Júlio Marques Mota Um postal a desempregados enviado
(Adão Cruz)
Hoje, estou muito triste
Pela enorme brutalidade do que agora senti
Pela Faculdade, casa que desde longe habitei,
Pela casa onde durante muitos anos amadureci
Por sete pessoas com quem muitos anos trabalhei
Pelo enorme tsunami que nesta casa hoje pressenti
Pelos 7 colegas, pelo emprego que hoje perderam
Por esta grande casa onde os seus dramas sempre vivi
Por 7 destinos que nela cobardemente se estragaram
Durante anos a precariedade neles instalaram
Por essa gente que desde longe conheci
Que pelo seu trabalho a Universidade serviram
E deles com muita dor ainda não me despedi
Venderam-lhe a precariedade como sistema
Eram os melhores, então não era preciso mais
E com essa mentira lhes fez o poder o seu lema
E a incerteza da vida e da esperança foram brutais
Hoje, estou muito triste,
Porque já não há falseada concorrência
Concursos haviam mais tarde de disputar
E os sete venceriam essa prova da violência
Os primeiros lugares haviam pois de ganhar
E o nosso Governo coerentemente tem a sua razão
Vivemos num país onde há gente que está a mais
Onde pela força o sistema deixou de ter coração
E os funcionários ele bem atira para a beira do cais
Atirados para o cais da vida, para o cais da emigração
Por 7 empregos havidos de onde são hoje despedidos
Toda uma enorme experiência profissional perderão
E do governo e do nosso silêncio ficarão ressentidos.
E os leais servidores do Governo esses ficarão
A viver dos sofrimentos assim multiplicados
Um lugar efémero ao sol do poder eles terão
Até um dia, pela nossa revolta, serem derrubados
Hoje estou triste. E é tudo.
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