OS MEUS MESTRES – 1 – por Dorindo de Carvalho

 

 

 

Depois  de inaugurada a minha  Exposição de Pintura  OS MEUS MESTRES  no Museu da Água / Reservatório da

Mãe  d’Água das Amoreiras, prometi aqui prestar o meu tributo a alguns ou a tantos Mestres, fora da área da Pintura, que directa ou indirectamente se cruzaram no meu caminho fornecendo-me exemplos. Mestres foram aqueles de quem recebi ensinamentos nas mais diversas áreas das artes e da «arte» de pensar e de viver. Inicío estes escritos com a minha homenagem e gratidão a uma figura, decerto das menos conhecidas, mas para mim foi das mais importantes, senão a mais importante que conheci e que me proporcionou ensinamentos e uma visão global da «arte» do pensamento.

 

Terminado o Curso nocturno da Escola António Arroio e o Serviço Militar normal, fui, pouco mais de um ano mais tarde, mobilizado para a Guerra Colonial em Angola. Educado no seio de uma família tradicional respeitadora dos conceitos e preconceitos em vigor, nada mais podia fazer do que aceitar essa mobilização como um acto natural e correcto. Não tinha, confesso, como muitos, o conhecimento da realidade dessa guerra e também não tomei a decisão de fugir dela, como alguns, unicamente porque era uma guerra.

 

Fiquei em Luanda aproximadamente um ano antes de seguir para o interior. A minha especialidade militar (operações e informações) foi para isso decisiva.

 

Foi então nessa estada em Luanda, que ao ter contactado com o meio cultural angolano conheci várias pessoas interessantes, muitas das quais a minha memória não me ajuda a recordar seus nomes. Conheci pintores, entre eles o Cruzeiro Seixas que na altura era Director do Museu de Angola, conheci o Rui Romano, um personagem da Rádio de Angola e que mais tarde pertenceu aos quadros da Radiotelevisão Portuguesa, e conheci o Heitor Gomes Teixeira.

 

Aqui está o Mestre de quem quero falar.

 

Na altura o Heitor Gomes Teixeira era o Director do Teatro Experimental de Luanda. Homem culto, demasiado culto, se é que há excesso em se ser culto. Colaborei com ele para o desenho de cenários e figurinos das obras teatrais que ele colocou em cena. Foi uma experiência interessante.

 

Durante o meu convívio com o Heitor houve em mim uma abertura alargada a trezentos e sessenta graus sobre a visão do mundo e das suas realidades.

 

Para o Heitor Gomes Teixeira o Teatro era uma paixão. Paixão germinada enquanto trabalhava no Teatro Experimental do Porto com António Pedro, personalidade vincada ao Teatro português e às Artes Plásticas, na altura que estudava em Coimbra.

 

Em Luanda era advogado e professor no Liceu de Luanda.

 

Ainda em Luanda participou num filme de Augusto Fraga «A Voz do Sangue», parece de má memória para ele.

  

Mais tarde decidiu tirar o Curso de Filologia Germânica e veio para Lisboa.

 

Entretanto trabalhou com Luzia Maria Martins no já desaparecido Teatro Vasco Santana existente na Feira Popular em Lisboa, na obra Bocage – Alma Sem Mundo de que a Luzia Maria Martins era autora, iniciando a figura de Bocage. Pouco tempo depois por algo que não lhe agradou abandonou essa participação. Após o seu curso, foi leitor de português em algumas cidades da Europa e por último pertenceu aos quadros da Universidade Nova de Lisboa. Heitor Gomes Teixeira, como autor escreveu algumas peças teatrais como por exemplo a farsa teatral Os Homens Dividem-se em Dois Grupos, editada pela Imbondeiro, velha e conceituada editora angolana da antiga Sá da Bandeira.

 

No ensaio, para além da apreciável colaboração  na Revista Colóquio/ Letras da Fundação Gulbenkian  em  que

 consta o texto Sá de Miranda : Um Soneto Maneirista, é ainda autor de outras obras e publica em1977, numa edição da Universidade Nova de Lisboa, As Tábuas do Painel de um Auto (António Serrão de Crasto), uma bibliografia do poeta acompanhada de uma selecção de textos inéditos com a reprodução do facsímile de um dos textos.

