Habermas, o último Europeu. A Missão de um filósofo para salvar a União Europeia. Por Georg Diez – II. Selecção e tradução de Júlio Marques Mota.

 

 

(Continuação) 

 

Parte 2: Uma Visão da Europa na Encruzilhada

 

Isto também explica porque é que ele se sentiu feliz face a este público nesta noite em meados de Novembro,em Paris. Habermas é um homem bastante alto, magro. Assim que ele entrou no palco, o seu andar um pouco relaxado deu-lhe um ar ligeiramente desportivo. Com as pernas esticadas debaixo da mesa, ele parecia estarem casa. Seele está numa secretária ou não, esta é a sua profissão: comunicação e troca de ideias em público.


Habermas  esteve sempre onde se tratava da questão de colocar a Alemanha de volta ao seu verdadeiro caminho, por  outras palavras, em colocá-la no seu caminho – em relação ao Ocidente; no caminho da razão- durante o debate violento entre os historiadores alemães em 1986, que incidiu sobre a abordagem do país ao seu passado, à  Segunda Guerra Mundial; seguindo a reunificação alemã, em 1990, e durante a Guerra do Iraque. É a mesma história, hoje, quando está aqui, numa secretária,  numa  sala fechada na cave do Instituto Goethe, e fala para uma audiência  de 200 a 250 pessoas que ali estão, cidadãos bem informados. Ele diz que, ele, o teórico da esfera pública, não tem nenhuma ideia sobre o Facebook e o Twitter – uma declaração que, naturalmente, parece um pouco desadequada, para não dizer que parece mesmo até um absurdo. Habermas acredita no poder das palavras e na racionalidade do discurso. Esta é a filosofia solta.


Enquanto os activistas do movimento Ocupar recusam  formular nem que seja uma só  exigência,  Habermas enuncia precisamente  porque é que ele vê a Europa como um projecto de civilização a que não deve ser permitido  falhar, e porque é que a “comunidade global” não é apenas viável, mas também necessária para conciliar a democracia com o capitalismo. Caso contrário, como ele mesmo diz, corremos o risco de ter uma espécie de estado permanente de emergência – pois se falharmos são  os países que vão simplesmente ser conduzido pelos mercados. A Itália apressa-se a instalar  Monti foi um dos títulos maiores na semana passada  do  Financial Times Europa.


Por outro lado, eles não são tão distantes, afinal, os revolucionários live-stream, dos Occupy e dos filósofos escritores. É basicamente uma divisão de trabalho – entre o analógico e o  digital, entre o debate e a acção. É um campo de jogo onde todos têm o seu lugar, e nem sempre é claro quem são os bons e os maus rapazes. Estamos actualmente num momento em que assistimos aos factos de as regras estarem a ser reescritas e os papeis estarem a ser definidos.


A desmontagem da Democracia


“Algum tempo depois de 2008”, diz Habermas enquanto bebe um copo de vinho branco após o debate, “Eu compreendi que o processo de expansão, integração e democratização não significa automaticamente avançar por sua própria conta, que tudo pode ser reversível, que pela primeira vez na história da União Europeia, estamos actualmente a passar  por um desmantelamento da democracia. Nunca pensei que isto fosse possível. Chegámos pois a uma encruzilhada. “


Isto também deve ser dito: Sendo o filósofo mais importante da Alemanha, ele é um homem espantosamente paciente. Ele ficou claramente contente quando conseguiu, finalmente, encontrar um jornalista a quem ele pode dizer o quanto ele detesta a forma como certos media procuram captar as boas graças de Merkel – como ele detesta esta  ligação  oportunista com o poder. Mas então de modo delicado elogia os media  por terem finalmente, acordado no ano passado e tratarem a Europa de uma forma que demonstra claramente a extensão do problema.


“A elite política não têm realmente nenhum interesse em explicar ao povo que as decisões importantes são feitas, em Estrasburgo, pois eles apenas têm medo de perder o seu próprio poder”, diz ele, antes de ser abordado por uma mulher que não estava inteiramente na posse das suas faculdades. Mas isto é assim em tais eventos – é assim que as coisas vão com um discurso sem coerção. “Eu não compreendo totalmente as consequências normativas da questão”, diz Habermas. A resposta manteve a mulher a meio caminho.


Ele é, acima de tudo, um senhor de uma certa idade e quando se tem um eloquente controlo da  linguagem ainda significa  alguma coisa desde o tempo em que os  homens carregavam lenços de pano. Ele é um filho da guerra e perseverante, mesmo quando parece que ele parece estar  prestes a cambalear . Isto é importante para entender porque é que ele leva o tema da Europa tão a peito, pessoalmente. Tem a ver com o mau passado  da Alemanha e com o bom futuro da Europa amanhã, com a transformação do passado para o futuro, com um continente que já foi dilacerado  pela culpa – e agora está despedaçado pela dívida.


Sem Reclamação


No passado, havia inimigos; hoje, existem mercados – é assim que a situação histórica poderia ser descrita é assim que Habermas a vê diante de si. Ele está em pé num auditório superlotado e superaquecido da Universidade Paris Descartes, dois dias antes da noite passada no Instituto Goethe, e ele está a falar para os alunos que parecem mais interessados em  estabelecer o capitalismo em Bruxelas ou em Pequim do que passar a noite numa tenda do movimento Occupy.


Depois de Habermas ter entrado no hall, ele imediatamente reorganiza o assento na sua mesa e os cartões com os nomes  sobre as mesas. De seguida, o microfone não funciona, o que, na prática, parece ter sido um elemento de acção comunicativa. Em seguida, um professor faz uma apresentação, uma introdução, aparentemente faz parte do ritual académico em  França.


Habermas aceita tudo isso sem reclamar. Ele avança para a tribuna e explica os erros que foram feitos na construção da União Europeia. Fala de uma falta de união política e do “capitalismo incorporado”, “embedded capitalismo”, um termo que Habermas utiliza para descrever uma economia de mercado controlada pela política. Ele faz de Bruxelas uma entidade amorfa tangível  nas suas  contradições, e sublinha  o facto de que as decisões do Conselho Europeu, que impregnam toda a nossa vida quotidiana, não têm na verdade uma base legal, legítima. Ele também fala, porém, sobre a oportunidade que está no Tratado de Lisboa de criar uma união que é mais democrática e politicamente mais eficaz. Isso também pode emergir a partir da  crise, diz Habermas. Ele é, afinal, um optimista.


Então ele é atingido pela primeira onda de fadiga e tem necessidade de se sentar. O ar está abafado e, por instantes, tudo parece que ele não será capaz de continuar com a sua apresentação. Depois de um copo de água, Habermas levanta-se novamente.


Ele protesta  contra “o derrotismo político” e começa a descrever o processo de construção de uma visão positiva para a Europa saída a partir dos escombros de sua análise. Habermas esboça o Estado-nação como um lugar em que os direitos dos cidadãos são mais bem protegidos, e como essa noção poderia ser  desenvolvida e aplicada  a nível europeu.

 

(Continua)

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