Jürgen Habermas já teve, já viu, o suficiente. O filósofo está a tentar fazer tudo o que pode nos dias de hoje para chamar a atenção para o que ele vê como o fim do ideal europeu. Ele tem a esperança que pode assim ajudar a salvá-lo – de políticos incompetentes e das forças obscuras do mercado.
Jürgen Habermas está furioso. Ele está realmente muito furioso. Está mesmo cheio de fúria – pois pessoalmente leva tudo isto a peito.
Ele inclina-se para a frente. Ele inclina-se para trás. Ele mexe as mãos inquietas para ilustrar depois das suas tiradas as deixar, a seguir, cair no seu colo. Ele bate na mesa e grita: “Já chega!” Habermas simplesmente não tem nenhuma vontade de ver a Europa remetida para o caixote do lixo da história mundial.
“Estou a falar aqui como um cidadão”, diz. “Eu preferiria estar sentado em casa à minha secretária, acreditem em mim. Mas isto é muito importante. Todo o mundo tem que entender que nós temos decisões críticas a assumir. É por isso que estou tão envolvido nesse debate. O projecto europeu não pode continuar a estar nas mãos desta elite. “
Já chega! A Europa é o seu projecto. É o projecto da sua geração.
Jürgen Habermas, de 82 anos, quer passar a palavra. Habermas está sentado no estrado do Instituto Goethe em Paris. Ao lado dele fica um professor bem-humorado que faz seis ou sete perguntas em pouco menos de duas horas – respostas que durem menos de 15 minutos não são o estilo de Habermas.
Normalmente, Habermas diz coisas inteligentes como, por exemplo: “nesta crise, os imperativos funcionais e sistémicos colidem” – referindo-se às dívidas soberanas e à pressão dos mercados.
Às vezes, ele balança a cabeça de forma consternada e diz: “Isto é pura e simplesmente inaceitável, simplesmente inaceitável” – referindo-se ao diktat da UE e à perda da Grécia da sua soberania nacional.
“Não há convicções.”
E então ele fica na verdade furioso novamente: “Eu condeno os partidos políticos Os nossos políticos têm sido incapazes de aspirarem a qualquer coisa para além de quererem ser reeleitos. Eles não têm nenhum sentido da política, já nem há convicções…”
É da natureza desta crise que a filosofia e a conversa de bares ocasionalmente se encontram em pé de igualdade.
Também é da natureza dessa crise que muitas pessoas falam muito, e nós definitivamente poderiamos ser esclarecidos por alguém que se aproxima dos problemas de modo sistemático, como Habermas o fez no seu mais recente livro.
Mas acima de tudo, está na natureza dessa crise que, quanto mais ela continua, mais confusa fica a situação.
Torna-se mais difícil acompanhar as suas voltas e mais voltas e ver quem é que é responsável e pelo quê. E à medida que o tempo corre, as alternativas estão a desaparecer à frente dos nossos olhos.
É por isso que Habermas está tão furioso: com os políticos, com a “elite funcional” e com os media. ” O senhor é da imprensa?” pergunta a um homem na plateia que fez uma pergunta. “Não? Demasiado má.”
Habermas pretende que a sua mensagem se difunda. É por isso que ele está aqui sentado. É por isso que ele escreveu recentemente um artigo no jornal Frankfurter Allgemeine, em que acusou os políticos da UE de cinismo e de “virarem as costas para os ideais europeus”. É por isso que ele acaba de escrever um livro – um “livrinho”, como ele lhe chama – que o Die Zeit, respeitado semanário alemão, prontamente comparou com o ensaio de Immanuel Kant de 1795 “Paz Perpétua. Um Esboço Filosófico“.
Mas ele tem uma resposta para a questão do caminho que deve tomar a democracia e o capitalismo?
