PORQUE É QUE AS PESSOAS GOSTAM (OU NÃO) DA HISTÓRIA DO MENINO JESUS por João dos Santos (1913-1987) **

 

 

 

 

 

 

 

Há dias e há noites em que a solidão custa mais. A noite do Natal é uma daquelas em que as pessoas suportam mal o isola­mento. De muitos ouvi contar ou li contadas, histórias tristes do Natal passado longe da família, na emigração, em viagem, na guerra ou no hospital. Também eu tenho uma história des­sas para contar, mas a minha é só meia triste, porque o Me­nino Jesus me fez uma partida engraçada. Foi em 1946. No fim de 1945 tinha eu participado na famosa reunião de “Os 300 do Benformoso” para pedir “eleições livres”.

(….)No Natal de 1946 estava eu em Paris, desligado da família, trabalhando ainda como voluntá­rio num hospital e num laboratório, porque lá não fazia mal, uma pessoa querer votar livremente. Jantei sozinho naquela noite ao balcão do Duponds Michel. Faço a fantasia de que comi vitela assada com meia de tinto, uma peça de fruta, um doce e um bom café. A verdade é que nessa época em França – a mais severa no «racionamento» desde o começo da guerra – as senhas de um mês de carne, davam somente para uma ou duas refeições, dinheiro para vinho não tinha, a fruta era rara e só distribuída a grávidas e crianças e não havia café nem açúcar! Admitamos que comi arenque fumado, feijões cozidos, pão de castanhas com milho e «café de cevada» temperado com umas gotas daquele soluto de sacarina, da garrafa que andava por cirna do balcão. Estava naturalmente triste, a pensar nas prendas que o Menino Jesus daria, aqui em Lisboa, aos meus filhos José e Paula.

Depois do jantar, entretive-me, sonhador e distante, a olhar vagamente para uns negros que se baloiçavam sobre as gâmbias esgalgadas, em volta daquela máquina infernal dos discos, num ritmo que se não quadrava de todo o meu estado de espírito. Não havia outra companhia à disposição e não era minha intenção ir para a cama antes da meia-noite. A dada altura a sanfona parou e os negros todos olharam para mim, ao mesmo tempo que um deles se me dirigiu em palavras que não entendi à primeira. A segunda, ouvi que me dizia: «Eh! camarada então não vem daí uma moedinha para a música?» Eu sabia que com aquele jantar se me tinham ido as notas todas, que tinha deixado sobre o balcão, como gorjeta, os restos do que tinha em moedas; mas, para não fazer figura de desmancha-prazeres meti a mão ao bolso do sobretudo com ar despachado. Estava lá a moeda necessária. Introduzi-a na máquina, com os requintes de precisão de um «habitué», carreguei num botão ao acaso e saiu uma música igual às outras. Confraternizei tão alegremente (quanto podia) com aqueles meus desconhecidos amigos e com eles fiquei até passar a hora sagrada.

 

Fui para casa a pensar que aquilo tinha sido uma graça do Menino Jesus, um presente do Natal que ele quando me viu naquela situação atrapalhada, me deixou escorregar lá de cima, para o bolso do meu sobretudo. Desde então, sempre que tenho dinheiro fresco, meto umas notas pequenas e umas moedas sor­tidas nas várias bolsas marsupiais da fatiota que me envolve … Que isto de pedir prendas ao Menino Jesus, não é para se abusar…

 

                            *Publicado no Jornal das Letras, Dez, 1980 e em “Ensaios de educação II”- Livros Horizonte, 1991 – p.199-200.

                             **Psicamalista e Pedopsiquiatra, reformulador dos serviços de saúde mental infantil na década de 60 (ver www.casadapraia.org.pt)

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