UTOPIA E DISTOPIA NO UNIVERSO POÉTICO DO NEO-REALISMO (NOTÍCIAS DO BLOQUEIO, DE EGITO GONÇALVES E A INVENÇÃO DO AMOR, DE DANIEL FILIPE) – 3 – por Carlos Loures

(Continuação)

Hermenêutica do conceito de distopia

Como vimos, o conceito de utopia é conhecido pela generalidade das pessoas e usado com frequência na linguagem coloquial – em cinco séculos, o termo viajou do círculo restrito da intelectualidade até ao mundo das pessoas comuns. Ao inverso, distopia é ainda termo especializado, pertencente ao espaço académico e literário. É um vocábulo com diversas acepções. A mais corrente deste substantivo feminino é a de “situação anómala de um órgão”. No sentido literário, significa o oposto de utopia. Porém, não conheço nenhum dicionário português que incorpore a acepção filosófica e literária do termo. O Diccionario de la lengua española, da Real Academia, também não o integra. Os dicionários franceses que consultei, incluindo uma edição do Larousse, não registam o termo nessa acepção. Só em alguns dicionários ingleses o encontrei registado no sentido em causa, como foi o caso do Oxford (Advanced Learners, na 7ª edição). Para dystopia diz – «an imaginary place or state in wich everything is extremely bad or unpleasant» (um lugar ou estado imaginários onde tudo é extremamente mau ou desagradável). O conceito define-se, pois, por oposição à geografia utópica, onde se descrevem lugares onde tudo é perfeito e agradável.

Não se trata, em todo o caso, de um neologismo, pois foi usado pela primeira vez no século XIX. Aparece registado numa intervenção de John Stuart Mill no Parlamento Britânico. Referindo-se a adversários de bancada, disse Mill ser elogioso designá-los por «utópicos», pois considerava que uma utopia era algo demasiado bom para poder ser concretizado. O que os adversários defendiam, porém, era demasiado mau para que pudesse ser posto em prática – deviam, por isso, ser designados por «dis-tópicos». Como o prefixo grego dis significa «mau», «anómalo» e a palavra «topos» quer dizer «lugar», a tradução literal para «distopia» é «lugar mau». Assim, a acepção registada pelos nossos dicionários, situação anómala de um órgão explica, por empréstimo, o sentido do cânone literário – situação anómala de um estado ou lugar.

Genealogia breve da literatura distópica

Não é possível nem teria sentido fazer aqui uma enumeração exaustiva dos livros onde se podem encontrar estruturas distópicas. O primeiro que me parece ser necessário referir é Civitas solis – A Cidade do Sol, de Tommaso Campanella. É referido como exemplo de utopia, digamos, que o terá sido subjectivamente. Objectivamente o que para o dominicano era a cidade ideal não passava de uma prisão-modelo (do mesmo modo que Salazar ao pretender realizar o sonho pessoal de transformar Portugal numa imensa Santa Comba Dão, criou um país de pesadelo – a sua utopia converteu-se em distopia para milhões de pessoas). Note-se que Campanella esteve preso 27 anos sob a acusação de heresia e talvez por isso tenha concebido uma sociedade em que a margem de iniciativa deixada aos cidadãos era nula – tudo estava previsto. Inclusivamente haveria um ministro do Amor, o «Grande Maestro da Geração» para regular as relações sexuais – um fiscal da procriação, portanto. Uma sociedade assim, tão perfeitamente organizada, configura uma estrutura social protectora, repressiva, doentia – distópica, portanto.

Salto por cima dos elementos distópicos na obra de Swift, por exemplo, e vou directo à Máquina do Tempo, romance publicado em 1895, de H.G.Wells (1866-1946). Numa sociedade situada num futuro longínquo, apesar duma aparente perfeição, a humanidade dividia-se em duas sub-espécies – os morlock e os eloi, sendo que os primeiros se alimentavam dos segundos. Não podia haver melhor retrato do modelo social desencadeado pela Revolução Industrial – a relação explorador/explorado que na época vitoriana atingiu o seu apogeu, com crianças de cinco anos e mulheres grávidas a trabalhar em fábricas e minas, enquanto por Regent Street se pavoneavam ociosos dândis.

O Admirável Mundo Novo (Brave New World, 1932), de Aldous Huxley (1894-1963) é outro marco importante no percurso deste cânone literário. Fala-nos de um futuro onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente (antevendo a manipulação genética) e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras de uma sociedade organizada por castas. A sociedade não possui a ética religiosa e valores morais que supostamente regem a sociedade actual. As dúvidas e insegurança dos cidadãos resolvem-se com o recurso a uma droga, sem efeitos colaterais – a “soma”. Não existe o conceito de família e as crianças recebem educação sexual desde a mais tenra idade. Perfeito e horroroso.

Porém, quando se fala em distopia na literatura, logo ocorre um título – «1984», de George Orwell. A obra, que corresponde em todos os itens da sua estrutura à tipologia da ficção cientifica, é uma distopia pura, situada no futuro, 25 anos depois da publicação do romance. Dir-se-ia que «1984» se transformou no arquétipo perfeito de distopia – configurando, por antonomásia, o próprio conceito. E o que afinal é uma distopia? É um conceito com mais de cem anos, mas que, fora do âmbito restrito do meio literário e académico, está pouco divulgado entre nós. Muito em síntese, e para tudo dizer em três palavras significa o oposto de utopia. O romance de Orwell, sendo talvez o primeiro a que a designação se aplicou, teve exemplos a montante e a jusante.

Por exemplo, Ray Bradbury (1920) é o autor de um dos mais famosos arquétipos da literatura distópica posterior a Nineteen Eighty-four – Refiro-me a Fahrenheit 451 (1953), romance adaptado ao cinema, em 1966, por François Truffaut. Nele se apresenta um futuro onde, considerados subversores da ordem instalada, todos os livros são proibidos. As opiniões pessoais são consideradas anti-sociais e hedonistas. O pensamento crítico é suprimido… – com a ditadura do “politicamente correcto”, com a agressividade do marketing e a vigilância dos opinion makers, vamos a caminho desse patamar. A sociedade é governada por uma oligarquia, através de consignas inspiradas nos spots publicitários. O protagonista trabalha como “bombeiro” o mesmo que “queimador de livros”). O número 451 refere-se à temperatura (em graus Fahrenheit) na qual o papel ou o livro arde. Menciono esta obra, pois está relacionada, de certo modo, com um dos poemas que são objecto deste texto.

(Continua)

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