Regresso a Olivença (2) – por Mário Ventura Henriques

 

 

Regresso a Olivença (2) – por Mário Ventura Henriques

 

 

(continuação) 

 

 

 

 

Mudaram as pessoas

 

 

Doze anos depois, nada é como antes. Excepto, talvez, a paisagem, em cujo solo continua a praticar-se a mesma agricultura pobre de outrora, extensiva e monótona. Identifico caminhos, pontões, montes idênticos aos do campo alentejano, nomes que despertam a sensibilidade – Casas Novas, por exemplo -, coutos de caça que se estendem por quilómetros e a mesma estrada sinuosa que, de Badajoz, nos abre caminho para Olivença, quase fronteira à vila portuguesa de Juromenha.

 

 

O que é diferente, o que mudou, são as pessoas. Onde, antes, havia silêncios carregados de suspeita e receio, uma clandestinidade às claras, olhares equívocos, fuga ao diálogo e, por cima de tudo, a sugestão de se ter perdido a memória do idioma dos antepassados, existe hoje a cativante simpatia de quem se abre ao contacto para que o conheçam melhor e melhor o compreendam, e, mais emocionante ainda, o desejo irreprimível de demonstrar que se recorda e se mantém viva, no dia-a-dia dos Oliventinos, a língua portuguesa. O viajante sente-se em casa, esquece a fronteira que atravessou há pouco, e cala-se simplesmente, para se dar ao prazer de escutar o acento cantante do português que falam os de Olivença, semelhante ao dos Alentejanos, e mais aliciante pela presença de palavras arcaizantes, esquecidas ou desprezadas entre nós. E logo se entende o desejo que têm os Oliventinos de que se institua na sua terra o ensino do idioma português; se, 180 anos depois do corte dos laços políticos com Portugal, ainda se mantém a prática da Língua Materna é porque a herança dos séculos anteriores foi suficientemente forte para que se queira, no presente, recuperá-la integralmente (1).

 

 

– Exactamente, aqui fala-se Português – diz-me Ramon Rocha, o presidente da Câmara que desencadeou o processo de revindicação, junto do Governo de Madrid, do ensino da nossa língua.


 

– E porquê esse desejo ?

 

 

– Porque defendemos muito as questões culturais. Acreditamos que os povos, com a cultura, se unem e ultrapassam muitos problemas. E, vendo como se corria o risco de perdermos a nossa cultura, que é pouco vulgar, intentamos conservar este legado recebido dos nossos antepassados.

 

 

O que, pelos vistos, nada rem a ver com razões históricas ou políticas…

 

 

– Nós não entramos nisso. A questão histórica é uma e actualmente a política é outra. Reconhecemos que durante seis séculos Olivença pertenceu a Portugal, mas também sabemos que actualmente somos espanhóis. Mas, entre estas duas realidades, há uma história que permanece: os monumentos, o idioma, todo um passado português.

 

 

O espírito centralista, durante muitos anos comum aos dois países peninsulares, fez de Badajoz a única beneficiária do intercâmbio fronteiriço. Enquanto Badajoz crescia e engordava, até ao ponto de se tornar a maior cidade espanhola na fronteira com Portugal, os restantes núcleos urbanos estiolavam, num isolamento que tinha a única vantagem de lhes manter a identidade própria livre de influências alheias. Os povos, quando esquecidos, defendem-se isolando-se mais.

 

 

Hoje, desaparecidas as condições políticas que vigoraram na Península durante décadas, instituída a democracia que veio dar uma voz a anseios e aspirações secretamente alimentados, continua a não ser fácil – lá como cá – vencer a barreira do centralismo, agora reagindo e resistindo por interesses particulares, económicos ou de prestígio, e secundarizando sempre os núcleos populacionais mais abandonados. Daí que não seja optimista a abertura de uma fronteira entre Olivença e Portugal: os “outros” não deixam…

 

 

Mas a actual situação, a persistir, porque assim o querem os interesses regionais ou as razões de Estado, não constitui um óbice a que se mantenham e incrementem as relações de boa vizinhança entre Olivença e o lado de cá. A força que alicerça essa realidade é a unanimidade do povo oliventino a respeito dos laços com os Portugueses: na Câmara, todos os Partidos Políticos, do Partido Comunista à Alianza Popular, votaram pela reivindicação do ensino do nosso idioma em Olivença. E porquê ?…

 

 

– Homem, porque todos somos conscientes de que é uma coisa cívica nossa. E temos obrigação de defendê-la. Não me surpreende que o tenham querido prender aqui, há doze anos, porque então existia uma corrente totalmente contrária aos nossos interesses. Mas isso acabou, e hoje nenhum de nós pode negar a sua raiz portuguesa. Está sempre presente, até nos monumentos. Aqui mesmo: o edifício da Câmara era o antigo Palácio dos Duques de Cadaval.

