Como os filólogos da República da Guiné-Bissau não puderam estar presentes na recente reunião para o Novo Acordo Ortográfico, estamos todos à espera da sua ratificação para saber como é que nós, os Portugueses, vamos escrever a nossa própria língua. E esta? De qualquer modo, os grandes peritos de São Tomé e Princípe, de Angola, do Brasil, e dos outros países de «expressão oficial portuguesa» já se pronuciaram. A República da Guiné-Bissau, porém, também terá a sua palavra a dizer. Muito provavelmente, uma palavra escrita à maneira deles; mas não faz mal. Nas palavras de Fernando Cristovão, 1986 é o ano que marca a nascença da lusofonia. A grandiosa lusofonia está, obviamente, acima da mera língua portuguesa.
A lusofonia é uma espécie de estereofonia, só que é melhor. A estereofonia funciona com dois altifalantes, enquanto a a lusofonia funciona com mais de 100 milhões.” Para mais, os falantes da lusofonia têm a vantagem de ser feitos em África e na América do Sul, o que lhes confere uma sonoridade nova e exótica. Para instalar uma aparelhagem lusofónica devidamente apetrechada, são necessários complicados componentes tupis, quimhmoguenses, umbandinos e macuas, Enfim, coisas que não se fabricam na nossa terra. A partir de 1986, todos os povos a quem uma vez chegou a língua portuguesa podem contar com um lusofone em casa. Um lusofone é um aparelho que permite a qualquer indígena falar e escrever perfeitamente esta nova e excitante língua, que passará a chamar-se o brutoguês.
Para haver lusofonia, nada pode ser como dantes. Os Lusíadas passarão a conhecer-se por Os Lusofoníadas. Se dantes havia língua portuguesa e a sua particular ortográfica, agora passa a haver a língua brotuguesa e a sua ainda mais particular tortografia. A tortografia, conforme se estabeleceu no Acordo Lusofónico de 1986, consiste em escrever tudo torto.
As bases da tortografia assentam numa visão bruta da fonética. Por outras palavras, se a lusofonia é uma cacofonia de expressão oficial brutoguesa, a tortografia consiste fundamentalmente no conceito de cacografia”. Dantes cada país exercia o direito inalienável de escrever a língua portuguesa como queria. As variações ortográficas tinham graça e ajudavam a estabelecer a identidade cultural de cada país. Agora, com o Acordo Tortográfico, a diferença está em serem os Portugueses a escreverem como todos os outros países querem. Como todos os países passam a escrever como todos querem, nenhum país pode escrever como ele, sozinho, quer.xxx As ortografias tupis e crioulas, macumbenses e fanchôlas passarão a escrever-se direito por linhas tortas. O Prontuário passa a escrever-se «Prontuario», rimando com «desvario» e «Cuf-Rio». O Abecedário passa a escrever-se «Abecedario», em homenagem a dario, grande Imperador da Pérsia, que, por sua vez, se vai escrever «Persia» para rimar com «aprecia», já que qualquer persa aprecia uma homenagem, mesmo que seja só uma simples omenagem. Já dizia acentuadamente Fernando Pessoa que «a minha pátria é a língua portuguesa». Agora passa a dizer «a minha patria é a lingua portuguesa», em que «patria» deixa de ser anomalia e «lingua» assim, nua e crua.
Será possível imaginar os ilustres filólogos de Cabo Verde a discutir minúcias de etimologia grega com os seus congéneres de Moçambique? Imagine-se o seguinte texto, em que as palavras sublinhadas serão obrigatoriamente (para não falar nas grafias facultativas) escritas pelos portugueses, caso o acordo seja aprovado:”A adoção exata deste acordo agora batizado é um ato otimo de coonestação afrolusobrasileira, com a ajuda entristorica dos diretores linguisticos sãotomenses e espiritossantenses. Alguns atores e contraalmirantes malumorados, que não sabem distinguir uma reta de uma semirrecta, dizem que as bases adotadas são antiistoricas, contraarmonicas e ultraumanas, ou, pelo menos, extraumanas. No entanto, qualquer superomem aceita sem magoa que o nosso espirito hiperumano, parelenico e interelenico é de grande retidão e traduz uma arquiirmandade antiimperialista. Se a eliminação dos acentos parece arquiiperbolica e ultraoceanica, ameaçando a prosodia da poesia portuguesa e dificultando a aprendizagem da lingua, valha-nos santo Antonio, mas sem mais maiúscula. A escrever »O mano, que é contraalmirante, não se sabe mais nada, mas não é sobreumano«? O que é que deu nos gramáticos de além-mar (ou escrever-se-á alemar)? A tortografia será uma doença tropical assim tão contagiosa?”
