Estado abastado, Trabalhadores assustados: A Carolina do Norte na economia mundial, por Edward Gresses – III. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.

(Continuação)

 

III. Encerramento de fábricas e as suas consequências

 

A empresa Pillowtex faliu em 2003 e terminou as suas actividades em todo o país. O destino da empresa parece-me, à distância, que podia ter sido evitável e não foi totalmente uma questão de concorrência internacional, tanto quanto a dívida que foi assumida, aquando da compra das fábricas de Cannon-Fieldcrest, parece tê-la deixado logo não competitiva. Por outro lado, este foi simplesmente o maior encerramento dentro de uma grande vaga de fecho de fábricas na indústria. O grupo de lobbying National Council of Textile Organizations, uma associação de empresários têxteis e das indústrias conexas, sugere que 341 fábricas têxteis e de vestuário fecharam as suas portas nos Estados Unidos desde o ano de 2001. Deste total, 138 encerramentos — dois em cada cinco — tiveram lugar na Carolina do Norte[i].

 

Destes encerramentos 138, de acordo com NCTO, representaram 23.100 postos de trabalho. O encerramento da Pillowtex representou 4.650 só por si própria. Dada a pequena dimensão da comunidade, o desemprego a esta escala é um acontecimento devastador.

 

O que acontece depois? Pode dividir-se esta questão em duas partes diferentes: Será que a comunidade recupera? E será que os indivíduos recuperam?

 

1. Carolina do Norte e a recuperaração de Kannapolis

 

A resposta à primeira pergunta é — talvez surpreendentemente — positiva. A Carolina do Norte está a gerir a transição com sucesso e, com a considerável ajuda do governo estatal, a comunidade de Kannapolis parece estar a fazê-la muitíssimo bem.

 

Apesar da onda de encerramentos de fábricas de vestuário — o Estado está a pôr a sua população a trabalhar e a desenvolver novas e mais sofisticadas indústrias para substituir as antigas. Os mais recentes relatórios do Bureau of Labor Statistics mostram a Carolina do Norte com uma taxa de desemprego de 5,0%, apenas ligeiramente acima da média nacional e abaixo da taxa da Carolina do Sul. Este valor também é sensivelmente inferior aos6 a8% das taxas de desemprego habitual da Carolina do Norte na década de 70, quando o emprego na indústria têxtil estava no seu auge

 

Parte da razão para este sucesso é a mudança na economia da Carolina do Norte. O declínio do emprego da indústria transformadora ligeira, como na Nova Inglaterra há um século atrás, foi compensado por um aumento de novas indústrias. O exemplo mais bem sucedido é o do Research Triangle, um parque industrial com base numa parceria do Estado e de empresários para a investigação baseada nas Universidades de Chaptel Hill e Duke. O Triângulo permitiu que a parte norte e centro desenvolvessem uma rede de alta tecnologia, de indústrias médicas e educacionais que pagam salários elevados, emprego com altos níveis de formação e qualificação que (no seu todo) deixam a Carolina do Norte mais rica do que era no passado. O governador do estado, Mike Easley, tem justificado o orgulho neste desenvolvimento:

 

“Novos nomes chegaram, como a General Dynamics, Verizon e Dell. Desde há tempos que empresas da Carolina do Norte se estão a expandir como a GE, Merck e Lowe’s. Em breve, teremos a única empresa estatal de formação para empregos nas indústrias bio-industriais. em ligação em rede com todo o mundo. A Carolina do Norte está agora empenhada seriamente em se tornar líder mundial em bio-manufactura, com novos postos de trabalho não só no Triângulo mas em todo o Estado.”[ii]

 

Esta evolução está em curso (mas ainda é muito cedo para fazer uma análise de longo prazo) na própria Kannapolis. A taxa de desemprego da cidade passou de 7,5%, em Maio de 2003, para 12,1%, em Agosto de 2003, e permaneceu em cerca de 10% por mais de um ano. Este valor representa quase o dobro da média nacional. Mas, quatro anos mais tarde, a taxa reduziu-se para 5,8% e o emprego total é de 19.200, acima do valor de 18.700 de Maio de 2003.·

 

A longo prazo, a cidade está a tentar criar um novo centro e uma nova identidade. Os seus planos estão apenas na fase inicial, mas até agora parecem muito promissores.

 

Juntamente com o sistema universitário estatal e um dos anteriores proprietários do Cannon Mills, está-se a construir um complexo conhecido como o Centro de Investigação da Carolina do Norte — o coração da Bio-indústria diz-nos o Governador Easley — cuja esperança é recriar a área de desenvolvimento do Raleigh-Durham do Research Triangle das décadas de 80 e 90.

 

O principal esforço é criar um novo complexo de investigação, conhecido como o Centro de Investigação da Carolina do Norte, construído na velha fábrica de toalhas e lençóis. A velha fábrica caracterizada no filme foi aumentada esta Primavera e a cidade está agora a instalar geradores de alta potência, uma gigantesca máquina de imagens de ressonância magnética, comprada na Alemanha, e outros equipamentos sofisticados. O custo de construção está calculado em 700 milhões de dólares, com 25 milhões anuais em despesas operacionais, pagas em parte pelo Governo do Estado e em parte por um antigo proprietário de Cannon Mills, que continua estreitamente vinculado à cidade.

