UM CAFÉ NA INTERNET – Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 20 – De Vilarinho a Barcelos. Por Manuela Degerine

Um café na Internet 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

      Os suecos vão ao Capri, eu prossigo o caminho, comendo pão com chouriço e amêndoas secas. A sinalização que conduz à ponte velha do Rio Ave não me escapa, descubro uma paisagem verde e florida, com o rio, a ponte, o açude e o moinho. Um dos mais belos pedaços de Portugal no Caminho de Santiago.


Sento-me para observar o nascer do sol, os reflexos coloridos na água e nas pedras, como mais uma banana, saboreio um pedaço de chocolate. A cores, as formas, a harmonia das proporções, associadas ao som da água, produzem um intenso bem-estar. Uma característica deste vale são as linhas curvas, tanto na estrutura como nos pormenores. Os arcos da ponte com a sua sombra desenham circunferências no espaço. As rodas de um tractor inscreveram elipses na terra recém-lavrada. Há espirais esculpidas no muro da ponte.


Despeço-me devagar desta beleza, chego ao outro lado da ponte. Não… Como é possível? Alguém despejou aqui entulho, cimento, embalagens, pedaços de azulejo! E eu interrogo-me enquanto subo a rua… Por que razão estes vândalos beneficiam de tal impunidade? Macieira da Maia não parece terra de porcos, há um bonito tanque de pedra, uma igreja com o jardim bem cuidado… Não compreendo que terras onde tudo se sabe sejam cúmplices de tamanha falta de civismo.


Passo em Arcos às nove horas, em S. Pedro de Rates às 10, em Pedra Furada às 11h 30. Os pés não me doem, o calor não me tortura, a mochila ainda parece tolerável. Por enquanto. O percurso mantém-se aprazível durante os primeiros dezanove quilómetros, atravessando campos, bosques, aldeias e vilas muito bonitas; e S. Pedro de Rates merece uma visita demorada. Caminho portanto devagar, fazendo paragens para ver, perceber, sentir e tirar fotografias. À beira de um pequeno charco, tento distinguir as rãs, cujas manchas verdes e escuras se confundem com as ervas, folhas e musgos. Converso com o homem que, dentro de um tractor, lavra o campo na orla de um bosque.


A partir de Pedra Furada, durante sete ou oito quilómetros, seguimos quase sempre pela N306, uma estrada apertada, sem berma para caminhar, com demasiados carros, onde os peões arriscam, a cada instante, a vida; duas horas de perigo iminente. Não será contudo difícil construir uma via, mesmo estreita, na qual os peões caminhem com mais segurança; e é certo que os habitantes serão os primeiros a utilizá-la. Noto – mais uma vez – que as autarquias não cuidam das necessidades reais das pessoas reais. 

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