Queremos no nosso editorial de hoje fugir aos temas corriqueiros da época natalícia. Mesmo os não crentes costumam envolver-se numa manta de nostalgia, recordando os natais inesquecíveis que, por boas ou más razões, todos temos na memória. Não nos vamos enredar nessa trama complicada. Nem falar dos presépios da nossa infância, dos doces cujos cheiros e sabores ainda recordamos. Vamos falar num tema caro à Igreja Católica – vamos falar dos pobres.
É interessante como a Igreja Católica faz o elogio da pobreza e do lugar que aos pobres está reservado no Reino dos Céus, local onde os ricos terão grande dificuldade em entrar. Pelos vistos, nem o cartão dourado Visa ou MasterCard com crédito ilimitado lhes dará o direito de entrar.
Há quem diga que no facto de luteranos e protestantes em geral assumirem uma posição diferente quanto aos benefícios da pobreza, se situa o motivo por que os povos mais atingidos pelas ideias da Reforma, têm melhores situações económicas. Para eles a capacidade de prover com dignidade as necessidades familiares, era uma obrigação dos crentes. O Norte da Europa e os países colonizados pelos seus povos, vivem melhor – compare-se por exemplo o Canadá e os Estados Unidos com a América Latina onde portugueses e castelhanos difundiram a fé católica.
A a Igreja das Antas, no Porto, foi assaltada. Roubaram o cobre da cobertura do templo. Não sabemos se houve queixa à polícia, mas os ladrões podem ter confiado na misericórdia divina e entendido que era mais importante terem uma boa Consoada do que a igreja manter o telhado de cobre. Faz lembrar a história da visita ao Vaticano de Diego Maradona. Foi recebido por João Paulo II que, no discurso que fez ao grupo de personalidades em que se integrava el pibe, manifestou a sua grande preocupação com os pobres, principalmente com as crianças subnutridas. Enquanto o Papa falava, Diego olhava o tecto folheado a ouro. E conta: «Zanguei-me com ele quando fui ao Vaticano e vi os tectos de ouro. E, depois, ouvia-o a dizer que se preocupava com as crianças pobres. «Mas então vende o tecto, campeão, faz qualquer coisa».
É incompreensível o fausto em que a Igreja e os seus quadros superiores vive ao mesmo tempo que abençoa a pobreza. Acabamos de saber que o número de pobres irá crescer exponencialmente. Alguns dos que vão ser atingidos por esse estado que lhes dará acesso ao Paraíso, vão esperar passivamente que chegue esse momento – passarão fome, viverão da caridade. Mas haverá outros menos pacientes que irão buscar tectos de ouro ou telhados de cobre onde os houver. Seja no Vaticano ou nas Antas.
Às portas do caos económico, é escandaloso que a Igreja mantenha a sua riqueza e o seu discurso em prol da pobreza. Façam o que Diego aconselhou – desfaçam-se da vossa ostentação e distribuam o produto da venda pelos pobres. Não resolverão o problema da pobreza, mas demonstrarão uma coerência de que nunca foram capazes. Como conseguem dormir em paz com as vossas consciências? Vendam os tectos e os telhados, campeões!

