1 – O EXCESSO DE INFORMAÇÃO PROVOCA AMNÉSIA – entrevista com Umberto Eco

 

PROFESSOR O pensador e romancista italiano Umberto Eco completa 80 anos nesta semana. Ele está escrevendo sua autobiografia intelectual (Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis)

Na passada sexta-feira, 30 de Dezembro, Umberto Eco o grande escritor, humanista e professor italiano, que acaba de completar 80 anos, concedeu uma longa entrevista ao jornalista Luís Antônio Giron, correspondente em Milão da revista semanal ÉPOCA, de São Paulo pertencente à Editora Globo.

 

Dada a grande extensão da entrevista, vamos publicá-la em três dias sucessivos, sempre neste horário das 19 horas. Umberto Eco foca sucessivamente três temas – a sobrevivência do livro em papel, a internet e as suas armadilhas e o livro que vai publicar a seguir (Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis).

 

 

 

 

ÉPOCA – Como o senhor se sente, completando 80 anos?

 

Umberto Eco – Bem mais velho! (Risos.) Vamos nos tornando importantes com a idade, mas não me sinto importante nem velho. Não posso reclamar de rotina. Minha vida é agitada. Ainda mantenho uma cátedra no Departamento de Semiótica e Comunicação da Universidade de Bolonha e continuo orientando doutorandos e pós-doutorandos. Dou muita palestra pelo mundo afora. E tenho feito turnês de lançamento de O cemitério de Praga. Acabo de voltar de uma megaexcursão pelos Estados Unidos. Ela quase me custou o braço. Estou com tendinite de tanto dar autógrafos em livros.

 

ÉPOCA – O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é de que o livro não vai acabar. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?

 

Eco – Sou coleccionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de electricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei óptimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.

 

ÉPOCA – Apesar dessas melhorias, o senhor ainda vê a internet como um perigo para o saber?

 

Eco – A internet não selecciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento.

 

ÉPOCA – Mas o conhecimento está se tornando cada vez mais acessível via computadores e internet. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de universidades e instituições confiáveis estão alterando nossa noção de cultura?

 

Eco – Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.

 

ÉPOCA – Há uma solução para o problema do excesso de informação?

 

Eco – Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar.

 

(Continua)

5 Comments

  1. Belíssimo começo. Eco é um dos poucos sábios vivos… Além disso, tem sentido de humor.Não admira que esteja a ser tão mal interpretado por tantos. Aguardo com ansiedade a continuação…

  2. Ora, aí está, bem explicadinho, com toda a autoridade intelectual do Umberto Eco, aquilo que, mais toscamente, estou farto de escrever: tudo o que anda pela Internet (incluindo os famosos poemas apócrifos, retalhados, mal traduzidos, atribuídos a autores que jamais escreveriam tais parvoíces) tem de ser “validado”, através de uma fonte credível!Ainda recentemente, a Associação 25 de Abril enviou os seus votos de Ano Novo, acompanhados por um PP abominável. escrito em “brasilês”, aludindo ao “suicídio” de Maiakowsky, que assim, aspado, atribuía ao “leninismo” (Maiakovsky suicidou-se – apesar de já em pleno estalinismo, provavelmente por motivos passionais – para aí uns 6 anos após a morte de Lenine, se a memória não me falha); citando um poema de Brecht pessimamente traduzido, com pedaços acrescentados, outros truncados e cuja última parte era atribuída a outro sujeito; etc! E o nosso amigo Vasco Lourenço, ou alguém por ele, ainda acrescentou um comentário, como de quem acreditou no mostrengo!Grazie, Umberto!

  3. é verdade que conhecer é filtrar. é verdade também que este imenso hipermercado de conteúdos, correndo o risco de banalizar, também dá acesso ao conhecimento. sem ele não se filtra. o pobre senhor ignorante, partilha um poema e diz que é de Pessoa, não são raras as vezes que os senhores cultos fazem o mesmo. trabalho de casa? pesquisar!enquanto o homem da tasca recita e acerta um poema de Pessoa…

  4. Quis lembrar-me desta citação de T.S Eliot </a>que usei há anos num trabalho sobre informação científica e não estava a conseguir reproduzi-la na íntegra:Where is the life we have lost in living?Where is the wisdom we have lost in knowledge ?Where is the knowledge we have lost in information?T. S. Eliot , The rock (1934)

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