Faz hoje 38 anos que recebíamos, com júbilo, a notícia do magnicídio que vitimou o almirante Carrero Blanco, um homem da confiança de Franco. Uma operação da ETA , com o nome e código «Operación Ogro» – 100 quilos de Goma-2 , provocaram uma explosão de tal modos violenta que o carro onde o almirante seguia voou, aterrando sobre a cobertura de um edifício contíguo à igreja onde momentos antes assistira à missa. Dá mau aspecto dizer-se que recebemos com júbilo a notícia da morte de um homem, mas seria hipocrisia dizer que ficámos tristes. E logo, atravessando a fronteira, circulou um chiste: «Arriba Franco! Más alto que Carrero Blanco».
Foram tempos agitados, três meses após o trágico 11 de Setembro no Chile e quatro meses ante do nosso 25 de Abril. Eram tempos agitados e também perigosos. Mas sabíamos contra quem estávamos. O espaço para ambiguidades era reduzido. O país fervilhava de boatos, informações, panfletos… As reuniões políticas multiplicavam-se. Dois anos antes, no sábado, dia 30 de dezembro de 1971, na missa das 19H30 da Capela do Rato, um grupo de cristãos declarou que tencionava realizar na capela uma jornada de 48 horas de «greve da fome» e de reflexão acerca da guerra colonial, apelando a cristãos e não-cristãos para aderirem à iniciativa. Os responsáveis foram presos e torturados.
Mas quando o almirante Carrero Blanco foi pelos ares, o nosso MFA já levava alguns meses de reuniões desde Junho desse ano de 1973. Em 19 de Abril, na Alemanha, fundara-se o Partido Socialista… Tempos agitados e perigosos.
Queríamos alcançar a democracia. Qualquer semelhança entre o que queríamos e o que está a acontecer é pura coicidência. Alguns talvez se sintam satisfeitos. Outros sentem uma enorme frustração. Todos os males do fascismo estão aí. Um governo formado por serventuários dos mesmos senhores que mandavam antes do 25 de Abril (ou dos seus herdeiros), toma medidas que Salazar ou Caetano não se atreveram a tomar. De facto, podemos falar à vontade.
Mas quem escuta vozes dissonantes?

