DIÁRIO DE BORDO, 28 de Dezembro de 2011


 

A situação criada pela decisão de construir a barragem do Tua é mais um caso a juntar á longa lista de decisões e opções políticas que se tomaram em Portugal, ao longo dos anos, sem avaliar devidamente as consequências. A região do Alto Douro vai ser afectada negativamente, porque as vantagens resultantes da produção de electricidade e algum benefício que se possa trazer à agricultura não compensarão minimamente os inconvenientes que vão ser causadas à paisagem e ao ambiente. A vida diária das populações será bastante afectada e o interesse turístico da zona ficará muito reduzido. A própria produção do Vinho do Porto poderá ser afectada. A classificação do Alto Douro Vinhateiro pela UNESCO como Património da Humanidade poderá ser retirada, apesar das opiniões em contrário de responsáveis governamentais. O investimento que a EDP está a fazer é muito grande, e vai pesar nas contas da electricidade nas nossas casas.

 

Não será disparate comparar este caso com o da barragem de Santa Clara, no concelho de Ourique, no Baixo Alentejo. Esta barragem foi inaugurada em 1968. Tem uma albufeira de cerca de 1968 hectares, que é como que um grande lago interior. Não está sempre cheia, porque, não o esqueçamos, está situada numa zona de clima seco, e chuvas irregulares. Originariamente, destinava-se a fornecer água para a agricultura e para a produção eléctrica. A escassez de água e a falta de aptidão agrícola de grande parte dos solos da região colocou os resultados do investimento em risco, investimento que em grande parte tinha sido assegurado com um empréstimo de bancos alemães (já naquela altura tínhamos disto!). Entretanto, nem tudo correu mal. A albufeira lá se foi enchendo de água, tornou-se num belo lago, e o turismo prosperou nas suas margens. A agricultura (existe uma rede de canais de rega) não progrediu como se pretendia, mas a pesca nas suas águas parece ter algum interesse. Claro que estes benefícios inesperados não eram os previstos quando a obra foi projectada. Seria interessante saber como foi pago o empréstimo dos alemães. Talvez se descobrisse alguma coisa útil para aplicar hoje em dia.

 

O caso do rio Tua parece ser mais complicado. A destruição do ambiente e da paisagem e a degradação das condições de vida locais serão inevitáveis, por mais precauções que a EDP tome. E as garantias já dadas à empresa dificilmente serão reversíveis. Pense-se na venda das acções que o estado ainda detinha à China Three Gorges. Curiosamente esta empresa estatal chinesa tem o nome de um gigantesco projecto hidroeléctrico no rio Iansequião, lá no Celeste Império.

 

Entre mares, rios e barragens, vamos numa navegação incerta. Por entre escolhos e baixios, guiados por almirantes, perdão por políticos, que não vêem o que lhes está mesmo à frente do nariz, cegos que estão pela ânsia dos resultados a curto prazo, que acham que são os que lhes trazem prestígio. Dizem que nos querem garantir o futuro, mas destroem o presente. A ponte de passagem para o futuro. 

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