 

Esses esforços, naturalmente, nem sempre são bem sucedidos, mas não se tratam de arremessos quixotescos a moinhos de vento. Um esforço paralelo poderá ser o de Bethlehem na Pensilvânia, com origem numa gigantesca fábrica siderúrgica. Esta fábrica foi encerrada em 1995, oito anos antes do complexo de Cannon Mills, e a cidade teve uma recuperação notável. A siderurgia abriga agora toda uma série de materiais de altas tecnologias e de produtos químicos pertencentes a pequenas empresas e firmas científicas situadas no velho complexo industrial.

 

2. E os trabalhadores?

 

Que se passa com os indivíduos? Aqui, temos de dizer que a fotografia nos parece mais escura, e que as políticas que temos criado para facilitar a transição são, na melhor das hipóteses, apenas parcialmente bem sucedidas.

 

A falência de Pillowtex, naturalmente, deixou os trabalhadores têxteis de Kannapolis sem emprego. Esse foi apenas o mais óbvio aspecto dos seus problemas. Os seus seguros de saúde foram rescindidos, como era esperado. O Centro Rural da Carolina do Norte afirmou que foi tudo tão repentino que eles deixaram 5 milhões de dólares de dívidas por pagar. E a pesada dependência da região em relação a este complexo fabril significou que novos empregos não estavam imediatamente disponíveis.

 

Em tais circunstâncias, os trabalhadores americanos recebem relativamente pouca ajuda, e aqueles que foram afectados pela concorrência internacional podem obter mais do que a maioria. O Trade Adjustment Assistance Program, que vem desde John F. Kennedy, e que foi recentemente reforçado pelos democratas no Senado, em 2002, oferece-lhes dois anos de apoio em formação profissional, algumas ajudas para a compra de um seguro de saúde privado — os trabalhadores receberam uma subvenção de 7,6 milhões de dólares do governo federal para este fim — e algum acompanhamento na procura de um emprego.

 

Os governos estatais também têm recursos. Dada a dimensão do volume de perda de empregos com o fecho da Pillowtex, o Governador Easley criou uma task force especial — ligando instituições com organismos de desenvolvimento empresarial, de educação e de formação, saúde e outras áreas locais — encarregue de uma só missão. A missão era procurar fornecer aos trabalhadores da Pillowtex uma série de serviços suficientemente amplos para os ajudar a encontrar um emprego tão rapidamente quando possível, uma formação para novos postos de trabalho, quando necessário ou desejado, e evitar a catástrofe sanitária e financeira. Os institutos públicos locais e colégios conceberam cursos especiais destinados a criar novas competências, incluindo cursos em técnico de farmácia, secretariado médico e de facturação, técnicas de soldagem, reparação de equipamentos eléctricos e de outros trabalhos com níveis semelhantes de competências. Muitos trabalhadores desempregados da Pillowtex utilizaram esses serviços. A North Carolina Rural Center apresentou um conjunto de estatísticas relevantes que incluem:

 

— Subsídios de desemprego — muitas vezes incluíam benefícios especiais comerciais ligados aos subsídios — utilizados por 4.820 pessoas e com um custo total de 67 milhões de dólares;

— Continuação da escolarização para 2.230 trabalhadores através de escolas comunitárias do ensino médio e para 934 equivalência ao Secundário;

— Formação profissional para a ocupação de novos postos de trabalho no Estado: 2.010. trabalhadores.[iii]

 

Não são facilmente encontradas avaliações muito recentes do sucesso destas iniciativas. Mas, a partir de 2006, aparecem em conjunto. Nofinal de 2005, cerca de 2.730 trabalhadores de Pillowtex — destes trabalhadores, três em cada cinco dos que perderam o emprego em 2003 — tinha já encontrado novos empregos, principalmente em áreas fora da indústria transformadora. Muitos dos trabalhadores, se a estrutura geral das pessoas despedidas fosse semelhante, teriam aceitado salários inferiores aos que ganhavam na Pillowtex. (The North Carolina Rural Center verificou que o típico trabalhado fabril da Carolina do Norte, tendo um novo emprego após um período de desemprego, aceitou uma remuneração com um corte de 25% e um terço dos trabalhadores aceitaram ganhar menos de metade do seu salário anterior[iv]). Alguns não teriam seguro de saúde; E o facto de 2.730 destes trabalhadores estarem empregados implica que ainda havia 1.900 que não tinham encontrado nenhum emprego.

(Continua)


[ii] 2005 State of the State address, North Carolina Governor Mike Easley, at http://www.dlc.org/ndol_ci.cfm?kaid=106&subid=122&contentid=253186.

[iii] Back on Track:  16 Practices to Help Dislocated Workers, Businesses and Communities,North Carolina Rural Center, September 2006, pp. 26-27.

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