Os mercados sofrem de duas doenças: a miopia e a amnésia. Dominique Plihon, presidente da ATTAC francesa, responde. Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Perguntas que se devem fazer, respostas que se devem saber

 

Os mercados sofrem de duas doenças: a miopia e a amnésia

 

 

•  Pergunta.  Os mercados parecem regularmente ter reacções desproporcionadas e/ou completamente desligadas da economia real. Estão eles realmente em ligação com a economia  real ou são apenas ferramentas da especulação? 


•   Resposta de Dominique Plihon. Os mercados foram criados em princípio para estarem em ligação com a economia, a financiar a economia. Mas a experiência e a teoria mostram que, quando a dimensão dos mercados se torna muito grande, como são hoje, eles tendem a ser muito instáveis e a perderem a ligação com a economia real.


O economista que melhor mostrou isto foi Keynes. Este afirmou: “à medida que a dimensão dos mercados aumenta, a actividade de especulação sobrepõe-se à actividade empresarial, ou seja, à actividade de produzir riqueza real”.


• P. Diz-se que no Verão, os movimentos nos mercados são mais sensíveis. Porquê?


•.R. Eu posso formular uma hipótese: a actividade no Verão é reduzida. O menor acontecimento é muito importante. Para dar uma imagem: quando se atira uma pedra para uma grande superfície de água fará muito menos remoinhos do que se atirar a mesma pedra para uma menor superfície… Mas não estou seguro que seja a boa explicação.

 

 

• P. Uma questão me incomoda, como diria o outro: uma vez que as bolsas só desempenham um papel da especulação, porque não suprimi-las pura e simplesmente? Será que não se poderia passar por um serviço público de financiamento das empresas?

 

 

•R. Há economistas, tais como Frédéric Lordon, que propõe  suprimir as bolsas, pelas mesmas razões. A minha resposta é que seria bom poder fazê-lo mas isso hoje seria muito difícil de conseguir dada a enorme importância que assumiram as bolsas.

 

 

A minha sugestão, menos ambiciosa, mesmo se a de Frédéric Lordon me agrada, é reduzir significativamente a dimensão das bolsas, através, principalmente, da tributação das operações dos mercados de acções.

 

 

•P. Fala-se sobre “mercados” como algo de orgânico, como qualquer coisa que está viva e isso é assustador porque completamente desumanizante (como foi o caso do Estado ou do partido único na URSS), não acha?

 

 

•R. Boa questão. Na verdade, os mercados, é um termo genérico que abrange milhares de seres humanos. O problema é que a psicologia dos operadores no mercado pode ser comparada, muitas vezes, à dos  animais. Cito novamente Keynes, falando de “espíritos animais” para descrever e qualificar os intervenientes no mercado.

 

 

 

Estes mercados são, portanto, muito vivos, mas são sobretudo muito animais.

 

 

•P. Animais? Para quando os matadouros?

 

 

•R. A sua proposta é interessante. Mesmo Keynes falou da eutanásia dos rentiers. Mas eu deixo-o com a responsabilidade da sua proposta.

 

 

• P. Pode hoje temer-se uma nova crise económica como em 2009?

 

•R. Seguramente. Pode-se temer uma nova crise, como a de 2009, e poderá ainda ser mais grave: pode levar não somente às falências bancárias mas também para à implosão da área do euro, com consequências absolutamente catastróficas para as nossas economias e para as nossas condições de vida.

 

 

•P. É razoável continuar a investir em ouro?

 

•R. O ouro foi sempre um refúgio seguro em tempos de crise e de incerteza, quando o euro, as bolsas ou a economia estão fortemente instáveis. Estas são situações em que as pessoas, os especuladores e os aforradores fogem para o ouro.

 

 

Eu não sou muito favorável a este tipo de comportamento, porque é estéril: o ouro não produz nenhuma riqueza. Na minha opinião vale mais investir em microempresas que criam riqueza ou na poupança ética, por exemplo, para financiar a reinserção dos desempregados de longa duração.

 

 

P. Trata-se realmente de uma situação de pânico? Não é isto um pouco o resultado de uma especulação voluntária orquestrada por alguns actores do mercado financeiro?

 

•R. A resposta é difícil. Eu acho que existem dois comportamentos. Existem fundos de investimento especulativo claramente que criam a volatilidade, a turbulência no mercado, comprando ou vendendo, e que jogam à baixa dos mercados.

 

 

Existe também uma preocupação muito grande, mesmo de pânico, entre alguns investidores, que estão inquietos e com razão quanto à gravidade da crise e à insuficiência das respostas dadas pelos governos e pelos bancos centrais.

 

 

Por exemplo, a fraqueza e a total perda de credibilidade de Berlusconi e do seu governo em grande parte explica a muita preocupação sobre a dívida italiana.

 

 

• P. Num jogo, existem perdedores e um vencedor: pode-nos explicar quem ganha nesta especulação à baixa e qual o mecanismo que explica em que é que se ganhou?

 

 

R. Aqueles que especulam joga com diferentes tipos de instrumentos: utilizam, por exemplo, os  CDS (credit default swaps ) ou as “vendas a descoberto”.

 

 

• P.  Em termos concretos, como é que ganham dinheiro com uma venda a descoberto?

