30– BLOGOCONTOS – Haver muitas coisas em comum, “haviam”… – por Gato Escaldado

 

 

3476 caracteres, foi quantos Gato Escaldado gastou para escrever este conto que vamos ler:

 

Quando eles se encontraram caiu o Carmo e a Trindade.

 

Na verdade não foi bem assim. Isso só aconteceu mais tarde quando a Inveja acordou. Estavam fartos de aconselhar a Felicidade a não ser tão exuberante. Tinha que andar de mansinho, não fosse despertar a Inveja com o seu mau acordar. Mau acordar! Bastava-lhe abrir um olho para perturbar o ambiente à sua volta. Sabia era dissimular muito bem e durante muito tempo fingir-se ausente.

 

Lembrava-se lá a Felicidade de tal coisa! E, mesmo lembrando-se, que se importava ela. Quando atingia o auge, ignorava completamente a Inveja. Adorava exibir-se, mostrar que existia. Ria bem alto, cantava, esquecia os bons costumes e contava as coisas que fazia, deixando toda a gente escandalizada. Eu conheci-a. Sei como ela era.

 

Quando eles se encontraram, num dia escuro e trovejante de inverno, um raio surpreendeu-os e passou-lhes pelo meio, resvés a terem esbarrado um com o outro tão distraídos e divagando seguiam nos seus caminhos opostos. Ela deu um pequeno grito, Ele riu-se. Nem um nem outro percebeu, de imediato, a origem do fenómeno que entre os dois acontecera.

 

Daí ao que sucede a todos os afortunados foi um ai. Descobriram muitas coisas em comum: gostavam do cinema italiano e da mesma música, tinham livros espalhados pela casa, adoravam viajar à descoberta, longe dos magotes amestrados dos turistas de voos charters e de visitas guiadas. E gostavam, sobretudo, de estar juntos e da cumplicidade sem necessidade de excesso de palavras que a fortuna só atribui ao favoritos.   Afinal por que haveria o raio da vida em boa hora de ter-se atravessado no seu caminho? Arranjaram casa e tinham a Felicidade por vizinha.

 

A Inveja morava lá para o fundo da rua e nem a conheciam.

 

Foi quando Ela descobriu que Ele não sabia conjugar o verbo haver e isso  Ela nunca conseguira tolerar a ninguém. Era o seu fetiche: verbo haver mal conjugado, relação esmorecida. Sabia de experiência vivida: “haviam tantos dias em que eu pensava em ti” era como obrigarem-na a beber vinagre. Logo, por azar, Ele ausentava-se por longos períodos em trabalho. No regresso trazia sempre um “haviam” ou um “houveram” envolto em fita de seda para lhe oferecer com todo o carinho da sua paixão.

Quem sabe quando um amor começa a terminar? Provavelmente ninguém, algum dia, conseguirá detectar com exactidão esse ponto sem retorno. Continuamos a fingir que tudo está bem mas já a angústia nos invadiu, já perdemos a inocência, já nos afastámos dessa ingénua sensação de crer absoluto na bem-aventurança futura que a paixão dá aos amantes.

 

Por onde passara o raio interpunha-se agora uma nuvem. Cada um recriminava o outro e a Felicidade andava mais parada, menos exibicionista. Distraia-se de tanto os ouvir discutir.

 

A Inveja, essa, mal se dera conta da existência deles e da sua ligação à Felicidade, fora começando a andar rasteira, insinuando, naquela voz sedutora e convincente  de todos os amigos – tinha muitos amigos a Inveja -, que aqueles dois não estavam bem um para o outro.

 

E, então, sim, deu-se o tal terramoto e a promessa de futuro chegou ao fim para Ele e para Ela. Gorou-se a esperança que o relâmpago lhes tinha prometido. Deixaram a casa e cada um foi para seu lado.

 

Ninguém sabe agora deles. Se têm novos amores, se vivem sozinhos como antes de se conhecerem.

 

Sabe-se apenas que, na noite em que se separaram, a Inveja aperaltou-se e foi para a festa.

 

A Felicidade, essa, cansada, adormeceu no sofá.

 

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