Os portugueses no fundo assinaram um Pacto ortográfico que sabe a pato. Ninguém imagina os espanhóis, os Franceses, ou os Ingleses a lançarem-se em acordos tortográficos, a torto e a direito, como os Portugueses. Cada país – Seja Timor, seja o Brasil, seja Portugal – tem o direito e o dever de deixar desenvolver um idioma próprio, Portugal já tem uma língua e uma ortografia próprias. Há já bastante tempo. O Brasil, por sua vez, tem conseguido criar um idioma de base portuguesa que é riquíssimo e que se acrescenta ao nosso. Os países africanos que foram colónias nossas avançam pelo mesmo caminho. Tentar «uniformizar» a ortografia, em culturas tão diversas, por decretos aleatórios que ousam passar por cima de misteriosos mecanismos da língua, traduz um insuportável colonialismo às avessas, um imperialismo envergonhado e bajulador que não dignifica nenhuma das várias pátrias envolvidas. É uma subtracção totalitária.
A ortografia brasileira tem a sua razão de ser, e a sua identidade. Quando lemos um livro brasileiro, desde um «Pato Donald» ao Guimarães Rosa, essas variações são perfeitamente compreensíveis. Até achamos graça. Como os Brasileiros acham graça à nossa. Tentar «uniformizar» artificialmente a ortografia, para além das bases mínimas da Convenção de 1945, é da mesma ordem da estupidez que pretender que todos os que falam português falem com a pronúncia de Celorico ou de Salvador da Bahia. é ridículo, é anticultural, é humilhante para todos nós. Se não tivessem já gozado, era caso para mandá-los gozar com o Camões.
Imaginem-se os biliões de cruzeiros, escudos, meticais, patacas e outras moedas que vai custar a revisão ortográfica de todos os livros já existentes. Imagine-se o distanciamento escusado que se vai causar junto das gerações futuras, quando tentarem ler escorreitamente os livros do nosso tempo. Sobretudo, imagine-se a desautorização e a relativização que o acordo implica. Amanhã, uma criança há-de escrever esperanssa e quando for chamada a atenção, dirá «tanto faz, que estão sempre a mudar, e qualquer dia desaparecem as cês cedilhados». Ou responderá, muito simplesmente: «Pai, mas é assim que se escreve em Cabo Verde!»
“A língua portuguesa nasceu do latim – toda a gente sabe. Um dia, a língua brasileira, e a língua são-tomense, e a língua angolana serão também línguas novas e fresquinhas que nasceram da língua portuguesa. Ninguém há-de respeitar menos a língua por causa disso. (Nós também não desrepeitamos o latim.) As línguas são indissociáveis das culturas e das histórias nacionais, e elas são diferentes em todos os países que hoje falam português à maneira deles. A maneira é a maneira deles, e a nossa é a nossa. A única diferença é que Portugal já há muito que achou a sua própria maneira, tanto mais que a pôde ensinar a outros povos, e é um ultraje e um desrespeito pretender que passemos a escrever como os Moçambicanos ou como os brasileiros. Eles são países novinhos. Nós somos velhinhos, e não faz sentido ensinar os velhinhos a dizer gugudadá, só para que possam «falar a mesma língua» que as criancinhas. Sem império, Portugal tem ainda a dignidade de ter sido Império. Mas há um feitio mesquinho que se encontra em muitos portuguesinhos de meia-tijela, que consiste em ter medinho que as ex-colónias se esqueçam de nós. Estes acordos absurdos são sempre «ideia» dos Portugueses armados em donos da língua. A verdadeira dignidade não é essa – é soltar a língua portuguesa pelo mundo fora, já que a sua flexibilidade é uma das suas maiores riquezas. Aquilo que já aconteceu – haver um português brasileiro, um português angolano, um português indiano – é prova gloriosa disso. Mas quando os Portugueses desejam meter-se na vida linguística dos outros, é natural que os outros também se metam na nossa. Os próprios participantes deste último Acordo parecem ter perdido completamente a cabeça, aceitando normas ortográficas disparatadas para a língua portuguesa de Portugal. Sem ingerências da nossa parte, seriam inaceitáveis as ingerências dos outros. O Acordo agora proposto – que o Governo deveria ler muito cuidadosamente, antes de consigná-lo, entre saudáveis gargalhadas, ao caixote do lixo da história – é uma mistura diabólica e patética de extremo relaxamento ortográfico («tudo vale, seja na Guiné, seja em Loulé) e de inadmissível sobranceria cultural («tudo vale, mas nós é que temos o aval»). Faz lembrar aqueles miúdos que dizem «Eu faço o que vocês disserem, desde que eu possa ser o chefe»).
