ele prometeu a Hindenburg, Bruening tentou ” tudo e a qualquer preço [para] tornar as finanças  públicas seguras “, equilibrando o orçamento, acalmando os investidores de que a Alemanha se empenharia absolutamente na aplicação e no respeito da ortodoxia financeira , o que foi a primeira e quase  que a  única prioridade de Bruening.


Assim passou Bruening os  seus  primeiros meses como  Chanceler  a  tentar  equilibrar o orçamento, para descobrir que a situação económica bem o ultrapassava. O défice projectado triplicou durante os seus três primeiros  meses de governação  com as receitas dos impostos a caírem e as despesas com a segurança social a aumentarem.

A  16 de Julho de 1930, o programa de orçamento  equilibrado apresentado por Bruening foi derrotado no Reichstag por 256-193  votos. Bruening relançou então  imediatamente  o programa como um todo através de um decreto presidencial de emergência. Por uma votação  muito serrada, o Reichstag exigiu que o decreto fosse revogado. Em resposta,  Bruening dissolveu o Reichstag  na esperança de que novas eleições lhe dariam  um mandato  para continuar a por em prática as  políticas de austeridade orçamental. A dissolução da legislatura reebentou-lhe na cara: os nazis  ganharam 107 lugares. Os partidos conservadores  do establishment  a partir do qual  Bruening  tinha a sua base  entraram  em colapso.

Mas Bruening ainda acreditava na necessidade de um orçamento equilibrado e na manutenção do padrão-ouro.  As despesas  do governo foram cortadas em cerca de terço de  1928 a 1932.  Mas a pressão orçamental e os cortes nas despesas públicas, a contenção orçamental e os cortes no bem-estar , nada disso foi bom e fizeram politicamente estragos. A economia alemã  avançou um pouco mais para a Grande Depressão.


Mesmo depois da  crise financeira de 1931 se ter possibilitado  a expansão – porque a Alemanha  tinha abandonado o padrão ouro – Bruening continuou a manter a a esperança de que equilibrando  o orçamento iria restaurar a confiança dos investidores. No final, ele sentiu-se forçado  a criar-se desta forma uma situação de deflação na economia: a 8 de Dezembro de 1931  e por  decreto ordenou  a redução de todos os preços fixados em dez por cento  e  um corte de 10 a 15 por cento nos salários.

Da  nossa perspectiva,  de uma tal descida dos preços não se deveria ter esperado que se poderia  ajudar a economia.  A dívida seria um grande fardo para uma  economia com os preços a descer, tornando-se a incerteza acerca da estabilidade  do sistema financeiro ainda maior  e consequenteemente o investimento cairia. As medidas deflacionárias e de equilíbrio  orçamental do Chanaceler  Bruening  não ajudaram mesmo nada. A tentativa britânica  para cancelar a carga das reparações  de guerra veio tarde demais para restaurar a confiança, enquanto Bruening ainda estava no cargo de Chanceler. O desemprego aumentou.


E como o desemprego aumentou, o voto do Partido Nazi aumentou igualmente. Porque é que o  aumento do desemprego fez aumentar o peso eleitoral do   Partido Nazi ? Como a Grande Depressão se aprofundou, as alianças dos velhos partidos foram agitadas e os  eleitores que antes eram politicamente apáticos começaram a ir às urnas. Era improvável que estes eleitores se deslocassem  para os partidos do  establishment: estes tinham governado o país e, portanto, presumivelmente teriam  alguma responsabilidade pela Depressão.

Seria muitíssimo pouco provável que os eleitores que não  pertenciam à  classe dos  trabalhadores  do sector industrial  se deslocassem  para os social-democratas: os social-democratas foram explicitamente um partido de “classe”  com a sua base, a sua retórica e a sua forma de organização que se tornava  um pouco desconfortável para a classe média; e  os social-democratas carregaram a dupla responsabilidade,  num  país que era  fortemente nacionalista,  de serem  oficialmente “internacionalistas” e de terem  sido os colaboradores dos aliados que tinham na época imposto o acordo de paz de Versalhes. Na verdade, os eleitores sociais-democratas tendiam  a deslocar-se para os  comunistas.


Os eleitores descontentes estavam interessados ​​num partido que prometesse  fazer alguma coisa contra a Depressão: que tivesse  uma teoria de quem era  responsável, que tivesse um programa e uma preferência para a acção mais do que para os belos discursos parlamentares. os nazis tinham uma teoria de quem era responsável: os judeus, os financeiros, os capitalistas estrangeiros, e os “criminosos de Novembro”, os social-democratas que assinaram o Tratado de Versalhes. Os nazis  tinham uma preferência para a acção. E tinham um programa, confuso como de facto  era:   a revogação do Tratado de Versailles, o rearmamento da Alemanha, a reafirmação da identidade nacional  e a colocação  da indústria ao  serviço da nação para se defenderem do desemprego.

 

 

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