Será uma proeza intelectual alguém conseguir distinguir – na ocidental caminhada de séculos do capitalismo, desde a sua “teorização smithiana”, ou no vertiginoso percurso oriental, partindo da aplicação das mesmas receitas e filosofices a sociedades feudais – qualquer diferença de perspectiva em relação à pobreza e à exploração dos seus semelhantes pelos donos do dinheiro (sempre, em última análise, roubado) baseada em crenças religiosas. A leste, sobretudo no seu extremo, também há testemunhos escritos e fílmicos, mas o fenómeno é tão actual que não precisamos de sair da nossa poltrona na plateia para mergulhar no cenário, ainda que continue a manter-se, à revelia de leis que não funcionam, o sistema hindustano de “castas”; e noutros lugares, os resultados práticos sejam muito próximos, ainda que os fundamentos divirjam: um servo da gleba é-o em qualquer parte, mesmo se o designam por outros nomes. Quanto ao ocidente, direi que não distingo, substancialmente, o que narra Dickens do que conta Zola – apenas dois dos mais relevantes exemplos literários de denúncia do modo como o sistema se “desenvolveu”, paralelamente – no que a este tema se refere – em países dominados por seitas cristãs diferentes…Que a igreja católica acrescentou, à impiedade visceral dos seus “ricos e queridos crentes”, um estilo – faustoso, exibicionista e de bom passadio da sua hierarquia – peculiar, é um facto: mas que só pesa na gravidade dos “pecados contra a Humanidade” de tal hierarquia. Que as outras “igrejas cristãs” tenham procedido de modo significativamente diferente, no que se refere às desigualdades sociais, em idênticos períodos históricos, foi coisa em que nunca reparei…As excepções serão algumas seitas de fanáticos que prezam muito a “simplicidade” e a “frugalidade”, mas não se livraram de praticar actos estúpidos (todo o fanatismo é estúpido, aliás), como perseguições de “bruxas”e outras tropelias, e de continuarem a inventar as mais inesperadas e “criativas” maneiras de uma qualquer hierarquia dispor, dentro da sua comunidade, de quem possa subjugar e maltratar – sejam jovens, mulheres ou crianças, isto é, de limitar arbitrariamente a liberdade individual e a expressão de qualquer pensamento que se afaste das suas “verdades”. Coisa que, de resto, também se aplica aos maometanos, em geral…O que se passou no Norte da Europa tem, em minha opinião, muito mais a ver com teorias filosóficas, sociais e políticas que assustaram os “bons burgueses” lá desses sítios: o resto vem, como se sabe, de mudanças de mentalidade que se entranharam, por hábito (o que já não é mau!), nessas sociedades. Mas, também por lá, há tipos chatos, como o Bergman, que se encarregaram de nos indicar os rastos dos inquietantes dias que viveram ou a que, pelo menos, assistiram na sua infância. Acresce que – infelizmente – estas coisas nunca se “entranham” com satisfatória profundidade: veja-se a ascensão, em vários desses países, do apoio “popular” a partidos de extrema-direita e como facilmente estes conseguem infiltrar em demasiados cidadãos coisas que chegámos a considerar ultrapassadas, como a xenofobia e o ódio aos imigrantes; e cultivarem uma insidiosa e sempre latente tendência dos seres humanos para encontrarem “óptimas” e, sobretudo, “inteligentes” razões para se sentirem parte de uma qualquer comunidade ou etnia “superior”.Ainda no que se refere aos países nórdicos (e não só), houve, em determinada altura, a conjugação de dois factores: a construção e manutenção de instituições sindicais e partidos de base proletária muito fortes (estes não raro com raízes naquelas) com a “cagufa” das “elites do dinheiro”, por causa daquela coisa do “fantasma que assombrou a Europa”, que acho que teve qualquer coisa a ver com um tipo chamado Marx. O que muito os ajudou a trilharem um caminho que (ainda) parece mais humanizado.Mas tudo isto é consequência de influências basicamente políticas, não religiosas. Se a existência de indivíduos íntegros, em geral pisoteados pelas hierarquias, tem sempre um papel, por ínfimo que seja, na tarefa de tornar o Mundo num lugar menos hediondo do que poderia ser se eles – e outros, sem religião nenhuma – não existissem, do que falamos, aqui, é das instituições. E essas, “pecaram” sempre.À… mem.
Bons textos, Carlos e Paulo. Vou tentar que os meus amigos não os percam
Os comentários do Paulo são maiores do que os posts que comentam – um desperdício, em termos editoriais. Por isso, vamos autonomizar o comentário como post e tentar debater este tema da riqueza da Igreja Católica em contraste com o elogio que nos seus templos é feito às virtudes da pobreza. Não me parece que aquilo que o Paulo diz seja substancialmente diferente do que se diz no editorial – aprofunda aspectos mal aflorados.. Mas nunca se deve perder a oportunidade de uma boa discussão. Sobretudo se houver mais intervenientes…