Dizem que é «mais conveniente». Mais conveniente ainda era falarmos todos inglês, que dá muito mais jeito. Ou esperanto. Dizem que a informática não tem acentos. É mentira. Basta um esforçozinho de nada, como já provaram os Franceses e já vão provando alguns programadores portugueses. Dizem que é mais racional. Mas não é racional andar a brincar com coisas sérias. A nossa língua e a nossa ortografia são das poucas coisas sérias que Portugal ainda tem. É irracional querer misturar política da língua com a língua da política.
O que vale é que, neste momento, muitos portugueses – escritores, jornalistas e outros utentes da nossa língua – estão a organizar-se para combater a inestética monstruosidade. Que graça tinha se se fizesse um Acordo Ortográfico e nenhum português, brasileiro ou cabo-verdiano o obedecesse. Isso sim, seria um acordo inteligente. Concordar em discordar é a verdadeira prova de civilização”.
Transcrito de Explicações de Português , de Miguel Esteves Cardoso(Assírio & Alvim, 2ª edição, 2001)

Já conhecia, como conheço muito do que se publicou contra o Aborto Ortofágico. Até deve ser a única questão política (porque de política – saloia – se trata e não de qualquer produção científica) em que estou de acordo com o Vasco Graça-Moura… O que me impressiona é a data da edição: 2001.As argumentações contrárias ao Aborto começaram muito antes. Outros livros e artigos foram publicados. Houve petições públicas à AR, a que a maioria – bronca – dos deputados não ligou nenhuma.A cambada de imbecis (muito dótores e prófessores) arregimentada para fecundar a estupidez congénita dos inventantes ortofágicos, chocar e expelir o Aborto prosseguiu, impávida, a sua missão neo-colonialista. Dez anos passaram sobre a edição do livro do MEC, muitos mais sobre a invenção do frankentaisnico mostrengo. Mas, em tempos que dizem de crise, os diversos poderes do Estado limitam-se a cumpliciar-se com o crime ou a permanecer em conveniente estado catatónico, aliás mui adequado à estupidez militante, nada fazendo, nem sequer – em nome da crise que agitam – para poupar os milhões que nos vai custar (a nós, povo) esta tentativa de imposição do Aborto e sua disseminação. A única esperança é que, como todos os abortos, este Ortofágico não vá longe e faleça, de morte macaca, nos flácidos membros anteriores de todos os que contribuiram para o nascimento desta bestialidade…
Lamento dissentir profundamente de “ámbolos” textos, do do Esteves Cardoso e do comentário, por agora único.Convido os senhores a passar pela Galiza (“Comunidad Autónoma de Galicia”) e informar-se do que se passa nesta Terra do Esquecimento com o tema que eles maltratam. (E desculpem…)Se querem solucionar o “seu” problema “português”, abandonem Portugal ou reconvertam-no em “Comunidad Autónoma” do reino bourbónico: Por cá não há problemas ortográficos… no castelhano. Também não (dada a censura a que estamos submetidos os lusófonos) na “ortografía del gallego”. Poderiam talvez conhecer o seu futuro, de Portugal e dos portugueses nacionalistas radicais que parecem ser, desde o Vasco Graça Moura até o resto de contraditores irresponsáveis (E desculpem… mas é o que, desde fora do seu recuncho, parecem os senhores): com o castelhano não teriam esses “gravíssimos” probelas que dizem ter…António Gil Hernández, da AGLP
Lamento que António Gil misture duas questões diferentes.Por um lado, houve a imposição, por um Estado fascista, do normativo ortográfico do castelhano (e do castelhano, propriamente dito) a todas as nações incluídas no “reino de Espanha”. Ao que, creio, se acrescentou a proibição do ensino e a tentativa de erradicação do uso de outras línguas pátrias, substituídas, à força, pelo castelhano. Caberia (e coube, quando houve condições e coragem para tal) aos falantes dessas línguas – que o totalitarismo quis destruir – resistir, preservá-las, defendê-las e, após a instauração da democracia, recuperá-las plenamente para o uso quotidiano e a literatura; quanto à ortografia, essa recuperação, no caso da Galiza, deveria passar pela tradição