A GRANDE POESIA – Fernando Pessoa – “Vaga, no Azul Amplo Solta”

 Um café na Internet

 

Metafísica, de Vladimir Kush

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 Fernando Pessoa

Vaga, no Azul Amplo Solta

Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

 

 Fernando  Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — 30 de Novembro de 1935). Um dos maiores poetas de língua portuguesa.

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