Democracia e Fascismo: uma análise sobre os impasses, os compromissos, as cumplicidades da União Europeia. IIIª Parte, por Dominique Rousseau, Le Monde. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.

 

 

Elaboremos uma nova Constituição

 

Os mercados são mais fortes que “os indignados”. O que os sit-in,  as manifestações, as greves, os desfiles, os cocktail Molotov não puderam fazer, os mercados obtiveram-no: a demissão de primeiros ministro. A demissão do irlandês Brian Cowen em Fevereiro, do Português José Sócrates em Março, de José Zapatero em Julho, de Iveta Radicova em Outubro, de Georges Papandréou e Silvio Berlusconi em Novembro.


Karl Marx, que era acusado de caricaturar o funcionamento das repúblicas burguesas  deve estar a rir-se  hoje de ver que a realidade ultrapassa as suas análises.


O que é que se  vê hoje? Que os mercados delegam a gestão política das sociedades nos políticos; que estes homens, porque são eleitos pelo povo, julgam ser  livres nas suas decisões; que, enquanto estas decisões não prejudicarem os seus interesses e  assim continuarem  a ser compatíveis com os seus projectos, os mercados deixam-nos governar; que no dia em que estes políticos tomarem  decisões que os contrariem,  despedem-nos sem qualquer problema; e, o que Marx não ousou sequer imaginar, que os mercados substituem os homens políticos eleitos  por Lucas Papadémos, antigo Vice-Presidente do Banco Central Europeu (BCE), e por Mario Monti, antigo Comissário Europeu para a Concorrência.


Magnífico, como diria Michel Drucker! Límpido também. A república parlamentar é uma forma política: esta tem uma aparência, a responsabilidade dos governantes  face ao Parlamento e  ao  povo; e uma realidade, a sua responsabilidade face aos  mercados. Claramente, trata-se de pluto-repúblicas! Nesta conjuntura política e se a exigência democrática tem ainda um sentido e um futuro, não há  outra resposta possível que não seja a de  chamar à unidade os povos europeus. A soberania , a defesa do Estado- nação não são respostas; no melhor dos casos possível são nostalgias, no pior nos casos, são  erros políticos. A crise é disso, com efeito,  uma autêntica  demonstração. Um povo só por si não tem a legitimidade para impôr a sua vontade ao conjunto dos outros povos.


Não é normal que o povo alemão decida  através dos seus deputados da validade   ou não do acordo de Bruxelas; também não é nada normal que o povo grego decida sozinho por referendo desta validade. São os povos europeus em conjunto que devem decidir. Se assim não for, são , os mercados que ganharão e  sempre. Eles são, eles próprios,  integrados a nível europeu (ou mesmo a nível mundial); e tanto quanto  a política continuar   a ser, ela, mergulhada no plano nível nacional, eles não arriscarão nada. Um mercado unificado, dos povos divididos: quem ganha? Daí  a urgência de um acto político forte. Em 1788, para responder à crise das finanças do reino, Luis XVI convoca os Estados-Gerais  que, em 1789, se autoproclamam Assembleia nacional e, pela redacção  da Constituição, transformam os povos que viviam no território da França em povo francês.

 

No Parlamento Europeu, hoje, deve-se  ter a mesma audácia. É a única instituição procedente do sufrágio universal e esta legitimidade dá-lhe a capacidade de autoproclamar-se Assembleia constituinte e de propor ao voto dos povos europeus uma Constituição que se inicie por   “Nós, povo europeu…” e que atribuiria à  futura Assembleia Europeia eleita  por este povo um poder de decisão sobre todas as questões que interessam às finanças públicas europeias.


E sem estar a esperar, o actual Parlamento Europeu poderia tomar a iniciativa de reunir em Estrasburgo a Assembleia das Comissões de finanças dos Parlamentos nacionais e do Parlamento Europeu para deliberar sobre as  soluções financeiras e orçamentais para a  saída da  crise. Porque, no fim desta história , são os contribuintes europeus que vão pagar. E os pagadores devem ser eles mesmos as instâncias de decisão. Elementar!


Dominique Rousseau, professeur de droit constitutionnel à Paris-I-Panthéon-Sorbonne, Le Monde, Novembro de 2011.

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