Temos vivido nos últimos tempos submersos por uma avalanche dupla: por um lado, a causada pela crise europeia, que procuram reduzir a uma crise do euro, ou ao problema das dívidas soberanas, e por outro a causada pela densa e complicada situação dos problemas com que se debatem os portugueses em Portugal.
No resto do mundo passam-se coisas muito complexas, com efeitos muito fortes na tal avalanche que nos sufoca. Um exemplo é o das eleições norte-americanas para a presidência da república, que têm sempre reflexos em todo o planeta (e mesmo fora dele: veja-se a exploração espacial). Já houve quem defendesse, com ar muito série, que toda a população mundial deveria participar nessas eleições. Não subscrevendo essa ideia, temos de concordar que convém prestar-lhes muita atenção.
Há muitas notícias. A maioria diz respeito às disputas no partido republicano entre os vários candidatos a candidato à presidência. Tem sido um espectáculo com algum interesse, colorido, e até por vezes engraçado, mas no conjunto pouco edificante. Os vários intervenientes têm em comum mostrarem uma assinalável tendência para carregarem num extremismo, de direita, claro, assustados que estão pela influência do Tea Party e organizações similares, como as igrejas evangélicas, e também para mudarem de ideias em espaços de tempo curtíssimos, nomeadamente os que anteriormente tinham mostrado uns ares um pouco mais progressistas. Ainda não se consegue formular uma ideia mais clara sobre quem poderá ser o escolhido. Neste momento, os melhores colocados parecem ser Mitt Romney, ex-governador do Massachusetts, e Newt Gringrich, mas isso poderá mudar em pouco tempo. Novas personalidades poderão entrar na corrida. As chamadas primárias decorrem nos vários estados até Junho. Seguir-se-á a decisão final pelo partido republicano.
Obama, cuja reeleição já tem sido vista como muito difícil, à vista de todo este espectáculo, parece recuperar as suas possibilidades. Contudo, para o resto do mundo, não está garantido que seja uma boa notícia. Obama desistiu praticamente de todas as promessas da sua candidatura em 2008. Desde o encerramento de Guantánamo e a guerra do Afeganistão, até ao desemprego e à reforma de saúde, tem registado muitos fracassos. A retirada do Iraque sabe a pouco no conjunto. O progressismo e a abertura que advogava parecem abandonados. A morte de Bin Laden, melhor dito, o seu assassinato (por muitos crimes que tenha cometido, nenhum poder legítimo pode acabar assim com uma pessoa) terá servido para acalmar os que o julgavam tíbio. Mas inquietou os que o tinham por justo e moderado.
Hoje, às 19 horas, neste blogue publicamos uma entrevista ao intelectual paquistanês Tariq Ali, intitulada O império americano precisava desesperadamente de Barack Obama em que este reproduz as ideias que explanou no seu livro The Obama Syndrome, Surrender at Home, War Abroad. Desenvolve a tese de que Obama é o candidato favorito de Wall Street. E realmente Obama, em que tantas pessoas de esquerda acreditaram, abandonou as políticas que dizia defender, e parece querer entrar por campos que alguns teriam como reservados a pessoas muito mais para a direita. Inclusive será de temer que a questão do Irão se agrave. Obama talvez pense que politicamente isso o favoreça. É mais um mito que se evapora.