da escrita galega, brutalmente interrompida. A tarefa dos defensores de uma norma galega do galaico-português é conquistar o povo para falar e escrever a sua língua: nenhum auxílio “exterior” salvará o que eles próprios não conseguirem salvar.Por outro lado, temos a imposição, recente, a todo um povo – por uma maioria de governantes e deputados, representativa mas inegavelmente inculta – de um cozinhado mal amanhado, com objectivos políticos: um “acordo ortográfico” desnecessário e único no Mundo (os anteriores “acordos” não impediram os brasileiros de usarem a “sua” ortografia). Mesmo se necessário, deveria expurgar-se a sua elaboração de qualquer intrusão política e trabalhar tão só no âmbito da linguística.AG não estará suficientemente informado dos argumentos dos opositores deste Aborto Ortofágico, a quem vai apelidando de “nacionalistas radicais” e “irresponsáveis”, com a facilidade e leveza que caracterizam precisamente os ignorantes… e os totalitaristas, que reduzem tudo ao preto-e-branco: quem é contra o que lhes parece útil só pode ser um malandro, a classificar conforme o que ocorrer, no momento, ao “utilitarista” de turno. Se o estivesse, saberia que são de ordem científica as razões desde sempre invocadas por esses opositores (que não são uma récua de bestas, mas incluem muitos dos intelectuais mais prestigiados do país e diversas instituições oficiais que, significativamente, devendo obrigatoriamente ser consultadas, deram pareceres negativos, que teriam de ser acatados, se a razão e a lei tivesse algum significado para os reles “cozinheiros”, que as ignoraram e tentaram, mesmo, subtraí-las ao conhecimento público), nada tendo a ver com nacionalismos bacocos. O único argumento de cariz político alguma vez avançado foi, precisamente, o de ser inaceitável que um processo deste tipo seja desencadeado apenas por razões políticas, cuja concretização se traduziu na submissão à norma brasileira, com argumentos tão idiotas que me abstenho de reproduzir.Se os galegos não cuidam da defesa da sua língua – que muitos consideram ser o galaico-português – escrita “à sua maneira” (e não arranjada por vias que lhe são exteriores), porque hão-de ser os portugueses a empurrá-los, na pressão sobre as instituições estatais “espanholas”, atrelando-os a tal Aborto – que outra coisa não se pretende, à capa do que suponho ser a ambição de aplicar o “acordo” na Galiza? Terei muito prazer em os ajudar, se tal estiver ao meu alcance, no objectivo da plena libertação da língua recuperada para a literatura (e que literatura!) pela imensa Rosalia de Castro, em “Cantares Galegos” e “Folhas novas”. Mas recuso fazê-lo por veredas tortuosas, caucionando uma aberração cultural e científica, mais uma vez por razões políticas e não linguísticas. Porque é isso que está e sempre esteve em causa. O texto do MEC, já antigo, esclarece-o perfeitamente: só não entenderá quem não queira (admito, porque vejo o Mundo a cores, que haja quem não tenha capacidade para isso).Para finalizar, recordo apenas que o “mirandês” foi já reconhecido como uma língua (suponho que não importada do espaço cósmico). E não precisa do Aborto para nada.Quanto a AG, este “nacionalista radical” e “irresponsável” sugere-lhe que, com os seus companheiros de luta e labuta, procure seguir os caminhos abertos corajosamente por Rosalia. Porque o que entendo que estão a fazer, agarrando-se a algo que é tão alheio às raízes do galego como à essência da língua que se fala em Portugal, é traí-la.
Não sei o suficiente para ter uma posição final sobre a matéria, mesmo depois de ler linguistas pró e contra. Há coisas no AO que estranho outras nem tanto.Mas, em coerência, não deveria o MEC citar Camões e Pessoa usando as ortografias usadas pelos próprios? Quanto à citação que faz de Fernando Pessoa (Bernardo Soares), que creio contestou a reforma ortográfica de 1911, lembro-me de já a ter lido, supostamente na grafia original de Fernando Pessoa (Bernardo Soares): “Minha patria é a lingua portugueza.”A ser assim, lá ia ao ar a figura de estilo do MEC.
