Em 8 de Janeiro de 1959 o Movimento 26 de Julho triunfava em Cuba. Fidel Castro entrava em Havana – Fulgencio Baptista e os seus sicários debandavam, escondiam-se. Cuba deixava de ser o bordel dos Estados Unidos e iniciava um caminho difícil e que viria mesmo a verificar-se impossível – o da dignidade compatibilizada com o bem estar.
Um político do Estado Novo, já depois do 25 de Abril, disse em conversa privada que «os povos têm de escolher entre a liberdade e o pão». A tese dele era a de que durante o salazarismo, não havia liberdade, mas havia pão. Cuba, com os Estados Unidos tão perto e após tudo o que se passou – a tentativa de invasão e as conspirações para matar Fidel, por exemplo – acolheu-se sob a protecção de uma União Soviética, ela própria minada por contradições e já na contagem decrescente que conduziria três décadas depois à sua dissolução. 33 anos depois, Cuba continua a ser um espinho cravado na garganta de um gigante corrupto e egoísta. Um gigante que morrerá vitimado pelo veneno que produz. Mas para ser esse incómodo espinho, os cubanos vivem sacrifícios e privações de toda a espécie – inclusive privação da liberdade. Mas sem a compensação de terem pão.
33 anos após a entrada em Havana, o mundo continua a ser um lugar estranho, onde a animalidade do homem prevalece sobre a luminosa inteligência de que também somos capazes. O nosso amigo Mário de Oliveira, diz que devemos deixar de ser animais racionais e assumir a nossa condição de seres humanos. Por outras palavras, Máximo Gorki dizia o mesmo – «o que é preciso é que o homem se vá distanciando do animal».
Há 33 anos, neste dia foi um dia de grande júbilo para os democratas de todo o mundo; em Portugal, os antifascistas, não podendo manifestar publicamente esse júbilo, trocavam olhares e sorrisos cúmplices – «se foi possível lá, também o será aqui». A erradicação dos tiranos com Baptista ou Salazar, nem sempre significa a liberdade – em Cuba vive-se como sabemos – penúria, falta de pão e falta de liberdade – resistindo a um bloqueio que, pensávamos, Obama poria termo. Em Portugal, pela porta onde saiu a ditadura, entrou uma democracia formal que nos dá uma liberdade virtual e nos ameaça retirar o pão. O poeta francês Hubert Juin disse que «Nunca morremos tanto como quando nos foge a esperança» – que a esperança não nos fuja.
