Desindustrialização, Globalização, 3ª Série – 3ª Parte – A China na Europa, da cidade de Prato na Itália à SAAB na Suécia I. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.

 

  1. A intelligentsia chinesa escolheu a cidade de Prato na Toscana, como uma ponte para o resto da Europa. 

Audrey Duperron

 

Nos últimos 3 anos, a polícia da cidade de Prato, uma cidade Toscana de 188.000 habitantes famosa desde a idade média pela sua indústria têxtil e que ainda hoje fornece 27% da produção italiana, tem realizado centenas de rusgas em fábricas de propriedade de chineses. Acompanhados por tradutores assim como por inspectores do trabalho e apoiados por um helicóptero para localizar os possíveis fugitivos, que ele pretende expulsar o que é conhecido em Itália pelos “clandestinos”, os chineses chegaram com um visto de turista, mas instalaram-se para trabalhar clandestinamente, muitas vezes em condições desumanas. Em 15 anos, 40.000 imigrantes chineses ter-se-iam assim instalado na cidade de Prato, dos quais cerca de metade sem quaisquer documentos.


Agora, há 5000 empresas pertencentes a chineses na cidade de Prato, das quais 4000 no domínio dos têxteis, e a cidade é ela que alberga a maior comunidade chinesa na Itália. Eles introduziram um novo método de produção, menos caro, muitas vezes a trabalhar para a indústria italiana de luxo. Os vestuários que fabricam, o “pronto moda” (modo rápido), estão habilitados a usarem o sinónimo de qualidade, a etiqueta “made in Italy”.

Desde a crise, as relações têm-se tornado desagradáveis, agressivas mesmo, entre a população local e os chineses, e os locais acusam os chineses de lhes tirarem os seus empregos e de minarem as suas empresas enquanto estes últimos acusam os italianos de os assediarem e de os discriminarem. Eles são acusados também de não pagarem os seus impostos sobre os salários, o que lhes dá uma vantagem sobre as empresas locais. Alguns dizem até que se trata de uma conspiração do governo chinês, e estes defendem então que se deve proibir as transferências de dinheiro através da Western Union, entre a Itália e a China e ajudar as empresas italianas do Prato. “Prato foi escolhida pela intelligentsia chinesa para ser de ponte de entrada a partir da qual os chineses vão ocupar o resto da Europa”, diz Riccardo Mazzoni, um membro do PDL, o partido de Silvio Berlusconi. “Durante 20 Anos até agora, o partido político no poder tem deixado a comunidade chinesa proliferar como um vampiro, despojando a cidade de Prato do seu dinheiro para o enviar para outros lugares”.


Para Huang Ruikai, o porta-voz do consulado chinês em Florença, tudo isto é muito exagerado. “O argumentário do número de imigrantes é uma manifestação do desenvolvimento contínuo da globalização”, explica-ele. “Prato é o centro da indústria têxtil na Europa, e a política local é bastante favorável aos imigrantes, por isso, é mais fácil para eles obter aqui vantagens económicas”. É muito fácil de compreender porque é que um grande número de imigrantes estrangeiros vem para aqui *a procura do seu próprio “sonho europeu”.


Muitos destes imigrantes provêm da região de Wenzhou. Eles poderão ser pagos a cerca de 500 euros por mês nas fábricas de Prato e enviarem dinheiro para o país, ou confiarem as suas poupanças ao sistema bancário chinês subterrânea, o fei – ch’ien (dinheiro que voa), quando tiverem acabado de pagar ao seu passador de clandestinos.


Houve ainda assim algumas histórias de sucesso, como Marco Wang que chegou de Wenzhou no início dos anos 90 a trabalhar 12 horas por dia numa fábrica de casacos de peles em Florença. Depois, vinte anos mais tarde, este tem um restaurante e uma fábrica de têxteis, tem um Mercedes-Benz e vive numa bela casa nas colinas toscanas. “Muitos italianos se queixam que nós, os chineses, lhes tiramos os seus postos de trabalho.”, explica. “Mas se os chineses pudessem falar em público, estes diriam que os italianos não têm a vontade de fazer coisa nenhuma “. “Quando os chineses vêem uma oportunidade, eles juntam-se, e eles exploram-na muito rapidamente”.


Contudo, os chineses podem ter um papel fundamental a desempenhar na conversão da Itália, como os italianos podem inspirar, por contrapartida, inspirar os chineses na arte de viver. Wang compreendeu-o bem: “A China é uma terra de sacrifício. As pessoas trabalham toda uma vida, envelhecem e nunca ganham a alegria de viver. Eu, direi que acho a Itália muito bonita. Adoro as praias, as igrejas, a cultura. (…) Talvez os italianos nos possam ensinar a nós, chineses, a sermos capazes de aproveitar a vida”.


Audrey Duperron ,‘L’intelligentsia chinoise a choisi la ville de Prato en toscane comme tête de pont pour occuper le reste de l’Europe’. ExPress,  Novembro de 2011

 

 

 

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