Desindustrialização, Globalização 3ª Série, 2ª Parte- A. Le Monde. Selecção, introdução e tradução por Júlio Marques Mota.

Bem vindos ao grande debate sobre Globalização, sobre Desindustrialização

 

Nota de entrada

 

Consideramos importante este editorial do Le Monde, porque levanta bem a questão de fundo que é nada mais, nada menos do que a necessidade urgente de levantar um debate sobre a globalização, sobre a mundialização, porque assume o papel pioneiro de dois grandes autores, Maurice Allais e Paul Samuelson que foram a nossa companhia na aula escrita para o ministro da economia e meu antigo aluno, Álvaro Santos Pereira. Publico-o porque também nos mostra como é que um texto bem-intencionado, suponho, mas feito há pressa, creio, pode dar a ideia de forte desonestidade intelectual ou de enviesamento total quanto à intenção patente no título. Por isso transcrevo os comentários, de alguns leitores francamente irritados com as imprecisões do texto.


Para dar aos leitores uma ideia do que afirmámos:


– achamos estranho que seja citado explicitamente Pascal Lamy, Director da OMC, e esta é o órgão encarregado de levar a globalização a todos os cantos do mundo, e ele é o homem que assume que os ordenados chineses serem um oitavo ou um décimo dos europeus não é concorrência falseada, mesmo produzindo com as técnicas europeias. Está tudo dito, desse ponto de vista!


– achamos estranho a forma passiva como o jornalista encara o trabalho na China, e a nossa análise sobre esta questão será o último capítulo desta série de textos dedicados à globalização, à desindustrialização, em que partiremos de um relatório de   CHINA LABOR WATCH intitulado Tragedies of Globalization: The Truth Behind Electronics Sweatshops :No Contracts, Excessive Overtime and Discrimination: A Report on Abuses in Ten Multinational Electronics Factories. Ainda agora, ainda hoje os jornais noticiavam que 8 000 empregados duma fábrica pertencente aos sul-coreanos da LG Group entraram em greve, em Nanjing.


– achamos estranho ter citado o exemplo da fábrica de Fooxconn onde se produzem os produtos da Apple e veja-se o editorial: O próprio conceito de importação e exportação está a perder   o seu significado tradicional: realizado a 90% nos Estados Unidos e na   Europa, mas montado na China, um iPhone vendido em Nova York é um produto made in China e vem pesar   um pouco mais   sobre o défice comercial americano! 

 

Mesmo supondo que seja verdade, mas que toda a gente duvida, que apenas 10 % do iPhone   seja a contribuição chinesa, o jornalista não fala em salários que serão um décimo dos americanos por hora de trabalho, o jornalista não fala da taxa de remuneração do capital da Foxconn na ordem dos 5% por cento contra os 15 % mínimos dos americanos. Mesmo supondo os tais dez por cento, teríamos que os multiplicar possivelmente por 4 e o discurso seria outro!


– achamos estranho que nem uma palavra sobre as condições de trabalho das centenas de milhares de jovens a produzir os iPhone citados.


Por tudo isso deixámos aqui os comentários que estão no blog do Le Monde. Bem‑vindos  à globalização é o título do editorial , bem vindo à barca de A Viagem dos Argonautas também,   mas com um debate   posto em termos que julgamos bem mais credíveis. Assim publicaremos amanhã um texto de Henri Bourguinat que retoma a minha aula escrita para o actual ministro da Economia e depois um texto longo do mesmo autor onde se questiona a forma simples como a questão tem sido encarada e como é de facto encarada neste editorial. O tema é sério e é delicado mas só consciencializando-nos que assim é será possível  analiticamente avançar nesta matéria.  Bem-vindos, pois.  


Sejam bem-vindos ao grande debate sobre a mundialização.

 

Homenagem seja feita a alguns franco-atiradores da economia que desde há já alguns anos   colocam uma questão difícil: a globalização do comércio tem beneficiado ou afectado um país como a França? Tendo em vista o persistente desemprego de massas que nos aflige a todos nós assim como o desenvolvimento vertiginoso da desigualdade de rendimentos no nosso país, a questão é mais do que legítima.

 

Deve-se a alguns brilhantes economistas brilhantes, ao americano Paul Samuelson e ao francês Maurice Allais, terem-no levantado pela primeira vez. Faz agora parte do debate público. De uma forma directa ou indirecta, este será um dos temas da campanha para as eleições presidenciais de 2012.


