UM CAFÉ NA INTERNET – Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 22 – Em Barcelos. Por Manuela Degerine

Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

               Somos acolhidos com simpatia pelos bombeiros e uma funcionária da câmara, a qual nos conduz ao dormitório e explica as regras de utilização do espaço.


Após o duche e a lavagem da roupa, que fica a secar no pátio, num estendal, dou um passeio por Barcelos, uma cidade com edifícios magníficos, estragada pelo excesso de carros. Faço compras para o jantar e a etapa de amanhã: pão, queijo (excepcionais), pepino, nozes, bananas, chocolate. Exagero na quantidade… Janto sentada num banco, mirando os arcos das freguesias, vendo passar os habitantes e até, superlativamente coxas e vermelhas, as alemãs de Vilarinho.


Regresso ao dormitório. Ponho a bateria da máquina fotográfica a carregar, espero que as calças sequem mais um pouco, antes de as pendurar na grade do beliche, enquanto escrevo, interrompida, com frequência, por outros caminhantes, que vão e vêm, conversam… Um espanhol de Burgos, chamado Rodrigo, baixo e seco, sessenta e cinco anos, percorreu o caminho “francês” várias vezes, mais o “aragonês”, mais o “primitivo”, mais… Traz um caderno onde apontou as datas, os albergues, os preços, os encontros, as dificuldades – uma enciclopédia do Caminho de Santiago. À minha esquerda, nos beliches inferiores, estendem-se dois brasileiros, com os quais converso: são oportunistas e não caminhantes. Na cama por debaixo da minha, dorme um inglês de Manchester. Viaja com o filho, que é obeso; e um amigo. Aliás, tanto ele como o amigo, sem serem obesos, mostram-se bem nutridos, pesando, cada um, mais de cem quilos. Informa que chamam “Macs” aos habitantes de Manchester, chamo-lhe por conseguinte “Big Mac”; o que – concordo – não é original. Ignoro como conseguem: quase não trazem bagagens. Assisto ao duelo verbal entre o inglês obeso e um fininho vestido com o fato da selecção espanhola; ambos caricaturais. Em frente do beliche onde me encontro estão os suecos. O resto são alemães. Catorze. Então… E os franceses?! Sou por conseguinte obrigada a falar inglês. E, claro: espanhol. Uma língua semi-estrangeira.


A noite será estrondosa. (Durmo bem graças aos tampões auriculares, um prudente acessório para quem dorme em albergues.)  

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