Um golpe de Estado Silencioso
“Zur Verfassung Europas” (“Sobre a Constituição da Europa “) é o nome do seu novo livro, que é basicamente um longo ensaio no qual ele descreve como a essência da nossa democracia tem mudado sob a pressão da crise e do frenesi dos mercados. Habermas diz que o poder deixou de estar nas mãos do povo e foi transferido para corpos de legitimidade democrática duvidosa, como o Conselho Europeu. Basicamente, Habermas sugere que os tecnocratas desde há muito que fizeram um golpe de Estado silencioso.
“Em 22 de Julho de 2011, Angela Merkel (a chanceler alemã) e Nicolas Sarkozy (Presidente francês) concordaram num vago compromisso – que está certamente aberto à diferentes interpretações – entre o liberalismo económico alemão e o estatismo francês estatista”, escreve . “Todos os sinais indicam que ambos gostam muito de transformar o federalismo executivo consagrado no Tratado de Lisboa numa supremacia intergovernamental do Conselho Europeu o que vai contra o espírito do acordo”.
Habermas refere-se ao sistema que Merkel e Sarkozy estabeleceram durante a crise como uma “pós-democracia”. O Parlamento Europeu praticamente perdeu toda a sua influência. A Comissão Europeia tem “uma posição estranha, parece estar suspensa,” sem realmente ser responsável pelo que é feito. Mais importante ainda, Habermas aponta para o Conselho Europeu, a quem foi dado um papel central no Tratado de Lisboa – que Habermas vê como sendo uma “anomalia”. Ele vê o Conselho Europeu como um “ corpo governamental que emerge na política sem ser autorizado a fazê-lo.“
Ele vê uma Europa em que os Estados são dirigidos pelos mercados, em que a União Europeia exerceu grande influência, grande pressão, sobre a formação de novos governos na Itália e na Grécia, e em que o que o ideal que tão apaixonadamente defende e ama para esta Europa tem estado a ser sido simplesmente virado às avessas.
Um fenómeno raro
Neste ponto, deve-se mencionar que Habermas não é um descontente, não é um pessimista, não é nenhum profeta da desgraça – ele é um optimista praticamente imbatível e é isso que faz dele um fenómeno tão raro na Alemanha.
O seu problema como filósofo tem sido o de que ele aparece sempre como um pouco monótono, porque, apesar de todas as grandes palavras e de bem claro na exposição, ele é, sobretudo, muito profundo. Ele tem o ar de furioso como Marx , a sua visão aguda da modernidade como Freud e a sua clareza tem como suporte os pragmáticos americanos. Habermas foi sempre um amigo, sempre disposto a esclarecer, um racionalista e um anti-romântico.
No entanto, os seus livros anteriores Transformação Estrutural da Esfera Pública e Between Facts and Norms foram, naturalmente, um pouco diferentes dos exercícios festivos escritos pelos filósofos pós-modernos de origem francesa como Jacques Derrida e Jean.Baudrillard . Além disso, uma outra das publicações de Habermas, Teoria da Ação Comunicativa, tem certamente as suas armadilhas até porque se trata da sua teoria do “discurso sem coerção” que, mesmo antes da invenção do Facebook e Twitter, foram bastante ousadas, se não mesmo até talvez ingénuas.
Habermas nunca foi um atirador de setas ao alvo, como o pensador esloveno Slavoj Žižek, e não é um malabarista, como o filósofo alemão Peter Sloterdijk. Ele nunca se colocou na posição de um malabarista e foi sempre um pensador de esquerda (embora haja quem discorde). Habermas esteve ao lado do movimento estudantil até que as coisas para ele ficaram muito complicadas. Do ponto de vista intelectual teve sempre muito interesse e muito prazer nas matérias constitucionais e nas questões processuais. Isto também continua a ser basicamente a sua posição de hoje.
Habermas acredita verdadeiramente na racionalidade do povo. Ele verdadeiramente acredita na velha, na ordenada democracia. Ele realmente acredita na existência de uma esfera pública que serve para tornar as coisas melhores.
(Continua)