Também não sou linguista, como o Pedro (afirma-o num comentário a outro artigo). Mas sempre me interessei por linguística e filologia, o que me levou a empreender alguns estudos, por iniciativa própria, e a acompanhar, através das mais diversa leituras, de autores de diferentes épocas e com diversas perspectivas, a evolução da língua portuguesa e da sua grafia (já que dificilmente se poderá falar de uma “ortografia”, antes da reforma de 1911). Não ter uma formação académica específica, não me impede de ter opiniões, sobre alguns casos concretos, como o do AO e da sua notória dispensabilidade, e também algumas ideias sobre a utilidade de existir uma ortografia, i.e., um conjunto de regras uniformizadoras no modo como se transmite para a escrita uma norma linguística, sendo que numa língua, como é o caso da nossa, podem existir diferentes normas.Não vou falar muito mais do que chamo Aborto Ortofágico. Além do exemplo das deformações introduzidas na escrita por regras (não todas, mas, mesmo assim, demasiadas) mal elaboradas, como é o caso, que sempre cito, do “espetador”, que muitos fazem derivar erradamente da nova grafia “espetáculo”, o que nem o AO prevê, visto que, em Portugal, se pronuncia o “c” de espectador, é notória a falta de coerência do AO, que chega a aceitar tantas formas diferentes de escrever a mesma palavra, conforme se pronuncie nos diversos países, que logo por aí confessa a sua inutilidade.O que acontece (e não aconteceria se se estabelecesse uma ortografia para cada “norma” do português, conforme a prosódia aceite como a mais praticada nos diversos países de língua portuguesa) é que muitas ortografias (das mais diversas línguas) não contribuem para uma boa pronúncia da língua que procuram reproduzir. Este é um problema sentido por muitos especialistas, de vários países, com quem tenho tido oportunidade de conversar.Não sou um “foneticista”, mas creio que uma Ortografia deveria procurar um equilíbrio razoável entre a referência à etimologia da palavra e as indicações indispensáveis à sua correcta pronúncia: por exemplo, suprime-se o trema, que os brasileiros utilizavam, quando seria recomendável, sim, a sua reintrodução na ortografia da norma portuguesa, de modo a desfazer confusões desnecessárias e não termos de ouvir, na mesma frase, reputados apresentadores de telejornais dizerem “seqüestro” (à brasileira) e sequestrado (sem a pronúncia do “u”, como é correcto em Portugal.A insistência dos especialistas na ambiguidade da pronúncia, nomeadamente de palavras menos vulgares, o que este AO só agravou (para todas as normas!) esconde, na realidade, a intenção de reservar para uma “elite” um conhecimento que se subtrai ao “vulgo”, ainda que dele façam parte muitos leitores inveterados, apesar de uma formação escolar escassa. Um leitor interessado em escritores mais complexos e de vocabulário mais extenso, mas mal preparado, até por razões sócio-económicas, não será capaz de pronunciar correctamente muitas das palavras novas que encontra, a menos que tenha a sorte de ter acesso (também aí a falta de dinheiro pesa!) a um dicionário que esclareça a pronúncia da palavra, além dos seus significados. Quem estuda e lê em línguas estrangeiras, sabe bem do que estou a falar, mesmo que tenha a sorte de pertencer à tal “elite”. A ausência desta preocupação representa, efectivamente, uma forma de discriminação classista dissimulada mas, nem por isso, menos grave.Portanto, para além de, suponho, dar que pensar o facto de em nenhuma outra língua se verificar esta preocupação com “acordos”, a questão referida desaconselha qualquer acordo deste tipo.Mas há ainda outras questões, em particular literárias, que em minha opinião recomendam, sim, a manutenção de diferenças que transmitam precisamente o “sabor” das diferentes prosódias. Não dá mais gozo a um leitor reconhecer a especificidade da linguagem de diversas regiões do Brasil (a Baía de Jorge Amado!) ou das ex-colónias? E como seria possível a um Vásquez Montalbán “situar” o leitor num determinado país latino-americano, recorrendo, nos diálogos, às construções sintácticas e morfológicas e também à grafia própria desse país?Desde quando estéreis académicos ousam alterar o que os criadores oferecem aos leitores?