4. De Ricardo a Stuart Mill, ainda outra aula para um ministro de ignorante disfarçado
Caros Amigos, Caros Colegas, Caros Estudantes
De um tema que estou a preparar sobre Globalização e Desindustrialização, De Prato, na Itália, à Saab, na Suécia, aqui vos deixo incomodamente uma peça do tema em questão e que pode ser encarada como uma segunda aula de Economia Internacional para o senhor Ministro destas matérias se lembrar em vez de, por este sitio, Portugal, que país foi e que país há-de voltar a ser, andar como ignorante a querer passar e com isso a bem disfarçar o cinismo político que o executivo, a que pertence, anda contra as gentes do meu país a praticar.
Vale a pena lê-la, vale a pena olhar sobretudo para a Peugeot, vale a pena perceber até a este nível, o papel diabólico que o sistema criou, as ditas agências imparciais de rating, vale a pena pensar no conceito de óptimo da União Europeia através do preço mínimo, vale a pena ver a divisão internacional do trabalho estabelecida na Renault, vale a pena pensar na razão da compra da SAAB e, neste caso, vale a pena ler os artigos que colocámos sobre Comércio Internacional, vale a pena perceber que, enquanto aqui, nesta Europa a ser entregue de bandeja aos países emergentes, o sistema é cada vez maís rígido nos princípios que a esta situação levaram, nos países com a Europa concorrentes, o sistema é cada mais flexível nos apoios necessários à indústria e aos serviços, reinventando assim o que alguém chamou de O Capitalismo Reversível[1], vale a pena pensar numa frase do texto que aqui reproduzo a propósito do encerramento da SAAB: “Uma guerra de proteccionismo que fez vítimas: os países que não quiseram ou não puderam na altura própria conservar a sua base industrial. É exactamente o caso da Suécia uma vez que o outro e único construtor foi ele também vendido em 2010, a Volvo, que por ironia extrema, ou não, contém motores Peugeot. E a um outro grupo de chineses foi vendida!” E com um muito pequeno esforço, façamos deste texto e da sua exemplificação prática, uma análise sobre a indústria automóvel, façamos mais uma aula ao senhor Ministro da Economia e meu antigo aluno a poder ser enviada. Façamos então a continuação da aula anterior que, para o senhor Ministro da Economia e meu aluno foi na altura elaborada, lembrando-se assim, e mais uma vez, que ele com as políticas do actual Executivo pela União Europeia apoiadas é uma peça importante de um modelo monstruoso que está a minar as estruturas de produção e de emprego em Portugal e na Europa, respectivamente, e que em muitos sinais já se assemelha às políticas económicas que deram a ascensão ao poder de homens como Hitler. É uma questão de confrontar o que está a ser feito com o que nos anos 30 na Alemanha de Weimar se realizou. E não me venham falar em ignorância, que ignorante é que o senhor Ministro não é, inculto talvez, mas isso parece ser o quadro geral do Governo a que pertence. De resto, a cultura está a ser também ela uma das grandes vítimas do actual executivo.
O caricato da lógica do modelo por si sustentado, senhor Ministro, é que a palavra de ordem do modelo é então privatize-se e a ter como o seu contraponto, como o seu comprador, a lógica oposta, a do Executivo chinês, que é pura e simplesmente, nacionalize-se[2]. E assim são os interruptores de Portugal que serão “made in China” e por este país comandados. E, entretanto, serão também as energias renováveis como sector nacional de futuro que se irá perder, como será também o sector financeiro a verificarem-se os rumores que por aí circulam quanto à aquisição de um banco e que virá assim a ficar ainda mais fragilizado. Os restantes bancos nacionais saberão, depois, o que representa então esta política de capitulação, mesmo do ponto de vista deles, que não é o nosso, sublinhe-se.
Das energias renováveis duas referências, porque imediatamente ligáveis à crise que atravessamos e à política de capitulação por Bruxelas imposta, com Berlim a descansar na almofada da sua arrogância imperial. E aqui estamos a falar de um sector novo que para a Alemanha poderia valer tanto em 2020 tanto ou quase tanto como o sector automóvel, o seu sector de referência, qualquer coisa, em termos de emprego como 500.000 pessoas[3]:
1. No sector da energia solar SolarWorld, nascida em 1998 e cotada em Bolsa desde 1999, tem um volume de negócios de 1,3 mil milhões de euros e emprega 3.600 pessoas em todo o mundo. De dimensão comparável, Q-Cells, fabricante de células fotovoltaicas com base em Bitterfeld (Land de Saxe-Anhalt), igualmente cotada tornou-se em 10 anos uma das empresas líderes mundiais no sector. No entanto, estas duas empresas estão sobre fortíssima pressão pelos fabricantes chineses que vendem a preços bem mais baixos os seus painéis solares de qualidade comparável aos produtos “made in Germany” subsidiados.