 

Heitor Gomes Teixeira e Urbano Tavares Rodrigues na inauguração da Exposição Reencontro(s). Exposição motivada pelo meu regresso da Venezuela, onde estive 12 anos.

 

Obra que é o único estudo contemporâneo que se conhece acerca da vida e obra deste poeta e boticário judeu seiscentista (da Academia dos Singulares), vítima do Santo Ofício e deixado morrer na miséria.

 

Sem saber explicar, depois da inauguração da minha exposição Reencontro(s) que realizei na Galeria da

 Câmara Municipal da Amadora em 1993, perdi o contacto com o Heitor. O que lamento!

 

Muito gostaria de ter noticias dele!

 

Nem o Manuel Simões, nem o Liberto Cruz que o conheci na mesma altura em Luanda, sabem como comunicar com o ele.

 

Voltando a esse tempo, transcrevo extractos de notas publicadas nos jornais de Luanda em 1963 sobre as minhas primeiras exposições.

 

 

Desligado da atitude ou da figura «surpreendidas», Dorindo Carvalho, um dos quatro melhores desta mostra de pintura volta-se para o individuo, que analisa, para depois sintetisar no tipo, com um objectivo marcadamente social. Isola o homem, depois de o arrancar às circuntâncias. Nesse homem sobressaem a força, a virilidade, a trágica aceitação do trabalho como destino e penitência, o orgulho dos pés firmes no chão sem deus ou do rosto ocultando-se à piedade), enquanto na mulher, dona das mesmas formas vigorosas e solidárias, há apesar de tudo a ironia cristalizada num sorriso disposto a entender, e uma espantosa mão aberta – uma espantosa mão aberta ! – ao respeito e à veneração, mais do que à esmola do preço.

 

Portinari andou por ali… no movimento, ou no estaticismo intencional, trágico, mas obstinado na crença de dias melhores… Dorindo Carvalho é o mais distante de Paris e o mais africanizante dos seus companheiros. Talvez por isso nos emocionam mais os seus quadros-documentos, profundamente dramáticos, mas livres de literatura, em que a realidade é a dor epicamente esperançosa. Dor que não sucumbe e esperança que não esquiva ao protesto, até se tornar incómoda. Panfleto liberto de esteticismos gongorizantes, não esquece ter sido a pintura o meio escolhido para o diálogo. E por isso é pintura o resultado obtido.

 

Heitor Gomes Teixeira in «Provincia de Angola» Junho1963, Exposição 10 x 3 …

 

Uma exposição desesperante. Exactamente aquilo que as pessoas não gostam de ver – as palavras que Liberto Cruz achou para o momento, os olhos cheios das figuras dolorosas espalhadas pela sala… …Angola, reinventou-a Dorindo Carvalho. E isso é que é importante! Viu-a com os olhos de quem passou meses por terras de que guardamos coragem apenas para ouvir falar…

Heitor Gomes Teixeira In ABC de Luanda – Outubro 1963

 

5 Comments

  1. Desculpe a intrusão…cheguei por uma amiga que me encaminhou o seu «link», pois sabe que tenho andado pelo google na busca do professor Heitor. Desde que viveu em Algés, nunca mais o encontrei. Fui aluna dele de mestrado na Nova, sei que se aposentou e que mudou de residência…o meu marido era amigo pessoal, mas também o perdemos…pode estar com uma filha em Sines, mas desconheço o endereço.Ainda bem que me perdi por aqui, pois a sua pintura é fantástica!bj

  2. Obrigado pelo seu comentário. Sigo lamentando não saber do Heitor Gomes Teixeira. Poderá aconteder que alguém venha a dar-nos noticias.Se isso acontecer entraremos en contacto. Agradeço também a sua apreciação sobre o meu trabalho.Porque não faz uma visita ao Museu da Água /Mãe d’Água das Amoreiras até dia 29 ver a minha exposiçãp OS MEUS MESTRES. Vai gostar. Pode também visitar http://WWW.dorindocarvalho.pt

  3. Boa tarde;ao ler de que perdeu o contacto com o seu “mestre” Heitor, entristeceu-me,posso dar-lhe informações sobre ele, claro esta que publicamente não convem, entre em contacto comigo via mail e depois falamos.

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