 

 

E isto, apesar de se terem perdido quase todas as fontes escritas do passado oliventino, à excepção do Foral de D. Manuel, que permanece na Biblioteca local.

 

 

– Temos muito pouca coisa, ficou tudo do lado de lá.

 

 

O que explica agora uma verdadeira febre de recolha de livros e documentos, quer provenientes de Portugal, quer da própria Olivença, onde ainda existem obras raras em mãos de particulares. E, para o demonstrar, Ramón Rocha mostra-me as fotocópias – obtidas de um exemplar existente na vila – da raríssima obra de Frei Jerónimo de Belém, editada em Lisboa no século XVIII: “Olivença Ilustrada pela Vida e Obra da Venerável Maria da Cruz, Filha da Terceira Ordem Seráfica, e Natural da Mesma Vila de Olivença”.

 

 

E é difícil descrever o orgulho com que o “alcalde” (2) exibe esse amontoado de folhas que o tempo acabará por delir mais depressa que o volume setecentista que reproduzem, e que sobreviveu, nas mãos de um ignorado particular, a quase dois séculos de afastamento da pátria de origem.

 

 

Mais tarde, procuro nas ruas de Olivença a casa onde viveu a Venerável Maria da Cruz, uma mulher que foi leviana e acabou em cheiro de santidade. Mas já não a encontro: foi destruída, como muitos outros monumentos que atestavam seis séculos de presença portuguesa. Resta, na memória das pessoas, a história dessa figura nebulosa e lendária.

 

 

Olivença cala fundo na sensibilidade dos portugueses que percorrem as suas ruas e contemplam os seus monumentos. O tempo ou as malfeitorias destruíram muito do que se ergueu no decurso de seis séculos de nacionalidade portuguesa, mas quase 200 anos de soberania espanhola não conseguiram apagar nem perverter a sua cultura original.

 

 

Se não fossem as grades de ferro existentes em muitas janelas – e mais na própria vila do que nas aldeias circundantes -, dir-se-ia que estávamos numa terra alentejana (3), marcada por uma monumentalidade que não é vulgar nos burgos do Sul do País.

 

 

Mantém-se a Misericórdia – a única existente em terras de Espanha -, ainda a funcionar como nos seus primórdios, aquando da fundação, em 1501, pela Rainha D. Leonor. Está entregue à Ordem das Filhas da Caridade (4) e a sua finalidade principal é a de pensionato destinado a idosos e doentes. Na fachada do edifício, dois brasões ladeiam a porta do hospital: à esquerda, as armas portuguesas, com a data de 1501, e à direita o brasão isabelino, com a data de 1801. Entre ambos, três séculos dwe vida e história portuguesa.

 

 

Mas o templo da Misericórdia guarda ainda toda a singeleza primitiva, apesar das pinturas estranhas com que algum pinta – monos de má morte decidiu cobrir o altar de madeira escura. Sobre o sacrário, permanece o pelicano, arrancando do peito a sua carne para dar de comer aos filhos. Sessenta anos depois da visita de Hermano Neves, um dos primeiros jornalistas a demandar Olivença no tempo da República, ainda me contam a história que ele próprio então ouviu, e narrou nas crónicas mais tarde publicadas em livro. Diz assim o meu cicerone:

 

 

– As freiras, que não conheciam o verdadeiro significado da ave, temiam-no porque achavam que se tratava de uma representação diabólica. Não o consideravam suficientemente bonito para ser o Espírito Santo.


 

– Mas permaneceu ali, apesar disso.

 

 

– Nem sempre. Mas os portugueses conseguiram obter do provedor da Casa a promessa de repor o famosíssimo passaroco sobre o sacrário.

 

 

E acrescenta, com orgulho:

 

 

– Em Espanha, é a única instituição deste tipo, e ainda funciona como quando era portuguesa, cumprindo todas as regras.

 

 

Nas paredes do templo, magníficos painéis de azulejos, assinados por um nome bem português, Manuel dos Santos.

 

 

– Não existem outros em todo o país – diz-me o meu cicerone.

 

 

(continua)

 

 

 

NOTAS À MARGEM DO TEXTO (2006):

 

(1) este texto, escrito em 1990, não previu o que se passou a partir de 1994, quando se regressou à prática de ignorar o passado português.

 

(2) a partir de 1994, a atitude do alcaide mudou completamente. Hoje revela-se bastante anti-português.

 

(3) principalmente a partir de 2003, tem-se vindo a acentuar a descaracterização da arquitectura portuguesa, mesmo nas ruas antigas e nas aldeias, principalmente na de Vila Real.

 

(4) as freiras da misericórdia foram afastadas de Olivença, de noite, em Junho de 2001.

 

Leave a Reply