2. Na indústria das energias renováveis “Vemos o exemplo solar e sua estratégia agressiva para dominar o mercado mundial”, diz ela, referindo-se à emergência da China como o maior fornecedor mundial de painéis solares. E nas eólicas estamos apenas no princípio no vento, este é apenas o começo.
Mas, mesmo neste reduto do poder local, a apreensão está a crescer relativamente a um poder emergente na indústria global da energia eólica: a China.
Cinco anos atrás, não havia um fabricante chinês de turbinas para energia eólica entre os 10 maiores fabricantes mundiais. Agora, existem quatro: Sinovel, número dois à frente de Vestas; Goldwind, Dongfang e United Power.
Os gráficos abaixo [4]ilustram e bem a forte concorrência no sector, concorrência entre gigantes, concorrência pelas tecnologias de ponta, pelos mercados, na economia global:
A) Quotas de mercado
B) Variação de preços na Alemanha
C) Evolução da Alemanha e da China neste mercado global
Goodwin adquiriu um fabricante alemão de turbinas, Vensys, em 2008 e Sinovel assinou um acordo com a principal empresa de energia eléctrica grega, PPC, em Abril, para desenvolver projectos de energia eólica. O acordo mais relevante realizou-se em Julho passado quando Sinovel anunciou um acordo de exploração de mil e quinhentos milhões de euros (2,2 mil milhões de dólares) com a empresa irlandesa das energias renováveis Mainstream Renewable Power. Por seu lado, para a Sinovel a internacionalização é a sua principal prioridade, afirma o seu Presidente, Tao Gang. E continua: “os nossos negócios no estrangeiro desempenharão um papel decisivo em fazer de Sinovel uma verdadeira empresa de dimensão internacional e a Europa é sem dúvida um dos seus mais importantes mercados”. Curiosamente, a Grécia e a Irlanda e agora Portugal no domínio da energia estão nas mãos da China. Coincidência, senhor Ministro? A globalização dirá, mas de Ricardo ou de Stuart Mill destes já não falará.
A um outro nível da questão vale a pena ler a peça sobre a Renault, vale a pena questionarmo-nos porque é precisamos de Universidades de engenharia, se os sul-coreanos, os chineses, os indianos têm mais engenheiros, estes estudam com mais profundidade, com muita mais na verdade – pois não se realizam aí cursos de engenharia ou outros cursos superiores para trabalhar estatísticas e gerar incompetentes no mercado de trabalho – estão a esse nível sujeitos a um ensino qualitativamente bem diferente, e são “feitos” a custo mais baixo e sujeitos, depois, a ritmos, a intensidades de trabalho, a condições de vida e a remunerações salariais abissalmente diferentes, muito mais baixas. No limite do humor negro e nesta sequência de expressões de “vale a pena”, vale a pena perguntarmo-nos se no, plano da economia, vale a pena ter filhos, uma vez que estamos, à partida e antes mesmo de nascerem, a condená-los ao desemprego, quando, por seu lado, o trabalho é reconhecidamente o mais importante vector de integração social! E é disso que os vamos privar antes mesmo de nascerem! A população em idade activa da Índia vai na próxima década subir em 25 por cento do acréscimo da população em idade activa à escala mundial e possivelmente, como agora, vai ser colocada com salários ao desbarato na economia global, de acordo com os nossos parâmetros de vida actuais. Responder-me-ão que decidir ter ou não ter filhos em nada tem a ver com a economia, tem a ver com o homem, com a sua natureza, subjectiva e objectivamente, individual e colectivamente, tem a ver com a sociedade e com o projecto de futuro que esta em si mesma determina, e de acordo aqui, mas então, a sociedade tem a ver com quê? A economia tem a ver com quê?
[1] A lembrar um artigo no Le Monde onde se mostrava que os países emergentes defendem, e bem, os seus núcleos duros da concorrência internacional, sejam eles dos serviços ou da indústria.
[2] Relembro aqui a expressão de Daniel Oliveira, no Expresso.
[3] Financial Times.
[4] Der Spiegel.