 

 

•R. Isto consiste em vender amanhã títulos, activos financeiros, de que se dispõe hoje. Por isso é que se chamam vendas a “descoberto”.

 

 

Por exemplo, eu vendo hoje italiana dívida, para entregar amanhã, a um preço de 100. Eu antecipo que esta dívida, amanhã, não valerá mais do que 50 amanhã (eu estou a especular à baixa). Se isso se verifica, se amanhã a dívida não valer mais de 50, eu a compro a 50 e eu vendo-a a seguir, ao valor de 100 (o preço a que foi acordado ontem para entregar o título). Resultado: obtenho um lucro de 50, com a especulação à baixa, sem ter nenhum título de dívida, sequer.

 

 

É uma ferramenta muito perigosa, proibida na Alemanha, mas nãoem França. Nicolas Sarkozye seu governo não têm a coragem de proibir porque eles são menos corajosos e estão ainda mais sob o domínio dos mercados financeiros que os alemães.

 

 

•P. Estes instrumentos financeiros (CDS) são necessários?

 

 

•R. Não. Viveu-se muito bem sem eles (porque se estes instrumentos financeiros se desenvolveram recentemente, só desde há cerca de dez anos). Hoje devem ser proibidos, e na ausência dessa proibição devem ser rigorosamente regulamentados para limitar a sua utilização.

 

 

Os CDS podem aparecer úteis  porque, à partida, são destinados aos credores para que estes se protejam contra uma diminuição futura do valor destes créditos. Mas, recentemente, foram muito mais utilizados pelos especuladores do que por aqueles que desejam proteger-se.

 

 

O facto de se quererem proteger pode parecer legítimo, enquanto especular, é voluntariamente assumir um risco, com efeitos que podem ser prejudiciais, criando a instabilidade financeira.

 

 

• P. Em que medida existe um risco para o seguro de vida (em euros)?

 

 

• R. Eu não sou um especialista. O que eu sei é que existem dois tipos de seguro de vida: aqueles cujo capital é garantido e aqueles cujo capital não é garantido, que são mais arriscados e, portanto, têm um rendimento mais elevado. Eu aconselharia qualquer pessoa que quisesse ser prudente para ter um seguro de vida em capital garantido, porque neste momento existem demasiados riscos nos mercados.

 

 

Mas em vez de adquirir um seguro de vida, deve-se colocar o dinheiro em instituições financeiras que investem directamente em actividades socialmente úteis: a nova economia fraterna (NEF), por exemplo, oferece investimentos em tais actividades, com uma remuneração mínima garantida.

 

 

•P. Está-se a falar de mercado como, de facto, seja uma entidade abstracta. Porque é que nunca se ouve falar os especuladores ou os actores no mercado para que eles nos expliquem as suas reacções?

 

 

•R. Não concordo. Se ouvir a rádio, por exemplo, verifica que se entrevistam sem parar os gestores de fundos que são, pelo menos alguns deles, especuladores verdadeiros, e que vos explicam muito bem porque é que a bolsa sobe ou desce. Creio, portanto, que estes são ouvidos, e até demais, acrescente-se.

 

 

Por outro lado, quase nunca se ouvem aqueles que gerem os fundos éticos, por exemplo.

 

 

•P. O que é que pode ser dito sobre a forma como as crises são exploradas pelos poderes em exercício. Como colocar em perspectiva “a estratégia do choque ” de Naomi Klein com estas crises de repetição sucessiva?

 

 

•R. Boa pergunta. Alguns governantes sabem muito bem instrumentalizar as crises, de que às vezes são eles responsáveis em parte para assim acederem ao poder ou para o manter.

 

 

O actual Presidente francês é mestre nesta arte: ele depende das finanças e da ideologia neoliberal e também se apresenta como um Salvador, propondo planos para fazer face à especulação e à crise de que vemos hoje que a eficácia é muito limitada. Assim, esta “estratégia do momento” aplica-se muito bem a um certo número de homens ou mulheres na política. A França é exemplar a este respeito.

 

 

Na próxima campanha presidencial pode-se pensar que haverá uma dramatização da crise e que o Presidente vai tentar ser um bom gestor da crise, o que está longe da realidade.

 

 

•P. Hoje, na abertura, a bolsa de Paris perdeu 3%. Algumas horas mais tarde e sem que se tenha passado grande coisa (números encorajadores de emprego americano), passa-se para + 2%. Os apostadores não serão eles, um pouco, digamos psicopatas?

 

 

• R. A bolsa sobre-reage sempre às más notícias. Quando há más notícias sobre a Grécia e a Itália, isso cria uma especulação à baixa. Inversamente, quando há bons números sobre o emprego nos Estados Unidos, isto faz com que se tomem posições à alta.

 

 

Como explicar esta alta volatilidade dos mercados a curto prazo? Por duas doenças dos actores dos mercados: por um lado, a miopia. Eles contentam-se em olhar para os elementos a muito curto prazo. Por outro lado, a amnésia: eles olham só para a frente deles, e, esquecem o que se passou ontem.

 

 

É por isto que não se pode confiar aos mercados financeiros os investimentos a longo prazo da nossa sociedade.

 

Leave a Reply