I CONCURSO DE BLOGOCONTOS DE “A VIAGEM DOS ARGONAUTAS”

Conforme temos noticiado, o júri deste Concurso emitiu ontem o seu veredicto. O terceiro prémio foi atribuído ao conto Mel de caju, apresentado sob o pseudónimo de Xabéu no dia 12 de Dezembro. O autor é ADÃO CRUZ.

 

 

 

 

Adão Pinho da Cruz nasceu no lugar de Figueiras, freguesia de Castelões, concelho de Vale de Cambra, em 1937. Licenciado em Medicina e Cirurgia pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, especializado em Cardiologia e sub-especializado em ecocardiografia. Prestou serviço militar na Guiné, entre 1966 e 1967, como alferes médico.

 

Usando palavras suas: «a profunda vivência da guerra e o profundo contacto com uma população miserável, constituíram uma das mais ricas e marcantes experiências da sua vida». Apanhado pela explosão do 25 de Abril, não fugiu ao novos deveres de cidadania criados pela Revolução e, nomeado pelo Governador Civil de Aveiro, exerceu durante um ano as funções de Presidente da Comissão Administrativa da Câmara municipal de Vale de Cambra.

 

É membro da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, da Sociedade Europeia de Cardiologia, da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos e foi também membro da Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos. Para além da sua actividade como médico, é escritor e pintor, com diversos livros publicados, de contos, poemas e pinturas. Fez várias exposições, individuais e colectivas, realizadas em Portugal e no estrangeiro.

 

Principais obras publicadas: Esta Água Que Aqui Vem Dar (poemas e pinturas-1993), Vem Comigo Comer Amendoim (contos, ilustrados por Manuel Cruz-1994), Palavras e Cores (prosa poética e álbum de pinturas-1995), Adão Cruz – Tempo, Sonho e Razão (álbum de pinturas e textos de Albano Martins e César Príncipe-2003), Nova Ponte Sobre um Velho Rio (conjunto de três pequenos volumes de poesia, com capas sobre pinturas do autor-2006), Adão Cruz – Hora a hora rente ao tempo (álbum de pinturas e texto do autor-2007) e Adão Cruz – Um gesto de silêncio(álbum de pinturas e poemas, com texto do autor -2010).

 

Sobre o trabalho que distinguiu, o júri emitiu o seguinte comentário. um texto de qualidade e beleza, que respira sensualidade integrada na realidade humana e telúrica. De realçar: «E assim se deu ao tempo a recordação de uma espécie de vento fustigando as entranhas e erguendo no ar o corpo que ardia por dentro com sabor a mel, antes de dar ao fogo a momentânea liberdade de queimar o sonho que morre ao longe, ao pé dos coqueiros.»

 

Vamos ler

 

Mel de caju

 

A Isabel nunca andara na Faculdade, para falar tão bem nas traseiras do sentimento, mas foi criada de servir em Bissau, o que, numa aldeia do mato, era um curso superior. Isabel era uma mulher muito bonita, daquelas que são sempre futuro, ainda que a pele se engelhe. As suas formas afeiçoavam-se aos olhos, mais despindo a existência do que o corpo. Uma espécie de mulher à flor da pele, bem calculada por dentro. Mulheres nascidas de si mesmas, sem vida nos outros. Mulheres de além-desejo, voo de ave, caminhando fora dos passos. Isabel, um torvelinho de tonturas.

 

O homem dela sabia a mulher que tinha e todo se babava quando se dizia que ela era mais linda que surucucu empinada, mais doce que fruto de cajú. Todo ele era uma viagem por dentro da Isabel, adivinhando-lhe o mundo no contar das coisas. Manhã levantada era sol de todo o dia, noite deitada era sonho que não dormia.

 

Um dia…

 

Frente à palhota da Isabel, o médico limpava com uma compressa embebida em permanganato de potássio, as feridas do dorso das vacas, verdadeiros buracos abertos pelos estilhaços das granadas e pelos pássaros pica-sangue, impiedoso tormento dos animais.

 

Ao cair da noite…

 

Tudo é fingimento quando o sangue não se entorna no desaconchego da solidão. O provisório serve o regresso da alma, o fogo de outros calores invade os olhos através de janelas que há muito se não abriam. Aceitou o convite, não mediu a fome nem a galinha, sonhou o despir da Isabel até à nudez pecaminosa e espetou os olhos no cair da noite.

 

Ao cair da noite Isabel estava no último acto da confecção do delicioso cafreal da tabanca. Primeiramente refogado, apenas em sumo de limão e piri-piri, depois grelhado na brasa e em seguida frito com cebola.

 

Os olhos dele cravaram-se não na galinha mas nas ancas da Isabel. Seguiam a luz sensual do petromax, que penetrava abusivamente na malha de tule até às roupas que vinham de dentro. Senhora de reflexos e de encontros, Isabel não prestava menos atenção à sedução do que à galinha.

 

Não era preciso entender como é que uma pequena caixa e um disco de madeira giravam música. O esvoaçar do tule era o centro do mundo, o arder da fogueira de todo o frio. Toda a força daquele colo maternal, toda a ternura da silhueta envolta em cabelos penosamente desfrisados durante longos anos, toda a firmeza das carnes subtis, todo o trigo desse abrigo adormecido, toda a tempestade recolhida nesse pedaço de noite tombaram sobre a febre quando Isabel iniciou o streep-tease.

 

E assim se deu ao tempo a recordação de uma espécie de vento fustigando as entranhas e erguendo no ar o corpo que ardia por dentro com sabor a mel, antes de dar ao fogo a momentânea liberdade de queimar o sonho que morre ao longe, ao pé dos coqueiros.

 

 

 

2 Comments

  1. Subscrevo a Augusta C. e quero congratular os vencedores.Espero que esta iniciativa se repita e que hajam muitos vencedores.Parabéns à” viagem dos argonautas” e a todos os concorrentes.

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