Esta questão atravessa todo o campo político. Ela está posta à esquerda   a homens como Arnaud Montebourg no PS e, mais importante ainda, a Jean-Luc Mélenchon, do partido de esquerda, que têm defendido uma forma de proteccionismo europeu. Ela também vira à direita: uma fracção da UMP não lhe é insensível, e a Frente Nacional quer-se assumir como o partido que defende um proteccionismo hexagonal..

 

Para a maior parte dos eleitos que têm de gerir as deslocalizações brutais, a questão é tudo menos académica – esta está no centro das suas preocupações. O sucesso do livro de Montebourg (Votez pour la démondialisation, Flammarion) mostra que o tema se tornou popular.


Há apenas um medo a ter em conta quando uma questão tão difícil ganha o terreno   político: o de excessiva simplificação. Em suma, desemprego e desigualdade, tudo seria a culpa da China, esta máquina monstruosa a exportar.


Na “oficina do mundo”, trabalharia intensamente um exército infeliz contra o qual os nossos assalariados teriam sido brutalmente colocados em concorrência. Em suma, a globalização estaria relacionada com um enorme dumping social e ambiental. E para o corrigir, seria suficiente restabelecer os direitos aduaneiros nas fronteiras (na França ou na União Europeia).


Nada é menos inexacto, como o afirmava recentemente no nosso jornal (Le Monde, 1 de Julho) o director geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) , Pascal Lamy. Hoje, muitos dos produtos industriais importantes – aviões de linha, electrónica de ponta, motores – saem de cadeias de fabricação multinacionais. Um Airbus, um iPhone, um motor eléctrico não são produzidos num só e um único país, ou mesmo em dois, mas numa meia dezena.


O próprio conceito de importação e exportação está a   perder   o seu significado tradicional: realizado a 90% nos Estados Unidos e na   Europa, mas montado na China, um iPhone vendidoem Nova Yorké um produto “made in China” e vem pesar   um pouco mais   sobre o défice comercial americano!


Num país como a França, o défice da balança comercial é devido mais   ao   sucesso dos   nossos concorrentes europeus do que aos exportadores do Sul… Aqui e ali, o restabelecimento da protecção pautal resolveria nada, ou quase nada. Isso   seria o encantamento,   isto seria do Voodoo.


Debatemos as consequências da mundialização. Mas nunca em termos simplistas. .

 

Comentários ao texto publicados no blog do Le Monde

 

 

1.         De onde vem esta afirmação de que o iPhone é realizado em 90 % nos USA e na Europa? Este artigo é feito na base de afirmações infundadas. Estamos no domínio das puras banalidades. O que é lamentável para os assinantes do Jornal Le Monde. Decepcionante!


2.         A globalização tem aspectos positivos: ele torna obsoletas as baronias locais assim como os pequenos chefes de província. (incluindo Paris). Ela questiona as evidências egocêntricas e narcisistas consideradas eternas e obriga-nos a considerar o mundo que nos rodeia, que nós, europeus, nos tínhamos já habituado a ignorar e a explorar muito tranquilamente. Tem aspectos negativos: aqueles que são punidos ao perderem os seus empregos ou a sua riqueza não são os culpados da situação anterior!


3.         A “excessiva simplificação” é este próprio artigo (!) que reduz a globalização apenas ao comércio e à sua geografia das fronteiras, enquanto se trata mas é da globalização de um sistema baseado sobre a exploração do homem pelo homem que destruiu a natureza e prematuramente esgota seus recursos: o ” gentil ” capitalismo de papa a tornar-se global, é isso!


4.         Basta olhar para quem defende a globalização para saber quem beneficia com o crime.


5.         É uma pena que o editorial do Le Monde cometa um erro de sintaxe tão calamitoso (“Rien n’est MOINS inexact” au lieu de “Rien n’est PLUS inexact – Nada há de mais certo ” em vez de ter colocado “Nada há de mais errado”). Um leitor um pouco menos delicado podia ver aqui um destes lapsos reveladores a apontar para um fundo de discórdia no pensamento, aqui, mais provavelmente, a apontar para uma divisão política dentro da linha editorial.


Editorial du Monde : bienvenue au grand débat sur la mondialisation ! 01.07.11 .

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